«Milhares de militantes participam na preparação do Congresso»
A QUESTÃO ESSENCIAL
As reacções à declaração proferida há uma semana por Carlos Carvalhas, Secretário Geral do PCP, são exemplares da qualidade, do nível, do estado a que chegaram os média dominantes em matéria de comentário e de análise política, particularmente quando o objecto de observação é a actividade e a vida do PCP. Ressalvando as cada vez mais raras excepções, cuja existência parece confinada ao objectivo de confirmar a regra, os analistas e comentadores de serviço protagonizaram uma exuberante e garrida exibição dos meios, dos métodos, dos caminhos, de todos os ingredientes utilizados na observação do PCP. Perante o dado objectivo e concreto que era a declaração proferida por Carlos Carvalhas na qual anunciava que «deixarei as funções de secretário-geral do PCP no próximo Congresso» - declaração feita com seriedade e serenidade, sem dramatismos, falando verdade, detalhando razões, explicando processos e métodos - a maior parte dos observadores achou por bem adaptar o texto aos seus desejos e comentar, não a referida declaração, mas a espúria adaptação, complementada com as intrigas, especulações e deturpações a que usam recorrer sempre que falam ou escrevem sobre o PCP. Assim, alguns deles, neste caso não se sabe se por singela iliteracia se por elaborada má fé, decretaram e publicaram nem mais nem menos do que a «renúncia», a «abdicação», o «abandono» do Secretário Geral do PCP – e, na base do categórico decreto, desdobraram-se, depois, nas mais grotescas, surreais e maquiavélicas elucubrações. E quem tenha acompanhado o dia-a-dia do melancólico e monótono discurso debitado por esses observadores, terá constatado, ainda, a enorme capacidade por eles evidenciada de se repetirem uns aos outros fingindo, todos, que não sabem estar a repetir-se; de se repetirem, todos, cada um fazendo de conta, em cada momento, que está a produzir reflexão própria e original.

Mais uma vez, esse psitacismo crónico – que, aliás, constitui um instrumento essencial na tentativa de implementação do pensamento único – fluiu, naturalmente, das vozes e das penas dos seus praticantes que, assim, confirmaram as suas incontestáveis capacidades de adaptação às mais diversas situações. No caso em questão, chegou a ser comovedora a forma como vários analistas e comentadores políticos manifestaram, em simultâneo, por um lado, as suas preocupações com «a perda de influência do PCP», por outro lado, o interesse manifestado na recuperação dessa influência, por outro lado, ainda, o apontar de caminhos para essa recuperação. O facto é tanto mais surpreendente quanto, como se sabe, todos estes inesperados defensores do PCP são detentores de vastos currículos precisamente em matéria de condenações à morte do PCP – produzidas, regra geral, no meio de exuberantes manifestações de regozijo. Mas a verdade é que, no decorrer da última semana, ouvimo-los (ou lemo-los) lamentar, em tom pesaroso, as «quebras eleitorais do PCP», incitar, em tom estimulante, a recuperação dessa quebras e ensinar, sempre em coro afinado, que a dita recuperação passa pelo cumprimento de duas, apenas duas, exigências: que o PCP passe a ser um «partido moderno e europeu» e que, para isso, eleja para futuro secretário geral fulano - e não sicrano nem, muito menos, beltrano. Por «partido moderno e europeu», entendem os solícitos conselheiros, obviamente, um partido que deixe de ser o que o PCP é há oitenta e três anos, isto é, comunista, que abandone o seu projecto, que seja igual aos que são todos iguais e, acima de tudo, para já, que deixe de combater a política de direita que tão bem serve os interesses dos proprietários dos média onde tais observadores pontificam.

Assim sendo, é demasiado (e é inútil) pedir a tais observadores um esforço de entendimento em torno de questões relacionadas com o que foi, é e quer ser o PCP – e, mais ainda, em torno do direito que assiste aos militantes comunistas de definirem as orientações políticas do seu Partido, as suas opções orgânicas, as suas normas de funcionamento, os seus métodos de trabalho. A verdade é que eles não estão preparados para entender um funcionamento partidário em que os militantes desempenhem um papel determinante, uma prática de direcção em que o colectivo se sobreponha ao individual e em que o líder não disponha de poderes absolutos. Nem pensar nisso! Tais hipóteses não cabem nos seus limitados entendimentos, além de que pensar cansa. E não é coisa moderna nem europeia.
Daí a incapacidade – na melhor das hipóteses... - revelada por todos esses seres não (ou pouco) pensantes para perceberem que a declaração feita pelo Secretário Geral do PCP, e o conteúdo dessa declaração, se inserem no natural processo de preparação do XVII Congresso do PCP e da resposta às questões de direcção que o Congresso e o Comité Central por ele eleito serão chamados a dar. Daí a mesma incapacidade dos mesmos para entenderem a dimensão e o conteúdo democráticos patentes em todo esse processo – desde a efectivação de amplas auscultações com vista à elaboração da proposta de lista do futuro Comité Central (que será submetida à discussão e aprovação dos delegados ao Congresso), até à elaboração de propostas sobre os organismos executivos e sobre o secretário geral que o futuro Comité Central elegerá, passando pelo amplo, participado e profundo debate colectivo em torno do Projecto de Resolução Política.
Entretanto, milhares de militantes comunistas participam activamente no processo de preparação do Congresso – e essa é que é a questão essencial.


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