• Francisco Silva

A escrita internacional dos nomes
Os nomes de domínio que nos aparecem nos endereços da Internet proporcionam por vezes uma leitura, digamos, engraçada. O «c cedilhado» aparece-nos sem cedilha, os acentos estão ausentes. Aparece «conceicao» em vez de «conceição», «atomo» em vez de «átomo», etc. Isto acontece assim porque o conjunto de caracteres empregues no sistema do DNS é o conjunto conhecido por ASCII (American Standard Code for Information Interchange): este, em termos de letras, não as acentua e de c's não os cedilha. É um conjunto constituído pelas vinte e seis letras do alfabeto, portanto, como não podia deixar de ser, incluindo o k, o y e o w - ou seja, as letras reduzidas à sua simples forma, sem acompanhamentos…
Poderá parecer que este facto não acarreta problemas de maior, antes se lhe nota até alguma graça; é, no entanto, o sintoma de uma questão que se está a ficar cada vez mais quente no «mundo» da Internet. Com efeito, para as línguas que se escrevem com as letras do alfabeto latino as diferenças são mínimas e a questão é até minimizada por muitos que dizem serem as diferenças tão pequenas que, quem por elas se bate, mais não é, na melhor das hipóteses, um picuinhas, na pior, um nacionalista serôdio e provinciano… sei lá, coisas deste género! O alfabeto do ASCII é o apropriado às invenções do Ocidente como os computadores e a Internet, aliás todos os que contam sabem falar inglês! Ao pensar isto, é que muitos se enganam - modernaços, europeus e ocidentais, prontos a largar o que julgam ser uma ganga cultural lusitana fora de época.
E já não estou apenas a pensar na família de alfabetos a que pertence o cirílico, outros alfabetos do nosso «primeiro mundo» - e logo herdeiros de tão grandes tradições clássicas do Ocidente -, utilizados nas suas diversas variantes não «apenas» por russos, bielorussos, ucranianos, sérvios, macedónios ou búlgaros, mas inclusivamente, o alfabeto grego, já presente na área da União Europeia. Estou sobretudo a pensar nas escritas não alfabéticas como a chinesa, a japonesa, a coreana, a árabe, etc., bem como as diversas variantes de todas elas.
Em particular, para o caso dos caracteres em que são escritas línguas orientais - orientais porque a oriente do nosso ocidente, mas também, por exemplo, Nova Iorque e Washington são oriente ou leste para a Califórnia, não é? - línguas orientais, dizia, como o chinês, o japonês e o coreano, mas também o tamil do Sri Lanka do qual nos lembramos menos, a investigação e desenvolvimento já conduziram a resultados concretos. Pelo seu lado, o debate sobre o emprego dos caracteres árabes encontra-se também na ordem do dia. O IETF (Internet Engineering Task Force), organismo internacional que se ocupa da normalização para a área da Internet, pelo seu lado, produziu já resultados relativos ao emprego do que se vai chamando nomes de domínio internacionais - a sigla que foi adoptada [,em fase de popularização,] é IDN (Internationalized Domain Names).
Sem ter de conduzir a qualquer alteração de raiz no sistema dos nomes de domínio, ou seja, no DNS - que continua a funcionar nos seus processos internos baseado em ASCII -, a actual norma IDN estatui a transcodificação dos caracteres da língua em que se está a trabalhar para ASCII, e vice versa, salvaguardando assim a estabilidade do actual sistema único de identificadores da Internet a nível global. A questão da manutenção da estabilidade de um sistema único, de «uma única Internet», da característica de interoperabilidade de todos com todos, com a possibilidade de implementações de acordo com as necessidades de «comunidades locais», tem sido, aliás, um cavalo de batalha de debate técnico por parte de muitos notáveis que têm estado desde o início no desenho e implementação da Internet. Conhecedores a fundo dos «códigos» de base que presidem à preservação da «cola» que aguenta a dinâmica de uma manta de retalhos tão preciosa e complexa como a Internet, eles avisam contra as tentações de aprendiz de feiticeiro.
Do outro lado, procurando sossegar tais temores ao afirmar estarem conscientes das complexidades e perigos do desafio, mas não desistindo do aprofundar da caminhada da Internet no sentido da generalização de um ambiente IDN - até porque consideram esta questão essencial para o combate à «fractura digital», ao digital divide -, estão os campeões desta inovação, desde o Extremo Oriente ao Mundo Árabe, mundos cruzando-se, afinal, entre outros locais, na Malásia, onde se realizou a mais recente reunião do ICANN, www.icann.org .
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(1) DNS – Domain Name System, o Sistema de Nomes de Domínios da Internet.


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