Reactivada, a ex-Sorefame pode criar cinco mil postos de trabalho
Bombardier tenta retirar máquinas
Trabalhadores evitam acção criminosa
Num acto de manifesta e incondicional solidariedade com os trabalhadores em vigília, o secretário-geral do PCP considerou ser esta a altura indicada para que o novo Governo intervenha na resolução do problema.
«Seria um crime económico, lesivo dos interesses dos trabalhadores e da economia, que o Governo que vai agora tomar posse deixasse deslocalizar esta empresa», afirmou Jerónimo de Sousa, dia 9, à imprensa no local.
O secretário-geral do PCP recordou ainda a solução possível para a ex-Sorefame, reivindicada pelos trabalhadores, que garante a continuidade da fabricação de material circulante: «Tendo em conta que o Governo tem a tutela da EMEF e da CP, pode garantir a produção de carruagens e negociar com a empresa essa real possibilidade», acrescentou.
A mesma opinião têm os trabalhadores da empresa, que recordam ser este o momento de o PS cumprir com o que sempre defendeu enquanto esteve na oposição. «O PS afirmou que a situação na Bombardier era um crime», recordou António Tremoço, dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos. «Agora tem uma boa oportunidade para criar centenas de postos de trabalho, pois esta unidade tem capacidade para produzir e criar riqueza».
O mesmo representante dos trabalhadores recordou a necessidade do fabrico de carruagens para o Metro do Porto e para a CP, encomendas que podiam viabilizar a unidade.

Criar emprego

Como referiu, na semana passada, a Comissão Concelhia do PCP da Amadora, a manutenção da ex-Sorefame pode criar cerca de cinco mil postos de trabalho, através da reactivação da produção, faltando apenas para isso vontade política por parte do novo Governo. O mesmo organismo fez ainda notar que estes postos de trabalho podiam ajudar à criação de alguns milhares dos 150 mil novos empregos prometidos por José Sócrates.
Além de vários membros da Concelhia da Amadora do PCP que, desde a primeira hora, têm prestado todo o apoio possível à justa luta dos trabalhadores, também o deputado comunista, António Filipe, presente na vigília lamentou à Lusa o facto de a multinacional «ter aproveitado o período de transição entre dois governos para desmontar equipamento, tentando impedir que esta empresa continue a laborar», afirmou.
A Concelhia comunista voltou a apelar à solidariedade activa da população, de forma a contribuir para a salvação de uma empresa única, pela sua capacidade, no tecido produtivo nacional.

Vigília pelo futuro

«Não vamos deixar sair qualquer material», afirmava o dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos, António Tremoço, tendo classificado a intenção de retirar as máquinas como «uma acção criminosa, porque o Governo e a CP não actuaram».
Ao tomarem conhecimento, no dia anterior, da presença de um grupo de técnicos italianos que se deslocou às instalações na Venda Nova, no intuito de desmontar e retirar a secção de robotização, os mais de sessenta trabalhadores que se têm mantido no quadro da empresa iniciaram uma vigília, de dia e de noite, frente às duas saídas da fábrica de material circulante, de carruagens para o Metro e para comboios.
Sem as máquinas em causa, a unidade da Venda Nova fica impossibilitada de produzir o tipo de material para que está vocacionada, a produção ferroviária. Determinados a impedir a saída das máquinas, os trabalhadores improvisaram uma tenda e grelhadores para permanecerem à porta das instalações, em vigília.

CP revela tentativa de compra

Na passada sexta-feira, a administração da CP falou por video-conferência com a administração da Bombardier, no Canadá. Por sinal, a multinacional tem novo administrador há pouco mais de um mês, após o anterior ter sido demitido devido aos resultados do grupo económico que ficaram aquém das expectativas dos accionistas.
A CP informou os representantes dos trabalhadores de que a reunião tinha sido positiva, revelou António Tremoço ao Avante! .
Do encontro saiu o compromisso, da parte da multinacional, de não retirar qualquer material durante o fim-de-semana passado, mas a ameaça de deslocar máquinas mantém-se desde segunda-feira, obrigando os trabalhadores a não desmobilizarem a vigília.
A CP revelou ter proposto à Bombardier a compra de todo o património da empresa, incluindo os seus activos e passivos, e diz faltar apenas uma resposta por parte da multinacional. Segundo o DN, a empresa pretende instalar, na Venda Nova, um «centro de competência ferroviário».

