Editorial

«Todas as etapas da ofensiva contra Abril começaram com ataques aos direitos dos trabalhadores»

DUAS DATAS INSEPARÁVEIS

O 25 de Abril e o lº de Maio são, para os portugueses, duas datas inseparáveis. Por um lado, pelo carácter decisivo do contributo das lutas travadas pelas massas trabalhadoras no combate à ditadura fascista; por outro lado, pelo papel igualmente decisivo das massas trabalhadoras no êxito do Movimento dos Capitães – saindo para a rua no próprio 25 de Abril, conquistando-o como Dia da Liberdade e, seis dias depois, no Dia dos Trabalhadores, consolidando e conferindo à liberdade conquistada uma dimensão nova, com um determinado conteúdo de classe abrindo caminho a um processo revolucionário que viria a traduzir-se em significativas conquistas políticas, económicas, sociais, culturais, civilizacionais.
O Movimento Sindical Unitário (MSU), com uma experiência feita de duras lutas travadas durante o regime fascista – e unido em torno da CGTP –IN, criada antes do 25 de Abril – desempenhou um papel decisivo na mobilização da classe operária e das massas trabalhadoras para a luta pela consolidação e avanço do processo revolucionário e contra as manobras das forças da reacção. Por isso mesmo, o MSU foi, desde logo, um alvo preferencial dessas forças nas diversas expressões que assumiram: umas pugnando abertamente pelo regresso ao passado fascista; outras, designadamente os grupelhos esquerdistas (a versão BE desses tempos), prestando, através da ostentação de um revolucionarismo ruidoso, um inestimável serviço à contra-revolução; outras, ainda, mais cautelosas, visando impedir ou limitar os avanços revolucionários e procurando os melhores caminhos, na circunstância, para a melhor defesa dos interesses do grande capital – e todas conscientes do papel e da importância da força organizada da classe operária e dos trabalhadores.
E quando, no primeiro lº de Maio, centenas de milhares de trabalhadores vieram à rua, em todo o País, numa poderosa manifestação de unidade, os divisionistas – portugueses e estrangeiros, que nunca antes se haviam interessado pelo sindicalismo em Portugal – congeminavam, na sombra, a ofensiva contra o Movimento Sindical Unitário.

De facto, as centrais internacionais do divisionismo assentaram arraiais em Portugal imediatamente a seguir ao 25 de Abril. A AFL-CIO e a CISL – com uma longa experiência de acções na divisão do movimento sindical em vários países – iniciaram a sua acção de acordo com os métodos a que habitualmente recorriam noutros países: formando quadros para a acção divisionista; criando um «Centro de Estudos para a Formação de Novos Sindicatos» (que viria a constituir o sustentáculo essencial do sindicalismo amarelo), levando a cabo uma poderosa, e bem financiada, operação divisionista – sempre em nome da necessidade de criação de sindicatos que, escondidos por detrás de pomposas designações como «livres», «democráticos», «independentes», procuravam esconder o seu verdadeiro objectivo de dividir os trabalhadores, enfraquecer a sua luta, torná-los presa fácil dos interesses do grande capital. Conhecidos agentes do divisionismo sindical internacional, apoiados em sindicalistas portugueses saídos directamente das linhas de montagem das escolas do divisionismo, lançaram uma forte operação contra o MSU e a CGTP-IN – operação apoiada pelos partidos da contra-revolução de Abril (com o PS em primeiro plano) e que, a dada altura, era resumida publicamente na célebre frase que constituía o objectivo maior dessa ofensiva: «quebrar a espinha à Intersindical». Com isso queriam dizer acabar com o movimento sindical de massas, democrático, unitário, independente, de classe.
Objectivo falhado, como a realidade mostrou – mas objectivo que permanece como preocupação maior dos seus protagonistas, estimulados por êxitos alcançados noutros países e por uma correlação de forças que, na sequência do desaparecimento da União Soviética, se lhes tornou claramente favorável.
Os muitos milhares de trabalhadores – homens, mulheres e jovens – que, no domingo passado, comemoraram, em festa e luta, o seu Dia, mostraram, contudo e mais uma vez, a força e a vitalidade do Movimento Sindical Unitário. Flagelados por mais um pacote laboral, a juntar aos vários com que os partidos da política de direita têm vindo a roubar-lhes direitos; sofrendo as consequências brutais de uma política de desemprego, de trabalho precário, de baixos salários – os trabalhadores portugueses vieram à rua, em dezenas de localidades, afirmar a sua disposição de continuar a luta pela defesa dos seus interesses e direitos conquistados com a revolução de Abril.

Todas as etapas da ofensiva contra Abril levada a cabo pelos partidos da política de direita nos últimos vinte e nove anos, tiveram o seu início com ataques aos direitos dos trabalhadores. E, tendo como objectivos essenciais abrir portas à acentuação da exploração capitalista e enfraquecer a capacidade de acção do MSU, os sucessivos pacotes laborais sempre vieram acompanhados por medidas conducentes ao empobrecimento do conteúdo democrático do regime nascido a 25 de Abril. Não surpreende que assim seja: Abril foi o início da construção de uma democracia avançada, progressista, moderna, participada, tendo a justiça social como referência maior; a contra-revolução de Abril foi o oposto de tudo isso.
E é tudo isto que está na origem da indissociável ligação entre o 25 de Abril – Dia da Liberdade – e o lº de Maio – Dia dos Trabalhadores. E foi tudo isto que esteve presente nas manifestações comemorativas do 31º aniversário do 25 de Abril e do primeiro lº de Maio. A confirmar que a luta continua.


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