«A melhor homenagem é praticar o seu exemplo de revolucionário»
Morreu Blanqui Teixeira
Um exemplo de revolucionário
«Blanqui Teixeira foi, é, um daqueles “indispensáveis” de que nos fala o belíssimo e sempre actual e inspirador poema de Brecht», disse Albano Nunes, domingo, no funeral.
Centenas de camaradas e amigos marcaram presença, sábado e domingo, nas homenagens fúnebres ao histórico militante comunista Fernando Blanqui Teixeira, falecido no passado dia 1 de Outubro. Pela igreja e pelo cemitério passou muita gente, que não quis deixar de estar presente em tão triste momento para os comunistas portugueses e o seu Partido. No funeral, coube a Albano Nunes intervir em nome da direcção do PCP.
Falando junto à urna coberta com a bandeira vermelha com a foice, o martelo e a estrela de cinco pontas, o membro do Secretariado e «sucessor» de Blanqui Teixeira como director da revista O Militante, referiu-se a Blanqui Teixeira como um «daqueles indispensáveis de que nos fala o belíssimo e sempre actual e inspirador poema de Brecht». Um lutador de toda a vida!
Lembrando a sua origem intelectual (era engenheiro), Albano Nunes destacou que, em tese, Blanqui Teixeira «poderia ter tido a vida desafogada e confortável da generalidade dos seus colegas de profissão». Mas não teve, tendo feito uma «corajosa e consciente opção de classe a que foi fiel toda a sua vida». Funcionário do PCP desde 1948, esteve na clandestinidade até ao 25 de Abril. Durante a luta antifascista, conheceu a prisão e a tortura. Nestes duros momentos, «esteve sempre à altura das suas responsabilidades de comunista, nunca esmoreceu na justeza do projecto revolucionário do seu Partido», destacou Albano Nunes. Depois da sua saída do Comité Central, em 2000, manteve-se em plena actividade, «dedicando todas as suas forças e energias às tarefas da Comissão Concelhia do Barreiro, organização em que militou nos últimos anos, terra vermelha onde muito tempo viveu e que muito amou».
Para o dirigente do PCP, a melhor homenagem que podemos prestar à sua memória é «valorizar e praticarmos nós próprios o que de melhor vive no seu exemplo de revolucionário». Para Albano Nunes, há uma marca inesquecível: «a sua profunda compreensão do carácter insubstituível da organização partidária e do valor do trabalho colectivo, a sua profunda paixão pelo trabalho de construção do Partido, o empenho que procurava incutir em todos os militantes na realização de tarefas tão elementares quanto decisivas, como o recrutamento, a constituição de organismos, a formação política e ideológica de quadros, a difusão do Avante! e de O Militante, a recolha de fundos para o Partido.»

Tempos difíceis

«Blanqui Teixeira deixa-nos em tempos conturbados e de grandes perigos em Portugal, na Europa e no mundo», afirmou Albano Nunes. Para o dirigente do PCP, o capitalismo mostra a sua face mais brutal no Iraque, na Palestina e noutros pontos do planeta. «A intensificação da exploração dos trabalhadores corre a par com violentos ataques à liberdade e à soberania dos povos e as mais cruéis guerras de agressão», afirmou o membro do secretariado.
Sendo tempos de resistência e de acumulação de forças, lembrou Albano Nunes, estes são, também, tempos em que «reganha força a luta dos trabalhadores e dos povos e se renovam os motivos de confiança no futuro socialista da Humanidade». Por cá, antevêem-se, no imediato, «duras batalhas contra a violenta ofensiva de um Governo de direita cuja face se revela cada dia mais arrogante, mais incompetente, mais sombria e reaccionária», destacou o dirigente comunista. Próximo está também o XVII Congresso do Partido e «quanto ele representa de importante no caminho do reforço orgânico e da influência política dos comunistas portugueses na vida nacional».
Estas são tarefas e lutas exigentes, destacou Albano Nunes, às quais «nos lançamos com a confiança e a convicção que nos vem da justeza das causas e do projecto que defendemos, causas e projecto que animaram toda a vida do camarada Blanqui Teixeira, e cujo exemplo de revolucionário estará sempre a nosso lado».

Uma vida inteiramente dedicada a uma causa

Nascido em 4 de Maio de 1922, em Coimbra, Fernando Blanqui Teixeira aderiu, 22 anos depois, já em Lisboa, à Federação das Juventudes Comunistas e ao PCP. Estudava então no Instituto Superior Técnico, onde desenvolvia uma intensa actividade associativa. Foi membro da direcção da Associação de Estudantes desse instituto, tendo sido dela afastado por perseguição política.
Segundo Albano Nunes, do Secretariado, foi um «aluno brilhante, tendo mesmo chegado, não oficialmente, a assistente da cadeira de Química Geral». Logo aí, destacou o dirigente comunista, «revelou qualidades que o tornaram conhecido e respeitado entre os seus colegas e na sua classe profissional, possibilitando ulteriormente o notável movimento de solidariedade cívico e democrático que contribuiu fortemente para a sua libertação em 1971, movimento que mobilizou muitas centenas de engenheiros e no qual a própria Ordem se empenhou activamente».
Funcionário do PCP desde 1948, mergulhou na clandestinidade num momento, destacou Albano Nunes, em que o imperialismo desencadeava a «Guerra Fria» e intensificava a ofensiva anticomunista em todo o mundo. «Entregando-se a partir daí por inteiro à acção revolucionária, Blanqui realizou as mais variadas tarefas técnicas e de organização, nomeadamente como membro da Direcção Regional de Lisboa e de outros organismos de direcção regional.» Em 1952, torna-se membro do Comité Central, «função que exerceu com a maior dedicação durante quase cinquenta anos, tendo desempenhado das mais altas responsabilidades na Direcção do Partido», lembrou o membro do secretariado.
Ainda antes do 25 de Abril, fez parte do Secretariado e da Comissão Executiva do Comité Central, tendo sido, já na legalidade, membro da Comissão Política (entre 1976 e 1988), do Secretariado (entre 1979 e 1996) e, entre 1996 e 2000, da Comissão Central de Controlo.
Preso em 1957, Fernando Blanqui Teixeira fugiu no ano seguinte, aproveitando uma ida ao hospital de S. José. De novo capturado em 1963, foi libertado em finais de 1971, na sequência de uma importante campanha pela sua libertação.
Desde 1975 até 2000 foi director da revista O Militante. Disse Albano Nunes (que o sucedeu nessa tarefa) que aí deixou um «sulco muito fundo do rigor e da solidez ideológica que o caracterizavam». A mesma que empregou no cumprimento do seu mandato de deputado à Assembleia Constituinte, eleito pelo distrito de Coimbra.
O Secretariado do Comité Central emitiu uma nota no dia 1, em que destaca toda uma vida dedicada à causa dos trabalhadores, da democracia e do socialismo. Uma vida coerente, que a morte levou aos 82 anos.


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