• Pedro Campos

Um panorama de cadáveres
De seara alheia: «A presidência de George W. Bush deveria provocar medo e arrepios nas pessoas inteligentes». Mais? «… Bush ver-se-á tentado a fazer o que fazem todos os presidentes estado-unidenses quando não obtêm resultados domésticos (…) Tentará conseguir alguma nação pequena na qual bater, embrulhar a agressão numa linguagem florida e idealista e aparentar ser presidencial. Falará de honra e sacrifício e do valente soldado americano.»
Sigamos adiante. «Nesse espírito, John F. Kennedy … permitiu que a operação Baía de Cochinos fosse avante e enviou para o Vietname o primeiro número substancial de tropas. Ronald Reagan deu-se por satisfeito com bater em Granada, enquanto criava e financiava (ilegalmente) a guerra dos Contras na Nicarágua. Bush pai foi atrás de Saddam Hussein na guerra do Golfo e, no Panamá, matou dois mil seres humanos para prender Manuel Noriega, no operativo antidrogas mais sangrento da história. É pouco provável que George W. Bush seja mais prudente que os seus predecessores.» No momento em que isto foi escrito, Bush só tinha visitado «dois países estrangeiros, um deles o México (o outro parece tê-lo esquecido). (…) Mas sabe onde fica o Iraque e está completamente consciente do que o seu pai não pôde fazer nesse país: derrubar Saddam Hussein. Um filho que rivaliza com o pai pode ser um homem muito perigoso. Para mostrar “liderança”, o novo presidente Bush pode desafiar os aliados europeus dos Estados Unidos e arriscar outra crise petrolífera, aproveitando-se de algum desastre real ou imaginado para acabar com Saddam Hussein».
Depois, o articulista, desfia alguns possíveis campos de acção começando por Cuba, «mas Cuba não é a única possibilidade. Colômbia é muito mais perigosa. Bush poderia dizer ao seu auditório interno que a aliança das FARC com os narcotraficantes “não será tolerada”. Culpará os marxistas colombianos – os perfeitos oponentes – do problema das drogas dos Estados Unidos, e não aqueles milhões de estado-unidenses que insistem em pagar dinheiro para se encher de cocaína (muitos pensam que entre esses milhões de consumidores de cocaína esteve o jovem George W. Bush).»
Após avaliar outros cenários de desastre, esboça a esperança de que «nada disto suceda. Espero que Bush resista todas estas tentações», mas termina desta maneira: «Todos devemos estar preparados para um panorama com cadáveres». É certo, não há nada de novo neste texto. Mas se consideramos que foi publicado em Janeiro de 2001 – no mesmo momento em que Bush assumia a presidência da Casa Branca – o valor desta «profecia» muda. Se considerarmos que apareceu em Letras Librés, uma revista cultural mexicana de linha conservadora, muda ainda mais. O único que não muda é a natureza agressiva do imperialismo.

Do «descobrimento» ao encontro de dois mundos

Em 1492, Cristóvão Colombo dava com a América … pensando que tinha encontrado a Índia. Erro de pequena monta, comparado com os que vieram atrás. De entre outros, dois escritores latino-americanos, divergentes politicamente, reflectiram há tempos sobre o evento: Eduardo Galeano e Arturo Uslar Pietri. O uruguaio lembrou-nos recentemente que, quatro anos depois da chegada do almirante, o seu irmão Bartolomeu acendia a primeira fogueira no Haiti. As vítimas foram seis indígenas que tinham cometido o «pecado» de enterrar duas imagens religiosas. Não tinham ideia do «crime». Simplesmente, acreditaram que a acção iria fertilizar o solo. Tempos depois, em 1562, frei Diego de Landa queimava, em Yucatán, os códices maias. Nada de estranho. Repetia o que, em 1499, tinha sido feito o arcebispo Cisneros em Granada: lançar ao fogo todo o livro islâmico que tinha à mão.
Contrariando a tese pro-colonialista de moda há muito, Uslar Pietri escreve que «desde o ponto de vista histórico, não sucedeu nada no dia 12 de Outubro de 1492 que pudesse chamar-se, com alguma propriedade, o Descobrimento da América», e que vê-lo dessa maneira é uma «falsa interpretação da História». Também levanta a sua voz contra o «Encontro de dois mundos». O que em realidade sucedeu «foi o encontro de três situações humanas e culturais diferentes: a dos espanhóis, a dos indígenas, que foi variando na medida em que se entrou em contacto com as grandes civilizações americanas, e a dos africanos, que foi numerosa, contínua e de imensa influência».
A mais de cinco séculos do «achamento» da América, que durante muitos anos não foi América, mas sim Brasil ou Índias Ocidentais, uma simples informação basta para avaliar como viam os novos povos os conquistadores: foi só em 1537 quando o Papa reconheceu que os índios estavam dotados… de alma e razão. Lamentavelmente, este simples detalhe parece que ainda não é do conhecimento universal!


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