«Milhares de pessoas empunhando bandeiras nacionais marcharam pacificamente»
Equatorianos exigem demissão de Lúcio Gutierrez
«O povo unido jamais será vencido»
Uma semana de protestos no Equador obrigaram Lúcio Gutierrez - hoje apoiado pelos EUA - a recuar na substituição da Corte Suprema de Justiça, mas o povo mantém a exigência de renúncia do presidente.
A maioria dos deputados do congresso equatoriano aprovaram, segunda-feira, a proposta de revogação do decreto presidencial apresentada pela oposição. Os 89 parlamentares presentes na sessão concordaram, ao fim de mais de seis horas de debate e outros tantos dias de intensos protestos populares, em deixar sem efeito a «limpeza» que Gutierrez tentou, desde o passado dia 8 de Dezembro, fazer na Corte Suprema de Justiça.
A decisão representou a derrota parcial do presidente, não só porque não garantiu a «restruturação» imposta no sistema de justiça, como ainda se viu envolvido em suspeitas de favorecimento aos ex-presidentes Gustavo Naboa e Abdalá Bucaram, uma vez que os juizes nomeados recentemente por Gutierrez anularam os processos pendentes contra os seus antecessores.
O carácter despótico das medidas e o tráfico de influências apontados pela oposição parlamentar e pelas massas nas ruas ganham razão de facto quando se soube que, no dia da votação no parlamento, Gutierrez encontrava-se numa cidade costeira eleitoralmente dominada pelo partido de Bucaram e aguardava uma manifestação de apoio ao seu mandato e orientação política neoliberal.

Mobilização antecipou golpe

Cansados de discursos socialmente conscientes durante as campanhas eleitorais que resultam, posteriormente, em exercícios presidenciais corruptos e servis dos interesses do grande capital transnacional, sobretudo o norte-americano, os equatorianos cumpriram uma greve parcial na manhã da quarta-feira da semana passada, iniciativa à qual sucedeu uma mobilização sem precedentes no país.
Nesse mesmo dia, milhares de jovens, trabalhadores, estudantes e camponeses indígenas realizaram protestos dispersos pela capital, Quito, quase todos alvo de repressão policial.
Os órgãos de comunicação social viram algumas linhas e canais de informação serem bloqueados alegadamente a mando do governo, mas o processo de contestação assumia-se imparável e as ondas de rádio dinamizaram a onda de repúdio popular.
Dos microfones da Rádio La Luna saía, ao final da tarde, o apelo para que a população continuasse a desfilar pelas ruas de Quito em protesto contra a inconstitucional «restruturação» do poder judicial e a privatização de sectores chave da economia.
De vários pontos da cidade, milhares de pessoas empunhando bandeiras nacionais marcharam pacificamente até à Corte Suprema de Justiça, mas a concentração foi pouco depois desmobilizada pelas autoridades numa demonstração brutal da repressão a que Gutierrez estava disposto a deitar mão em nome da manutenção do poder.
Diante da violência, a resposta das massas foi ainda mais determinada. Muitos dos manifestantes, inconformados, dirigiram-se à residência particular do presidente para exigirem a sua demissão gritando «Lúcio fora» e «o povo unido jamais será vencido».
Nos dias que se seguiram o «povo unido» nunca se calou. Cada mobilização trazia um novo objecto – panelas, buzinas, tachos, papel higiénico para limpar o executivo corrupto – mas as razões foram sempre as mesmas: rejeitar liminarmente o Tratado de Livre Comércio com os EUA, a alienação dos recursos naturais, a participação do Equador no Plano Colômbia de agressão norte-americana contra as FARC e denunciar a imunidade concedida por Gutierrez aos militares dos EUA no país, medidas acordadas entre o presidente, os representantes do capital equatoriano, a embaixada dos EUA e o chefe do Comando Sul do exército norte-americano, o general Myer.

«Ditadura» resistiu 24 horas

Numa tentativa de atalhar a crescente contestação de massas que diariamente não desmobilizava das ruas da capital, apoiado na sua decisão pelas forças armadas dos EUA, Gutierrez instaurou, na noite de sexta-feira, o estado de emergência na província de Quito e restringiu as garantias constitucionais de livre expressão, manifestação e movimentação individual.
Horas antes da comunicação televisiva de Gutierrez, ladeado pela cúpula militar, o povo, avisado da possibilidade de instauração de um regime «musculado», continuou o protesto nas ruas dispondo apenas do direito à indignação, da vontade colectiva de correr com o presidente e seus capangas e com a política neoliberal que traiu as esperanças de milhares de equatorianos.
Um grupo de provocadores munidos de armas e garrafões de gasolina, enviados pelo governo, tentou cortar a voz da Rádio La Luna, mas a rápida intervenção popular desmontou a intentona.
Entre a madrugada de sexta-feira e a noite de sábado, as horas de incerteza deram lugar a uma vitória popular sobre a tentativa de instauração de uma ditadura.
Apesar de Gutierrez ser sustentado pelas cúpulas militares, as forças armadas não responderam em força como esperava o presidente e os seus aliados, e até o presidente da câmara da capital, Paco Moncayo, criticou a medida qualificando-a de autocrática e lesiva dos direitos dos cidadãos. O autarca apelou à população para que se mantivesse concentrada, mobilizada e anunciou o início de uma campanha internacional contra a ditadura de Gutierrez.
Na tarde se sábado, os rumores de dissolução do parlamento aumentaram os receios de um quadro golpista, mas Gutierrez foi obrigado a ceder e levantou o estado de emergência anunciando a convocação de uma sessão extraordinária no Congresso Nacional.
Os problemas e as razões populares são, porém, mais profundas. Fundamentam-se na rejeição da impunidade, de um modelo económico e social antagónico às necessidades reclamadas pela maioria dos cidadãos, pelo direito à soberania. Por isso, a noite de sábado continuou a ser de contestação em Quito, cenário que, a julgar pela força da acção das massas, pode precipitar o país num novo acto eleitoral antes do agendado para 2007.


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