• Miguel Urbano Rodrigues

Pelos Caminhos do Mundo
Isabelle e a burguesia
Nascera em França, num castelo desmantelado. Os tetravós, de tradicionais estirpes aristocráticas, tinham perdido a fortuna durante a Revolução de 1848. Contou-me que se recusara a conhecer a árvore genealógica, além do pai, por desprezar a nobreza.
Era muito alta, mas tinha um corpo perfeito, belo, sem ser sensual. Os olhos, de um verde agressivo, irradiavam uma luminosidade que entrava por mim como um banho de luz quando a fitava. Muito grandes, apresentavam um traçado oblongo, fascinante.
A cabeleira, de um louro dourado, findava nos ombros. Tinha um porte de princesa viking que resistia ao desalinho do vestuário.
Desenhava muito bem. Ensaiou a escultura. Um dia mostrou-me um cubo de madeira com uns entalhes retorcidos. Perante um silêncio que não interpretou como aprovação, admoestou-me. Aquilo tinha sido motivado pela contemplação de uma peça oriunda de uma tribo da Amazónia equatoriana.
- Andaste pelas selvas – comentou – mas és incapaz de captar a criatividade da arte dos mochiguengas, da qual me veio a inspiração.
Nunca lhe conheci um emprego. Como artista revolucionária – argumentava – não aceitava submeter-se à rotina de uma empresa da burguesia.
Sobrevivia com o escasso dinheiro dos trabalhos que conseguia vender a editoras, jornais e revistas de São Paulo.
Foi nessa cidade que a conheci. Mantivemos por tempo breve uma intimidade que nunca se aprofundou porque – segundo ela – o encontro dos corpos nunca foi acompanhado de um diálogo com abertura ao «inexplicável». Confidenciou-me ter chegado às portas do amor com um conhecido escritor, mas não pudera ultrapassá-las porque o desencontro dos corpos fora, então, insuperável.

A importância das coisas

Dizia ser revolucionária e comunista sem partido. Não lera os clássicos do marxismo, porque lhe faltara paciência. Mas, nos anos da ditadura, quando a repressão no Brasil era feroz, Isabelle esteve sempre, com coragem, ao lado das forças que lutavam contra o terror policial e a barbárie dos militares instalados no poder. A sua disponibilidade para colaborar, como artista plástica, nas iniciativas dos antifascistas portugueses foi permanente.
Não era fácil localizá-la porque vivia quase como nómada, acompanhada nas suas andanças por um filho pequeno. Como se atrasava sempre no pagamento da renda dos quartos alugados que lhe serviam de moradia, mudava de residência com frequência.
Um dia procurou-me para pedir que a ajudasse a resolver um problema pessoal urgente.
Fora despejada mais uma vez e encontrava-se sem dinheiro. Soubera que o apartamento de uma companheira do núcleo do «Portugal Democrático», estava fechado há semanas, por ausência da inquilina.
Que pretendia? Que lhe emprestassem o apartamento por quinze dias.
O apelo foi atendido. Eu esquecera o episódio quando, transcorridos dois meses, a minha amiga telefonou, pedindo que a ajudasse num apuro. Recebera cartas de diferentes serviços públicos, informando que o telefone, a água, o gás e a electricidade haviam sido cortados por falta de pagamento.
O cumprimento da missão não foi fácil.
Quando, acompanhado da jovem do «Portugal Democrático», entrei naquilo que fora um apartamento comum, contemplei um cenário que me fez recordar páginas de Kafka.
Num amplo círculo em torno de almofadas rodeadas de papéis e tintas, uma cortina de velas apagadas permitia compreender que o centro da sala fora adaptado a gabinete de trabalho nocturno de Isabelle.
As tábuas do soalho, com excepção daquela área, haviam sido arrancadas para servir de combustível. O mesmo acontecera às cadeiras das quais sobravam restos carbonizados.
Tentei ser persuasivo e evitar um choque frontal. Sem êxito. Os meus argumentos sobre a situação criada pela substituição da electricidade e do gás por objectos de madeira construídos para outros fins esbarraram numa muralha de incompreensão.
Foi doloroso o desfecho.
Ao intimar Isabelle a deixar o apartamento, para permitir o regresso da inquilina, ela despejou numa frase breve a opinião negativa que a minha atitude a obrigava a formar de mim.
- A tua preocupação com a queima de coisas sem importância por uma amiga sem recursos é reveladora da tua fragilidade ideológica. Julguei que eras um revolucionário e verifico que me enganei. Comportas-te como um pequeno burguês...
Temi que a nossa amizade findasse naquele dia. Mas isso não aconteceu.
Isabelle deixou o apartamento horas depois e ao reencontrar-me na semana seguinte saudou-me com afecto, sem aludir ao melancólico episódio.


 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: