Editorial

«No dia 20 de Fevereiro, resistir significa votar CDU»

POBREZA, DESEMPREGO, GUERRA

Manda a tradição que, nestes tempos de Natal e Ano Novo, chovam as manifestações de compaixão pelos pobres, de louvor à justiça social, de paz na Terra – sempre acompanhadas de nobilíssimas promessas de bem-aventuranças para o ano seguinte. A pobreza, o desemprego e a guerra são, assim, temas recorrentes nos discursos da generalidade dos governantes nesta quadra. E todos os anos há mais pobreza, mais desemprego, mais guerra...
Há dias, chegaram notícias, de que «os países ricos elegeram o combate à pobreza como objectivo primeiro para o ano de 2005». Sublinhando o facto, de todos sabido, de que «os países ricos» são-no, essencialmente, à custa dos países pobres, anote-se que igual «combate» foi anunciado, no ano passado, pelos mesmos «países ricos» e que os resultados do intrépido combate estão à vista: se em cada dia do ano de 2003 morreram, de fome e por falta de cuidados médicos, cerca de quatro dezenas de milhares de pessoas, esse número cresceu em 2004. E as perspectivas apontam para que assim volte a acontecer em 2005.
É claro que ao crescimento da pobreza, seja em Portugal, seja em qualquer outro país do mundo, corresponde sempre um aumento da riqueza: do outro lado do aumento do número de pobres existentes no nosso País, está, se não o aumento do número de ricos, seguramente o aumento das riquezas dos ricos.
Há mais de cento e cinquenta anos, escrevia Almeida Garrett: «E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é preciso condenar à miséria (...) para produzir um rico?». Ora bem: qualquer líder ou ex-líder dos partidos que têm governado Portugal nos últimos 28 anos – PS e PSD, sozinhos ou com o CDS-PP atrelado – está em condições de responder.

Sobre o desemprego, falou Santana Lopes: «Como primeiro-ministro gostava de, num golpe de mágica, criar todos os empregos que faltam» – disse, pondo no rosto aquele ar melancólico-entediado com que usa enfeitar a abordagem destes temas e dizendo, à sua maneira, o que, à maneira deles, disseram todos os seus antecessores nos últimos 28 anos. Há um ano, por esta altura, Durão Barroso, falava do desemprego como «o drama que pessoalmente mais me preocupa» e prometia ir acabar com ele (com o desemprego, entenda-se) de uma forma... mágica: «criando novos postos de trabalho» – projecto que não chegou a concretizar porque, entretanto, preferiu, ao cargo de primeiro-ministro de Portugal, o de mordomo dos donos da Europa dos monopólios. Mas também Durão Barroso nada inovara com a sua receita: dois anos antes, notabilizara-se António Guterres ao apresentar, num fórum europeu realizado em Florença, a sua «fórmula mágica» – assim houve quem a designasse – para acabar com o desemprego. Disse-se, na altura, que o «plano Guterres» deixara a Europa positivamente colada ao terreno, estupefacta, boquiaberta: o então primeiro-ministro descobrira que a única forma de acabar com o desemprego era... criar novos postos de trabalho. E criou: arranjou uns largos milhares de jobs para uns largos milhares de boys...
Com tudo isto, o desemprego tem vindo a aumentar e assim continuará a ser no ano que aí vem. Quantos trabalhadores da indústria têxtil irão juntar-se, nos próximos meses, aos mais de 500 mil desempregados existentes?
António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes, José Sócrates hão-de saber responder. Ou não fossem eles ex-líderes ou líderes dos partidos que, nos últimos 28 anos, têm vindo a aplicar a política que fez o País chegar ao estado a que chegou.

Quanto à paz: «Para Portugal viver mais seguro é necessário um mundo de paz» – disse Durão Barroso (ou teria sido António Guterres?, ou Santana Lopes?, ou José Sócrates?). De qualquer forma e sem margem para dúvidas, para todos eles «um mundo de paz» é um mundo sujeito às ordens do imperialismo norte-americano, de obediência servil aos ditames do Império, de aceitação rastejante da palavra dos donos do mundo, de envio de militares portugueses para o Kosovo, para o Iraque, ou para qualquer outro local que Bush ordenar. É assim que, hoje,
Portugal, integrando as forças de ocupação do Iraque, está envolvido numa das mais bárbaras e cruéis guerras da história contemporânea. Daí que a luta pela paz, a luta por «um mundo de paz», constitua parte integrante da luta contra a política de direita que há 28 anos flagela Portugal e os portugueses. E é importante que o eleitorado não se esqueça disso no dia 20 de Fevereiro. Quando o carniceiro Rumsfeld diz que «a situação é dura mas os Estados Unidos vão prevalecer sobre os insurrectos», o que ele quer dizer é que a barbárie vai prosseguir, que a brutalidade e o crime vão continuar nesse país destruído pelos mais intensos e bárbaros bombardeamentos de que há memória; nesse país ocupado e oprimido pelas botas cardadas de mais de 150 mil soldados do mais poderoso exército do mundo; nesse país transformado num imenso cemitério de valas comuns, de sofrimento, de dor – nesse país onde, apesar da selvajaria imperialista, a resistência continua, corajosa, heróica. E é nessa capacidade de resistência, com a qual os comunistas portugueses são solidários, que reside a esperança de paz.
Da mesma forma que é na nossa capacidade de resistir à política de direita, praticada seja por quem for, que se encontra o caminho para uma alternativa séria e a sério, no nosso País, uma alternativa que proporcione a implementação de uma política de justiça social, de paz, de respeito (de facto e não apenas em pias declarações de intenções) pelos direitos humanos.
E no dia 20 de Fevereiro, resistir significa votar CDU.


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