«Empresas suíças da banca, medicamentos e energia investiram em Bush»
Eleições nos EUA
O grande embuste
Na pretensa maior democracia do mundo a vontade do povo não é quem mais ordena. Nos EUA, os eleitores brancos e ricos decidem quem ocupa a Casa Branca.
As eleições norte-americanas de 2 de Novembro destinaram-se, teoricamente, a eleger o presidente, mas na verdade o novo homem forte de Washington só será oficialmente escolhido a 13 de Dezembro pelo colégio de «grandes eleitores», composto por 538 membros, esses sim eleitos na terça-feira.
O vencedor necessita de pelo menos 270 votos dos grandes eleitores, cujo número por estado é revisto de dez em dez anos e é proporcional ao respectivo peso demográfico no país. Os estados com maior peso são a Califórnia (elege 55 grandes eleitores), o Texas (34), Nova Iorque (31) e a Florida (27).
O sistema de eleição presidencial através do colégio eleitoral, bem mais complexo do que a votação directa, não reflecte de modo algum a vontade do eleitorado, uma vez que em 48 dos 50 estados norte-americanos o candidato mais votado fica automaticamente com todos os lugares de grandes eleitores atribuídos a esse território. As excepções são o Nebraska (cinco lugares) e o Maine (4), com alguns lugares atribuídos por circunscrição e os restantes proporcionalmente.
Este modelo eleitoral leva a que «sessenta por cento do eleitorado potencial» não esteja envolvido na campanha presidencial, «porque não conta», como afirma o especialista em assuntos políticos, Thomas Mann, do Brookings Institution, citado pela Lusa. Acresce que nesta democracia os territórios norte-americanos que não têm o estatuto de estado - caso de Porto Rico, Guam, Ilhas Virgens e Samoa - não participam na eleição presidencial.

Uma questão de investimento

Para além destes aspectos, há ainda a ter em conta que a participação eleitoral está longe de ser homogénea. Segundo os dados oficias de 2002, citados pela Lusa, 75 por cento dos eleitores inscritos são brancos, 12 por cento negros, oito por cento hispânicos, dois por cento asiáticos e outros tantos ameríndios. No respeitante a rendimentos (dados de 2002), 14 por cento ganha menos de 15 000 dólares/ano, 25 por cento entre 15 000 e 35 000, 30 por cento entre 35 000 e 65 000, 26 por cento entre 65 000 e 125 000, e cinco por cento mais de 125 000.
Perante estes dados, não é difícil perceber o motivo que levou Bush a propor a redução de impostos para os rendimentos mais elevados. Uma política que também agrada às empresas suíças do sector da banca, medicamentos e energia, que investiram fortemente no apoio ao candidato republicano.
De acordo com dados do Center for Responsive Politics, que acompanha as dotações para as campanhas eleitorais nos EUA, o maior contributo «publicamente conhecido» da Suíça foi o do UBS Americas, que terá oferecido cerca de dois milhões de dólares aos republicanos. Na lista de apoios ao Partido Republicano, este é o quinto maior «investimento» do sector financeiro, refere a Lusa. Para além do UBS, também o Credit Suisse First Boston, a empresa ABB e a Novartis apostaram em Bush.
Nas eleições de dia 2 estiveram ainda em disputa os 435 membros da Câmara dos Representantes e um terço dos cem membros do Senado, para além de em 11 estados se ter procedido também à eleição do governador e em 32 estados terem sido referendadas mais de 150 propostas que vão desde o uso de marijuana para fins médicos à legalização do casamento entre homosexuais.

Roubar aos pobres e favorecer os ricos

A política fiscal de Bush agravou o fosso entre os anglo-saxões e as restantes comunidades nos EUA, afirma o diário La Opinión na sua edição de 26 de Outubro. Citando um estudo do Centro Pew, o jornal afirma que os anglo-saxões têm uma riqueza média bruta por família 11 vezes maior do que os latinos e 14 vezes superior à dos afro-americanos.
Em 2002, a riqueza média bruta de uma família latina era de 7932 dólares e a de uma família negra ficava-se pelos 5988 dólares, enquanto a de uma família branca ascendia a 88 615 dólares, refere o estudo.
O jornal faz ainda notar que as políticas económicas de Bush têm consequências dramáticas para as minorias, citando a título de exemplo a intenção dos republicanos de privatizarem a segurança social, o que seria desastroso para latinos e negros quase sempre desprovidos de pensões e seguros.
A eventual reeleição de Bush viria agravar esta situação, já que Bush terá ajudado as grandes empresas oferendo-lhes uma redução de impostos em troca de se mudarem para o exterior, diminuindo assim o número de empregos nos EUA, denunciaram há dias dois representantes democratas. Segundo Charles Rangel e Xavier Becerraza, o governo gastou mais de 20 mil milhões de dólares na guerra do Iraque sem se importar com a situação da minorias nos EUA, fortemente afectadas pela recessão económica de 2001.
É este pano de fundo que explica a particular atenção dada nestas eleições ao voto de negros e latinos, bem como as suspeitas de fraude que pesam sobre as eleições. Na Florida «desapareceram» cerca de 60 000 boletins de voto enviadas aos eleitores nos princípios de Outubro.


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