«Os soldados norte-americanos dispararam mais de 300 projécteis»
Ataque deliberado
EUA queriam ‘calar’ Guiliana Sgrena
Os EUA não queriam que a jornalista italiana Guiliana Sgrena saísse viva do Iraque, denuncia Pier Scolari, companheiro da repórter.
Segundo Scolari, que se deslocou a Bagdad para regressar com Sgrena a Itália, as tropas norte-americanas atacaram deliberadamente o carro que conduzia a jornalista do Il Manisfesto, libertada na passada sexta-feira após um mês de sequestro no Iraque, na sequência de negociações levadas a cabo pelos serviços secretos italianos.
Quando seguia a caminho do aeroporto, o carro que transportava Sgrena foi alvo de intenso tiroteio por parte de forças dos EUA, que mataram o agente italiano Nicola Calpari e feriram a jornalista e mais dois agentes, um dos quais com gravidade.
O tiroteio, afirma Scolari, ocorreu quando os agentes falavam por telemóvel com a sede do governo italiano, e interrompeu a ligação. Com estas declarações, o companheiro da jornalista deixa claro que o próprio governo de Silvio Berlusconi foi testemunha dos acontecimentos.
Ainda de acordo com Pier Scolari, as tropas norte-americanas atacaram o carro sem aviso e sem dar tempo a que os ocupantes se identificassem como italianos, apesar de os postos de controlo terem sido avisados da sua presença antes da passagem, e quando o veículo já se encontrava a cerca de 700 metros do aeroporto.
Esta versão contradiz a fornecida pelo comando norte-americano em Bagdad, que assegura não ter sido avisado da passagem do veículo.
O director do Il Manifesto, Gabriele Polo, informou por seu turno que os soldados norte-americanos dispararam mais de 300 projécteis contra o carro de Sgrena.
As explicações dos EUA não satisfizeram as autoridades italianas, pressionadas por uma onda de revolta popular contra a presença das suas tropas no Iraque e contra os EUA. Para ontem, quarta-feira, estava agendada a ida de Berlusconi - considerado um dos fiéis aliados da administração Bush - ao Parlamento para explicar o ocorrido aos deputados. Na véspera, Gianfanco Fini já havia informado os parlamentares dos pormenores sobre o caso.
O resultado do inquérito à morte do agente Nicola Calpari, ordenado pelas autoridades de Roma, ainda não é conhecido, mas a comoção causada por este dramático acontecimento poderá dar força aos que exigem a retirada imediata dos mais de três mil soldados italianos estacionados no Iraque.

«A mais amarga das verdades»

O relato dos acontecimentos por Guiliana Sgrena (Il Manifesto, http://www.ilmanifesto.it) confirma o que os EUA se empenham em desmentir:
«Apenas me lembro do fogo. Naquele momento uma chuva de fogo e projécteis abateu-se sobre nós, calando para sempre as vozes divertidas de momentos antes.
«(...) O motorista começou a gritar que éramos italianos: “somos italianos, somos italianos”... Nicola Calipari atirou-se para cima de mim para me proteger, e de repente.... De repente senti o seu último alento, ao morrer sobre mim.
«Devo ter sentido uma dor física, sem saber o motivo. Mas tive um pensamento fulminante, lembrei-me das palavras dos meus raptores. Eles diziam que estavam empenhados até ao fim em me libertar, mas que eu devia ter cuidado, 2pois há os americanos, que não querem que você volte”.
«Na altura, quando me disseram isto, pensei que eram palavras supérfluas, ideológicas. Naquele momento, corriam o risco de adquirirem o sabor da mais amarga das verdades (...)»

Armas químicas contra Fallujah

As tropas norte-americanas usaram armas químicas no ataque a Fallujah, em Novembro último, afirma o médico Khalid Ash Shaykhli, encarregado pelo Ministério da Saúde iraquiano de avaliar as consequências sanitárias do ataque à cidade.
Segundo notícia divulgada a 4 de Março no sítio da Al Jazeerah, o médico declarou em conferência de imprensa que as investigações levadas a cabo pela sua equipa revelaram o uso de armas internacionalmente proibidas, com os gases mostarda e nervoso.
Ash Shaykhli afirmou ainda que a população de Fallujah está a sofrer o efeito provocado pelas armas químicas, bem como o de «outros tipos de armas que causam sérias doenças a longo prazo».
«Durante a ofensiva norte-americana, os vizinhos de Fallujah relataram ter visto cadáveres derretidos, o que sugere que as tropas dos EUA usaram gás napalm, um composto venenoso de poliestireno e combustível de avião, que derrete os corpos», revelou o médico, que promete enviar os resultados das suas investigações às autoridades iraquianas e estrangeiras.
Recorde-se que logo em Novembro os deputados britânicos questionaram Tony Blair sobre o uso de napalm em Fallujah. As tropas dos EUA são praticamente as únicas que recorrem a este tipo de armamento, altamente letal, tragicamente célebre desde a guerra do Vietname.
Entretanto, no editorial da sua edição de sábado, o Washington Post acusa os EUA de continuarem a torturar os prisioneiros que se encontram nas mãos da CIA.
Os casos como os da prisão de Abu Graib «aconteceram e continuam a acontecer na rede de detenção global confidencial que a Agência Central de Inteligência (CIA) mantém», afirma o jornal, sublinhando que muitos dos presos «desapareceram» sem deixar rasto.
Também o diário The New York Times se referiu ao assunto, na semana passada, num comentário irónico ao relatório do Departamento de Estado sobre os direitos humanos. «De facto, algumas das práticas que o relatório qualificou de tortura quando se referiu a governos estrangeiros foram num dado momento aceites nos centros de detenção sob jurisdição do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld», escreve o jornal.


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