Editorial

«O poder individual absoluto é de muito mais fácil execução do que o poder colectivo democrático»

PODERES E <em>LÍDERES</em>

Mudos em matéria de análise à aberração democrática que é a chamada lei dos partidos – mudez que pressupõe a aprovação da lei e é bem reveladora de um conceito de democracia que mereceria os aplausos de qualquer salazar; mudos, igualmente, em matéria de análise concreta ao conteúdo real e à génese das normas de funcionamento em vigor no PCP (das quais qualquer pessoa tem o legítimo direito de discordar e o democrático dever de justificar a discordância) – mudez que permite ignorar o imperativo de as comparar com o conteúdo real e a génese das normas que vigoram nos partidos que congeminaram e aprovaram a dita lei; mudos, ainda e sempre, em matéria de análise da realidade concreta que é o PCP – mudez complementada com a recusa em ponderar as razões dessa realidade concreta – os politólogos do regime exibem, em contrapartida, um verbalismo prolixo no que respeita à futura direcção do Partido e ao seu futuro secretário-geral. Cada um à sua maneira, naturalmente - e todos, naturalmente, no estrito quadro das baias estabelecidas pela ideologia dominante. É natural que assim aconteça neste nosso tempo caracterizado pela dominância do individual sobre o colectivo; pela supremacia do discurso a uma voz sobre o discurso colectivo; pela exaltação do poder absoluto fulanizado em detrimento do poder democrático de uma direcção colectiva. Tanto mais que o poder individual absoluto – em que o líder decide e manda publicar e executar a decisão – é de muito menor complexidade e de muito mais fácil execução do que o poder colectivo democrático – em que a equipa (da qual o líder faz parte) troca opiniões, discute, incorpora na discussão as opiniões recolhidas nos múltiplos contactos com as organizações partidárias de base, e faz da síntese desse debate colectivo a decisão colectiva que, colectivamente, será implementada.

Das diferentes concepções de líder e de exercício do poder, decorrem, obviamente, diferentes critérios e processos quer de escolha quer de eleição. Coisa que parece escapar aos referidos politólogos, os quais, neste caso muito loquazes, não se cansam de atirar conselhos sobre a futura direcção do PCP e sobre o seu secretário-geral. Conselhos curiosos, aliás. Tomando, regra geral, como ponto de partida as preocupações com a expressão eleitoral do PCP – preocupações no mínimo espantosas, vindas de quem tudo tem feito para que essa expressão eleitoral seja quanto menor, melhor – eles ensinam sobre quem deve ser (e sobretudo sobre quem não deve ser...) o futuro secretário-geral do PCP. Os argumentos aduzidos são dignos de registo: diz um, repetido por vários, que devem ser A ou B e não C ou D – porque os primeiros têm todas as condições para fazer do PCP um partido moderno e europeu (expressão que, devidamente traduzida, significa partido- não-comunista) enquanto dos segundos apenas há a esperar o mesmo partido velho e ortodoxo (tradução: partido comunista). Outro argumento, igualmente substantivo, é o que se estriba em usos e costumes dos citados, dois dos quais, a acreditar nos politólogos a que temos vindo a recorrer, constituem autênticos crimes de lesa democracia moderna: o costume inqualificável de dançar em público (as provas do crime foram, até, divulgadas, para que ninguém duvide da veracidade da notícia) e o uso inominável de... jogar à malha (neste caso, certamente para não ferir a sensibilidade dos leitores e telespectadores, não foram exibidas provas). Ora, intui-se da politóloga inteligenciação – mais virada para o golfe, o ténis, a equitação - trata-se de pecados dos quais A e B não precisariam de se confessar, garantido que é não só não dançarem (e muito menos em público) e jamais terem tocado numa malha (quanto mais lançá-la em qualquer partida de fito ou, pior ainda, de chinquilho).

Contudo, o argumento maior e essencial, e que, por isso, deve ser visto como corolário de todos os argumentos utilizados pelos politólogos em favor de A ou B e contra C ou D, é o que decorre da fulgurante asserção de que os primeiros abrem enquanto os segundos fecham. O que abrirão uns e o que fecharão os outros? Bom, trata-se, antes de mais, de um argumento-chave... e que não pode ser visto desligado do acima referido conceito de partido ideal, nem das tais preocupações com a expressão eleitoral do PCP (insista-se: chega a ser comovente esta preocupação com o reforço eleitoral do PCP, de súbito revelada por anticomunistas de carreira e todos com abundante obra feita nessa matéria). Assim, de acordo com os ditos politólogos, os desejados A ou B, abrindo a porta a um partido moderno e europeu, conduziriam o PCP aos luminosos caminhos do milagre da multiplicação dos votos – enquanto os indesejados C ou D, fechando a porta à solução final em matéria partidária, fechariam a entrada à imensa vaga de votos capaz de posicionar o PCP quiçá à beira de uma maioria absoluta...
Deduz-se, assim, que, na opinião emitida pelos politólogos anticomunistas, a questão do reforço eleitoral do PCP reduzir-se-ia, tão-somente, a uma simples escolha pessoal – boa, desde que o escolhido possuísse poderes e vontade para seguir os seus prestimosos conselhos. Ou seja: segundo eles, a chave que abre é a que, pondo termo à condição comunista do Partido, o abriria à ideologia dominante; a chave que fecha é a da reafirmação inequívoca da sua condição de Partido Comunista Português.
Entretanto, os jornais desses politólogos, como lhes compete, vão silenciando ou deturpando a actividade do PCP e do seu secretário-geral. E o colectivo partidário comunista, como lhe compete, constrói o XVII Congresso do Partido.


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