• Gustavo Carneiro

As recordações dos tempos da Revolução trouxeram lágrimas a muitos olhos
Almoço em Alpiarça homenageia vendedoras do Avante!
30 anos a levar mais longe a voz do Partido
A homenagem à Comissão de Mulheres do Avante! de Alpiarça foi um dos momentos altos do almoço comemorativo dos 84 anos do Partido, realizado no passado domingo e que reuniu 150 camaradas e amigos. Odete Santos esteve presente e fez uma sentida e incisiva intervenção.
Pouco faltava para o meio-dia, hora marcada para o início do almoço, e já muita gente circulava nas imediações do pavilhão do PCP na Feira de Alpiarça. O cartaz do Avante! – com o lema «Notícias de quem trabalha e luta por um Portugal melhor» –, exposto em vários locais no interior do pavilhão, denunciava que o motivo do encontro não era apenas a comemoração dos 84 anos de vida do Partido.
Lá dentro, preparava-se a refeição – num vai-vem frenético de pratos, panelas, copos – e muitos aproveitavam para pôr a conversa em dia. Alguns faziam-no em torno da televisão, que passava alguns excertos do filme «Até amanhã, camaradas», baseado no livro homónimo de Manuel Tiago (pseudónimo literário de Álvaro Cunhal), e lembravam episódios antigos das muitas lutas travadas nos campos ou na praça de jorna do concelho – cuja história coloca Alpiarça num posto destacado dos bastiões da resistência ao fascismo e luta pela liberdade e democracia no País.
Enquanto conversavam, e espreitavam o filme, pelas faces de alguns camaradas rolavam lágrimas: as recordações do duro passado ressurgiam com força e as imagens da vida dura, das perseguições, prisões e torturas avivavam memórias dos muitos presentes que passaram – não em filme, mas em vida – por semelhantes situações, «pagando» assim pelo suposto crime de desejar uma vida melhor com justiça e sem exploração, e de ousar lutar por ela.

Protagonistas de um «filme» bem real

«Isto está bem feito, mas não é comparável à realidade», comentava um dos convivas, apontando para o ecrã. «Era muito pior», acrescentava, referindo as alucinações que se sentia após algumas noites e dias inteiros de tortura da estátua. «Passei “lá dentro” quatro anos, dos 22 aos 26», comentava outro camarada, visivelmente emocionado, com os olhos humedecidos. Não fosse outro o objectivo da reportagem do Avante! e não faltariam histórias heróicas para serem contadas por muitos dos 150 presentes.
Histórias de lutas (algumas ganhas outras perdidas, mas assim se faz a história da luta maior dos comunistas), de repressão, de resistência. De lancinantes mágoas e profundas alegrias. De forças e de fraquezas. E da fidelidade a uma causa maior, e ao Partido que a transporta, visível neste encontro – que todos os anos se sucede –, tanto e tanto tempo depois dessas lutas, dessas prisões, da resistência a essas torturas. E trinta anos depois do 25 de Abril, data maior da História nacional e que a sua «simples» menção chegava para emocionar os presentes, quantos deles destacados construtores da Revolução. Mas adiante…

«Ao meu Partido»