Eliminar a concorrência

Desde o início da venda da Sorefame, os trabalhadores – e o PCP que sempre esteve e está do seu lado - alertaram para as verdadeiras intenções do grupo canadiano: eliminar, destruindo, a concorrência por parte de uma empresa que tem capacidade para lhes fazer sombra no mercado mundial.
A Sorefame venceu concursos, por todo o mundo, para a construção de material circulante graças, essencialmente, à qualidade da mão-de-obra dos operários portugueses, altamente qualificados.
Outra parte da unidade com reconhecido prestígio – a construção de material para barragens – foi irrecuperavelmente desmantelada e destruída com a retirada das máquinas que serviam especificamente aquela área de produção. Aos trabalhadores resta a possibilidade de voltar a reactivar a sua parte fundamental, a construção de carruagens.
Se todo o processo tem comprovado as verdadeiras intenções da Bombardier - perante a constante complacência dos governos do PS de Guterres e depois do PSD -, torna-se ainda mais imprescindível que o actual Governo tome uma posição definitiva que tenha em conta a importância daquela unidade produtiva para a economia nacional, os trabalhadores e o País. Não é, por isso de estranhar a recusa da Bombardier, em determinar um preço para que a CP possa efectuar a compra da unidade.

Falta vontade

Em nome da União dos Sindicatos de Lisboa, o coordenador da USL/CGTP-IN, Arménio Carlos, presente na vigília, considerou que toda esta situação é devida à falta de vontade política do Governo.
Também o presidente da Câmara da Amadora, Joaquim Raposo (PS), manifestou a sua solidariedade com a luta dos trabalhadores e assumiu o compromisso de não rever o Plano Director Municipal. A revisão veio a lume, motivada por uma suposta intenção de especulação imobiliária com os terrenos onde se situa a unidade.
Joaquim Raposo afirmou mesmo que o novo Governo tem que dar solução à empresa, tendo em conta as posições assumidas pelo seu partido quando estava na oposição.
Até à hora de fecho desta edição, os trabalhadores mantinham a vigília.
Na terça-feira passada, solicitaram reuniões de carácter urgente com o novo ministro dos Transportes, os grupos parlamentares e o Presidente da República.

Mentiras à Portas

Na campanha eleitoral, o ex-ministro da Defesa, Paulo Portas, usou como bandeira exemplificativa da sua competência no desempenho do cargo, o facto de ter alegadamente acordado com o grupo austríaco, Stey –Daimler –Puch, um contrato que garantia a construção na Venda Nova de viaturas blindadas para substituir as velhas chaimites, ainda em funções.
Assim que se inteiraram daquela intenção, os trabalhadores – com o apoio do PCP através da sua concelhia e do Grupo Parlamentar – fizeram saber que, embora o contrato garantisse esta encomenda, isso não deixava de comprometer o futuro da Sorefame, uma vez que esta unidade não está nem nunca esteve vocacionada para a construção de veículos militares.
António Tremoço confirmou-nos que, ao contrário do que Portas proferiu várias vezes durante a campanha, não está sequer ainda decidido onde serão fabricadas as ditas viaturas, havendo uma possibilidade alternativa à Venda Nova, as antigas instalações da Cometna em Palmela.
Certo e agora comprovado é que Portas mentiu durante a campanha e tentou aproveitar-se do impasse para iludir os trabalhadores, com promessas que o próprio sabia serem fúteis: o facto do ex-ministro ter recusado qualquer alternativa que tivesse em conta a importância da unidade na área de construção de material circulante, comprova a intenção do anterior Governo de destruir o sector, o que equivale à sua extinção no País, com a consequente perda de receitas e o crescimento do desemprego.



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