«Dezenas de feridos deambulam pelas ruas como fantasmas»
Assalto a Fallujah
Milhares de vítimas confirmadas
Uma semana após o início da operação «Fúria Fantasma» contra Fallujah, que já fez milhares de vítimas civis, a resistência iraquiana continua activa.
As informações sobre o que se passa em Fallujah são contraditórias. No fim-de-semana, o ministro de Segurança Nacional do Iraque, Kassem Daud, anunciou que a ofensiva contra a resistência tinha chegado ao fim e que a cidade estava sob controlo, mas pouco depois o comando militar norte-americano reconhecia que os combates contra «bolsas de resistência» prosseguiam, e impedia a entrada na cidade de uma caravana do Crescente Vermelho.
Em conferência de imprensa, Kassem Daud garantia que o jordano Abu Mussab al-Zarqawi, suposto líder da Al’Qaeda no Iraque, e o dirigente religioso Abdalah al Janabi tinha fugido «com os seus ideiais» deixando os seus partidário «a enfrentar a morte», mas em Fallujah as autoridades civis e religiosas negam que al-Zarqawi tenha estado na cidade e põem mesmo em dúvida a sua existência.
Ao certo, o que se sabe é que a ofensiva do Pentágono, denominada também como «Alvorada», levada a cabo com o apoio de 10 mil efectivos das forças policiais iraquianas subordinadas aos EUA, provocou uma catástrofe humanitária que «a cada dia que passa, se torna mais desumana», como denunciou Firdus al-Ubaidi, porta-voz do Crescente Vermelho, em Bagdad.
A organização - congénere da Cruz Vermelha Internacional - preparou uma caravana de sete camiões e ambulâncias para levar ajuda à população da martirizada cidade, mas a frota foi retida pelas tropas norte-americanas por «razões de segurança».
Na capital iraquiana, Al-Ubaidi denunciou a falta de resposta do exército ocupante aos seus insistentes pedidos de autorização para entrar em Fallujah, e garantiu ter informações de que «mais de 167 famílias estão encurraladas» na cidade «em condições trágicas».
«Comem ervas e bebem água contaminada», afirmou.

Catástrofe humanitária

Segundo a agência Gara, testemunhos entretanto chegados do interior da cidade dão conta que as ruas estão pejadas de cadáveres abandonados que já entraram em processo de decomposição, e que a população começou a enterrar os seus mortos nos jardins. Dezenas de feridos deambulam pelas ruas como fantasmas, sem se poderem aproximar dos hospitais. Estima-se que cerca de um terço dos 300 mil habitantes da cidade tenha ficado sitiado, sem água, alimentos, electricidade nem assistência médica. O hospital geral da cidade foi bombardeado a semana passada e não dispõe de medicamentos.
«A cidade já não tem mais electricidade nem água. Não há remédios, nem ambulâncias. Ou foram destruídas ou estão sem combustível. Há mortos e feridos em toda a parte. Muitas famílias desejam sair das suas casas mas não têm para onde ir, não há abrigos para que se possam proteger dos bombardeios», afirmou Abu Fahd, do Crescente Vermelho.
Diferente é a versão dos EUA. Os militares americanos começaram por garantir não haver necessidade do Crescente Vermelho iraquiano mandar ajuda para Fallujah, porque «não há mais civis na cidade». Mais tarde, o coronel da Marinha, Mike Shupp, deu uma nova versão, afirmando não haver necessidade do Crescente Vermelho «porque nós já carregámos os nossos próprios fornecimentos para auxiliar as pessoas».
A ofensiva contra Fallujah ocorre após sete meses de bombardeamentos praticamente contínuos e, segundo os próprios dados oficiais divulgados pelas forças norte-americanas, provocou mais de um milhar de iraquianos «rebeldes» mortos e levou à detenção de centenas de pessoas. O cômputo oficial inclui ainda 22 baixas entre os soldados dos EUA e 170 feridos graves, a que se juntam mais cinco paramilitares mortos.

Ganhar uma batalha e perder a guerra

A «previsível vitória dos EUA na batalha de Fallujah pode, sem dúvida, criar condições políticas noutras zonas do Iraque que levem a perder a guerra». Quem o afirma é o general britânico Michael Rose, ex-comandante das forças da ONU destacadas na Bósnia.
Num artigo publicado no diário Daily Mail, o general faz um paralelo entre o que está a suceder no Iraque e o que se passou na Irlanda em 1649, quando Oliver Cromwell tentou liquidar o levantamento irlandês contra os ingleses arrasando a cidade de Drogheda.
«Cromwell criou então um ódio tão profundo e generalizado contra os ingleses que 300 anos depois o exército britânico continuava a sofrer as suas consequências», escreve Rose.
Criticando o «uso esmagador» da força militar dos EUA contra «tudo o que se move», o general rejeita a tese de que o assalto vá acelerar o fim da crescente resistência. «Como demonstrou recentemente a ofensiva norte-americana em Samarra, os rebeldes iraquianos adoptam as típicas tácticas guerrilheiras, desaparecendo face a uma força militar superior para reaparecerem mais tarde quando esta se afasta», lembra Rose.
Insistindo no paralelismo com a Irlanda, o general recorda a insurreição popular dos princípios dos anos setenta no sul da ilha. «A verdade é que guerras contra uma insurreição armada como esta não se podem ganhar conquistando terreno ou mudando regimes, mas apenas mudando atitudes e isolando os insurrectos do resto da população». Michael Rose não explica como isso se faz.


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