Servido o almoço, esteve a cargo de Odete Santos a intervenção política. Tratando-se fundamentalmente da comemoração dos 84 anos do PCP, a deputada e membro do Comité Central começou com poesia: «Ao meu Partido», de Pablo Neruda. Haverá algum mais apropriado à ocasião?
«Deste-me a fraternidade com o que não conheço./ Acrescentaste à minha a força de todos os que vivem./ Deste-me outra vez a pátria como se nascesse de novo./ Deste-me a liberdade que o solitário não tem./Ensinaste-me a acender a bondade, como um fogo», começou Odete Santos, perante os muitos ouvidos atentos e olhares humedecidos da plateia atenta. E a dirigente comunista prosseguia, declamando o poeta comunista chileno, prémio Nobel da Literatura: «Ensinaste-me a dormir nas camas duras dos meus irmãos./ Fizeste-me edificar sobre a realidade como sobre uma rocha./ Tornaste-me adversário do malvado e muro contra o frenético./ Fizeste-me ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria./ Fizeste-me indestrutível porque, graças a ti, não termino em mim mesmo.»
Perante centenas de punhos cerrados e vivas ao PCP, Odete Santos, seguia, afirmando que, em Portugal, os comunistas se podem rever naquilo que o poeta chileno escreveu. «Este é o Partido no qual aprendemos a solidariedade, a fraternidade, a lutar por quem sofre.» Aos que desde há longos anos vaticinam a morte do PCP, Odete Santos disparou: «Falharam!»
Para Odete Santos, é impossível que um partido que põe no centro da sua actividade e atenção o trabalho humano desapareça. Porque, prosseguiu, a «História é feita pelo trabalho do ser humano e foi desse trabalho que nasceu a necessidade de acabar com a opressão e a exploração». A deputada comunista, após a sua intervenção, cantou, envolvida num fraternal e grande abraço, o «Avante, camarada!» e destacar a acção da Comissão de Mulheres do Avante! de Alpiarça. E as lágrimas não paravam de rolar de algumas faces abaixo… E os punhos permaneciam cerrados.

Um imenso «Obrigado!»

No final do almoço, procedeu-se à entrega dos diplomas às militantes que desde 1974 constituíram a Comissão de Mulheres do Avante! de Alpiarça. E foram muitas as que compareceram, enchendo por completo a mesa que lhes estava reservada.
Depois de duas curtas intervenções sobre a comissão e sobre a importância da venda do jornal do Partido – feitas por um membro da Organização Concelhia e outro da redacção do Avante! –, seguiu-se a homenagem às dezenas de mulheres presentes, que fizeram, ao longo dos anos, parte da Comissão de Mulheres do Avante!.
Junto à mesa, os dois camaradas que intervieram entregaram às homenageadas um diploma onde se reproduzia uma reportagem do Avante! sobre a Comissão, publicada em 16 de Fevereiro de 1978. Ao lado, surgia o fac simile da mensagem deixada à Comissão em finais de 1979 pelo então director do Avante!, António Dias Lourenço, quando se encontrou com o grupo. Na mensagem, o ex-dirigente do PCP afirmou: «Para o grupo exemplar de camaradas “mulheres do Avante!” de Alpiarça, a quem o nosso jornal deve extraordinários sucessos de difusão entre o povo e todos os trabalhadores alpiarcenses, as saudações calorosas e fraternas de toda a redacção do nosso órgão central».
Algumas das mulheres, à medida que iam recebendo os diplomas e beijando e abraçando fortemente os camaradas que os entregavam, mostravam os olhos rasos de lágrimas, felizes com a homenagem que lhes estava a ser feita pelo seu Partido, na sua terra, ao mesmo tempo que lembravam com saudade tempos passados, tempos de Revolução. «Obrigado», respondiam todas à entrega do diploma, certamente não conscientes – talvez pela extrema emoção que estavam a sentir – de que o agradecimento era para elas.

«Chegámos a vender 750 Avantes! por semana»

