• Correia da Fonseca

Tragédia como sinal
Um dia destes, a TV deu a notícia de que um homem de setenta e poucos anos, nível etário sempre designado nos media como septuagenário com a inevitável conotação da caducidade, havia tentado abater a tiro, no tribunal de Portimão, um médico que o autor da tentativa de homicídio tinha por responsável pela morte da esposa em consequência de erro ou de negligência médica. O médico era de nacionalidade espanhola, o que para o caso só é relevante como indício do criminoso desmazelo de vários governos quanto à formação de novos clínicos portugueses. A notícia teve algum relevo nas diferentes estações de televisão, o que bem se compreende; era um crime, embora o homicídio não tivesse sido consumado, e é sabido que os telenoticiários são louquinhos por assassínios e outras violências equiparáveis. Pelo menos uma equipa de reportagem chegou mesmo a incomodar o médico ferido, então ainda em cama hospitalar. Ao que parece, a suspeita que levara o viúvo recente a tentar fazer o que entendia ser justiça por mão própria até era infundada, o que aliás o frustrado assassino terá depois admitido. Apresentado ao juiz, o detido foi mandado em prisão domiciliária a aguardar julgamento, e esta moderada medida de coacção terá sido ditada pela compreensão do estado de espírito do arguido e pela evidência de que uma reincidência no acto seria de todo improvável.
Já no decurso desta semana, chegou a notícia discreta de que o autor dos disparos se suicidou. A discrição que rodeou esta informação explica-se por motivos de ética jornalística: estará apurado que as notícias de suicídios têm um efeito contagiante, embora talvez nem sempre se valorize adequadamente o seu significado como sintomas de doenças sociais de que por vezes seria útil um amplo conhecimento como sinais de alarme a reclamar providências. Será assim quando em certas zonas do País (estou a pensar designadamente no Alentejo) e em certos tempos o suicídio é consequência de fomes, desempregos e penúrias. Sei que não devo, até por inoportunidade e sobretudo por incapacidade própria, tentar abordar aqui a questão generalizada do suicídio. Mas a TV informou-me de que aquele homem tentou matar decerto por indignação e desespero, sei que depois disso ele se matou, e não sou capaz de fazer de conta de que toda essa verídica estória trágica não pode ter um significado amplo.

Não apenas no Algarve

Em primeiro lugar, falemos do erro médico ou da negligência, supostos ou efectivos. A questão nesta matéria é que os cidadãos que se socorrem dos hospitais deixaram de há uns tempos para cá de ter suficiente confiança na atenção e competência com que serão atendidos. O triste herói do episódio acontecido em Portimão culpou um médico, parece aliás que sem razão, mas de qualquer modo não é preciso pesquisar muito para concluir que os médicos que trabalham nos hospitais portugueses são, também eles, vítimas, embora num menor grau de dramatismo. O que se vai sabendo do que se passa nos hospitais, e é claro que não se vai sabendo tudo, configura uma realidade em trânsito do inquietante para o alarmante, e para que se chegue a esse ponto nem é preciso falarmos do Hospital Amadora-Sintra, paradigma do que talvez possa ser designado como «o perigo hospitalar». Para lá disto, porém, há uma outra circunstância mais ampla, não menos grave, pungente: a condição em que hoje sobrevivem em Portugal os velhos. Numa enorme proporção estão condenados a um estado de solidão quase total, tenham ou não parentes que mesmo quando próximos não o serão quanto a proximidade física. Esta questão da solidão sufocante e até mentalmente perturbadora pode porventura explicar o acto de Portimão: um homem, um «septuagenário», a ver-se perdido no mundo depois de ter perdido a companheira que ele entendeu ter sido assassinada por leviandade hospitalar. Depois, há o invisível mas permanente peso do desapreço social de que os velhos se sentem objecto. Vai muito longe o tempo em que a velhice era motivo para algum respeito por parte da sociedade em geral: hoje, os velhos são de facto considerados como incómodas criaturas que para além de já não valerem muito como seres pensantes se obstinam em não morrer, com isso acarretando graves danos para as gerações que se consideram plenamente válidas. E a esse desprezo, que sentem quase na pele, acresce a solidão em que se afundam. Quem porventura queira informar-se sobre tudo isto, e sobre tudo isto queira reflectir, sabe que se está perante uma tragédia colectiva que é directa consequência do tipo de sociedade para onde fomos resvalando. A partir daqui, o resto é política. Mas a culpa não é minha.


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