Editorial

«Nas questões essenciais, sempre o PS e o PSD se entenderam como dois bons irmãos»

POLÍTICA DE DIREITA

O PSD cumpriu, no passado fim de semana, a 27ª edição do seu Congresso. Para além de eleger o novo líder – que à semelhança de todos os novos lideres dos partidos da política de direita, garantiu que, do Congresso, saiu «um novo estilo de fazer política» – o Congresso aprovou uma moção que, apesar de envolta em sebastiânicas brumas, expressa, de forma muito clara, os interesses do grande capital – pelo que será referência constante do PSD no futuro. De resto, e como era previsível, todo o conclave girou em torno daquela que constitui a preocupação maior do PSD: apetrechar-se para ser oposição ao Governo do PS, combatê-lo, derrotá-lo e substituí-lo na execução da mesma política de direita. Porque, sublinhe-se, a oposição anunciada pelo PSD é ao Governo e não à política do Governo – sem surpresa, aliás, e procurando assegurar a continuidade a um ciclo de alternâncias velho de vinte e nove anos de idade.
O novo líder do PSD, no seu discurso de encerramento do Congresso, desafiou/intimou o Governo PS a levar por diante as «reformas necessárias ao desenvolvimento do País» e produziu uma acalorada defesa do «referendo europeu» que apresentou como «prioridade absoluta». E tamanha é a importância atribuída pelo PSD ao dito referendo – e, naturalmente, à vitória, custe o que custar, do sim – que o novo líder, não hesitou em, de dedo em riste, ameaçar com a «mais firme oposição» se a maioria PS não concordar com essa definição de prioridades. O novo líder desejou, também, que o Presidente da República «tenha em atenção a posição do PSD sobre o referendo.»

Não há razões, contudo, para tantas e tão grandes preocupações por parte do líder do PSD. No que diz respeito às tais reformas milagrosas, é uma questão de tempo: José Sócrates vive, ainda, o estado de graça que a incomensurável disponibilidade de compreensão da generalidade dos portugueses usa conceder a todos os novos governos. E, como o líder do PSD sabe por experiência própria, há razões fortes para adiar a inevitável chegada do estado de desgraça: a prática governativa do Governo PS dá prioridade, de momento, às eleições autárquicas, aguarda a sua realização e os seus resultados na esperança de ficar mais forte, precisamente para levar por diante as tais «reformas» – que, como a experiência nos diz, constarão de medidas que favorecerão ainda mais os interesses do grande capital e penalizarão ainda mais os trabalhadores e o povo.
Quanto ao «referendo europeu» não há-de ser necessária essa «firme oposição» brandida por Marques Mendes: diz-nos a história que, em matéria de questões essenciais para a política de direita, sempre o PS e o PSD se entenderam como dois bons irmãos, sendo mais do que previsível que assim acontecerá, uma vez mais, neste caso, em que ambos irão entender-se na revisão da Constituição, artifício para mais uma machadada nos valores de Abril e para mais um passo em frente na venda de soberania nacional aos interesses dos grandes e poderosos da Europa.

Também em relação ao Presidente da República, parecem desnecessárias as preocupações e os avisos do líder do PSD. Em relação a tudo em geral e ao referendo europeu em particular. Atente-se, para não recuarmos mais no tempo, nas declarações que Jorge Sampaio tem vindo a proferir no decorrer da sua estadia em França. «Evitando interferir no aceso debate» que se trava naquele país a propósito do referendo sobre o «tratado europeu», o Presidente da República expressou o «desejo de que a França continue a ser um dos pilotos da União», já que, disse (sempre evitando interferir no debate, recorde-se) «não se pode conceber a UE sem a França.» E é, ainda, tendo presente a suprema preocupação de não interferir no debate que diz, a propósito de as sondagens apontarem para uma vitória do não: «Mesmo que isso não seja uma tragédia jurídica, mesmo se houver sempre um tratado, caso o não ganhe, as consequências serão (…) muito complicadas.» Finalmente, numa demonstração cabal do seu conceito de não interferir no debate, afirma: «Não quero fazer chantagem, mas depois deste alargamento há um imenso trabalho de aprendizagem da vida em comum. Precisamos verdadeiramente de mais Europa.» - e remata com uma frase para a História: «Sou cada vez mais europeu, e isso torna-me cada vez mais português.» E ainda há quem pense que, ao contrário do que diz o Presidente da República Portuguesa, é sendo cada vez mais portugueses que mais europeus somos…

A visita do PR a França coincide com um agravamento da situação em matéria de ensino da Língua Portuguesa naquele país. Na realidade, a Língua Portuguesa foi arrumada – pelo Governo francês e pelas políticas dos sucessivos governos portugueses – no sombrio cacifo dos «idiomas raros», que é como quem diz, idiomas de objectos falantes.
E sendo certo que esse é, e ainda bem, um dos temas constantes da agenda francesa do Presidente Sampaio, esperemos que, desta vez e nesta matéria, as coisas não se quedem nas fugazes boas intenções tão bem traduzidas no provérbio muita parra e pouca uva.
(Não) vão longe os tempos em que a Língua Portuguesa era conhecida em toda a Europa: «revolução dos cravos» foi durante alguns anos uma expressão conhecida de muitos e muitos milhares de cidadãos dos vários países europeus – que identificavam essa expressão com futuro, modernidade, democracia participada, assunção da soberania nacional. E entre os muitos malefícios da política de direita praticada nos últimos vinte e nove anos conta-se esta apagada e vil tristeza para que foi remetida a Língua Portuguesa.


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