No final do almoço e feita a entrega dos diplomas, o Avante! falou com quatro homenageadas, actuais ou antigas participantes na Comissão de Mulheres, fundada em 1974, pouco depois do 25 de Abril. Para Clarisse Matias uma das fundadoras e, como ela própria diz, a primeira «controleira» da comissão, «havia já uma ligação ao Partido, que vinha de trás», por parte de muita gente. «Isto é uma terra de luta e assim que nós nos pudemos juntar e voar – pudemos voar com o 25 de Abril – começou logo toda a gente a ir ao Partido, a inscrever-se e a trabalhar». Para esta operária agrícola, de 68 anos, assim que veio a Revolução, foi aberto um Centro de Trabalho improvisado «e a malta começou toda a vir ao Partido».
Segundo Clarisse, começaram as reuniões do Partido: Por células, por núcleos, «cada um tinha a sua reunião». Das muitas células que se reuniam, afirma, destacou-se uma, composta apenas por mulheres, para vender o Avante!. Chegámos a reunir 40 mulheres na comissão ao mesmo tempo. «Tínhamos outras tarefas, mas começámos a organizar duas mulheres por cada rua da vila, a dar o jornal porta a porta», recorda Clarisse. No início, recordou, era mais difícil. Era bater a todas as portas a perguntar se queriam ficar com o jornal. Depois, foram-se fixando os «clientes»… «Chegámos a vender 750 Avantes! por semana», afirmou Clarisse Matias.

«Até reunimos com o Dias Lourenço»

Outra das fundadoras, Maria Lopes Fialho, actualmente à frente do bar do Centro de Trabalho, recorda que a comissão chegou a reunir com o director do Avante! de então, Dias Lourenço. «Ele vinha cá ter connosco de propósito, para reunir». As reuniões eram à quinta-feira, quando saía o jornal.
Hoje, todas concordam, as coisas estão diferentes. Assassinada a Reforma Agrária e passado o período revolucionário, algum do entusiasmo foi-se. E a idade não perdoa, lembra Maria Isabel Pereira, de 68 anos, actual vendedora do órgão central do Partido. Todas as quintas-feiras, vai ao Centro de Trabalho buscar os cinco exemplares do Avante! que vende.
Henriqueta Ramos, de 79 anos, também vende o Avante!. Aproveita, no dia em que sai o jornal, a boleia do marido que vai buscar os Avantes! ao Centro de Trabalho enquanto ela vai às compras. O resto é com Henriqueta, que distribui Avantes! na sua rua e noutra, um pouco mais abaixo.
Como noutros tempos, ainda hoje se deixa o Avante! por baixo da porta ou na caixa do correio. «Na quinta-feira seguinte, eles pagam», explica Maria Isabel Pereira. «E quando não pagam entro eu com o dinheiro. Já paguei muitos», conta.
Ao todo, são cinco as mulheres que ainda vendem desta forma o Avante!, trinta e cinco números do jornal. Mas há outros camaradas a vender, à porta dos mercados e nas ruas. Nas bancas especiais, são vendidos normalmente perto de uma centena de exemplares.

A vida não é só o Avante!… também há as quotas

Mas não só de Avantes! se faz a militância comunista destas mulheres de Alpiarça. Clarisse Matias lembra que para além da comissão tinham outras tarefas: «Fazíamos a limpeza ao centro de trabalho, campanhas de fundos para a Festa do Avante! – ou para o Partido quando era preciso – fazíamos tudo com a nossa força e a nossa vontade.» Maria Lopes Fialho destaca a Comissão de Iniciativas, à qual muitas delas pertenciam. «Fazíamos costura – lenços com a foice e o martelo, aventais, e mais coisas – tudo para vender na Festa do Avante!», para além de outras coisas.
Henriqueta Ramos destaca a cobrança de quotas e as iniciativas de recolha de fundos. «A minha rua pode não ser muito boa para vender Avantes!, mas para os cartões de boas festas é boa», afirma. Todos os anos, na época de Natal, o Partido emite uns cartões, solicitando apoio financeiro militante. «No ano passado fiz 42 contos (210 euros) em cartões», destaca satisfeita. E, realça, cobra as quotas de 62 militantes.
Das quatro entrevistada, Clarisse é a única sem tarefas actualmente. Mas é com emoção que afirma que «gostava de ver a comissão organizada de novo». Quando receberam, em casa, o convite para a homenagem, as quatro ficaram muito felizes. E todas – estas e as outras dezenas – levaram para casa, orgulhosas, o seu diploma.


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