• Gustavo Carneiro e Jorge Cabral

Várias gerações de comunistas fizeram e fazem do Caramulo um caso raro no distrito de Viseu
O Partido tem passado, presente e futuro!
No Caramulo luta-se por um Portugal melhor
Em pleno coração do distrito de Viseu – a que muitos chamam «cavaquistão» –, o Avante! falou com militantes comunistas. E descobriu, no Caramulo, concelho de Tondela, um Partido com implantação, tradição e futuro. Militantes com experiências e idades diferentes, mas unidos pela mesma dedicação ao Partido e o mesmo desejo de fazer do País e do mundo lugares melhores para se viver.
A estância sanatorial do Caramulo – ou o que resta dela – domina a vila. No alto dos montes verdejantes, velhos mas imponentes edifícios não deixam esquecer o passado daquela localidade, dominada desde há décadas pela família Lacerda – a mesma que, ainda hoje, exerce um imenso poder sobre os habitantes da vila. Ou não fosse ela a possuidora dos terrenos e dos edifícios do antigo sanatório e, a bem dizer, de grande parte da vila. Os velhos caciques (diz-se que frequentadores da casa de Salazar, que vinha igualmente «repousar» muitas vezes para o sanatório), agora na pessoa dos seus descendentes, estão de volta!
Mas o domínio que o sanatório exerce sobre o Caramulo não é apenas visual. Hoje, as tentativas dos donos – netos do «velho» Lacerda – para o transformar num complexo turístico de luxo são muitas. No passado, foi esse mesmo sanatório que ditou o crescimento da vila do Caramulo. Pessoal clínico e auxiliar ou doentes, vieram novos «habitantes» para a vila – muitos revoltados com a sua nova situação: uns, profissionais exemplares e dedicados, sentiam na pele a exploração dos magros salários e das longas jornadas; outros, enfermos, sobretudo com doenças contraídas nas guerras de África, experimentavam a crescente revolta contra os responsáveis pela sua situação – os fascistas de Salazar.

Ambiente antifascista

Foi tudo isto que fez do Caramulo um caso excepcional no conservador distrito de Viseu. Fernando Silva, de 71 anos, lembra que o Caramulo se tornou, após a fundação do sanatório, nos anos 20, mais desenvolvido do que as terras à volta. E recorda que já em 1940 possuía uma Estação de Tratamento de Águas, a primeira do País. Mas este «desenvolvimento» trouxe consigo o reverso da medalha: a exploração de tipo capitalista.
A revolta acumulada na vila era grande e a vivência política antifascista maior do que no resto do distrito onde, afinal, nascera o ditador. Também assim se fez a organização do Partido naquela localidade. Com gente vinda de fora e que por ali foi ficando e também com gente que ali nascera e crescera e que, sofrendo a exploração da família Lacerda, e contactando com muitos «residentes» do sanatório, foi adquirindo consciência antifascista e comunista.
Na década de 50 e, sobretudo (devido à Guerra Colonial), na de 60, muitas figuras da oposição antifascista frequentavam o sanatório e as 18 casas de saúde existentes na vila Caramulo. Fernando Silva, membro do Partido desde 1974 mas amigo desde muito antes, recorda especialmente o professor Ruy Luís Gomes que, juntamente com o farmacêutico local, promovia tertúlias na Farmácia.
Fernando, ainda jovem, e alguns amigos, assistiam e assim consolidavam a sua formação antifascista. «A uns quantos foram-se juntando outros», conta, sobretudo gente com aversão à exploração de que eram vítimas por parte dos Lacerda. Também a actividade política do seu irmão mais velho – que esteve preso e era militante comunista activo – contribuiu decisivamente para a formação de Fernando Silva, que, perseguido na terra, teve de rumar a outras paragens. Em 1974, depois de passar pelo Brasil, estava do Porto. Ao Caramulo, regressaria no ano seguinte.

Exploração e revolta

A história de Maria José Alves, também de 71 anos, é diferente da de Fernando Silva. Mas a vida levou-os a lutar, lado a lado, pelo mesmo objectivo, pelo mesmo Partido. Ao contrário do seu camarada, nascido do Caramulo, Maria José é natural da ilha da Madeira. E a sua ida para a vila serrana está, também ela, ligada ao sanatório e às casas de saúde.
Criada pelos patrões – uma família madeirense de tradições democráticas –, veio com eles para o Caramulo no final dos anos 50. O filho da família, então estudante de medicina em Coimbra e «marcado» pelo seu apoio à candidatura do general Humberto Delgado, foi enviado para a guerra em Moçambique, para uma zona particularmente perigosa, e de onde lhe foi negado o direito a vir periodicamente a casa. O resultado foi a contracção de uma doença nervosa e pulmonar. «A nossa casa foi sempre marcada pelo sofrimento, por causa desse maldito Salazar. Portanto, nós tínhamos de ser mesmo todos das «esquerdas», afirma Maria José Alves.
O «pai», sargento-enfermeiro com uma doença pulmonar, fixou-se no Caramulo para se curar. Ao fim de quatro anos, voltou para a Madeira, mas não se adaptou ao clima da sua ilha de origem. Regressou então ao Caramulo, onde se acabaria por empregar no sanatório.
«Recebia uma reforma miserável, depois de vinte e tal anos de vida militar» e teve de voltar a trabalhar como enfermeiro no sanatório dos Lacerda, recorda Maria José Alves. «Era um enfermeiro só para o sanatório. Não tinha horas, nem noites. Era sempre ao serviço.»
Maria José ficou sempre com eles, que a criaram «desde novita». Actualmente, desaparecidos todos os membros da sua família adoptiva, vive em sua casa, na vila do Caramulo. Em 1974, com a Revolução nas ruas, aderia ao Partido Comunista Português.

Um Verão bem quente… e longo

A Revolução dos Cravos revelou a forte implantação das forças antifascistas, nomeadamente dos comunistas, no Caramulo. José dos Prazeres, comerciante e apiculor, de 57 anos, recorda que no 28 de Setembro de 1974 (dia da tentativa de golpe spinolista), ergueram-se barricadas populares para impedir o avanço da chamada «maioria silenciosa» sobre Lisboa, que pretendia na verdade reforçar os poderes do então Presidente Spínola e travar a marcha à Revolução democrática. À frente das barricadas, estavam os comunistas.
Maria José Alves lembra com saudade esses tempos. «O Álvaro Cunhal veio cá algumas vezes almoçar connosco», recorda, emocionada a camarada que é, actualmente, responsável pela recolha da quotização na freguesia. «Tínhamos muita actividade», destaca.
Quando as forças da contra-revolução começaram a recuperar o fôlego, tudo mudou. Iniciaram-se as provocações, as ameaças, as pressões e os ataques aos comunistas. Tudo dirigido, no local, pelos sectores mais retrógrados da Igreja e pela inevitável família Lacerda, que utilizava como informadores gente que para eles trabalhava. E eram muitos os que deles dependiam… e dependem ainda hoje.
Como sucedeu em muitos outros locais do País, nomeadamente no Norte, o Centro de Trabalho do Partido na vila não escapou à fúria das chamas ateadas por membros de forças ultra-reaccionárias. Ainda por cima, descendo o monte onde se situa o Caramulo, localiza-se Campo de Besteiros, à época um grande ponto de concentração de operacionais do movimento terrorista de extrema-direita MDLP…
Mas os problemas não terminaram depois do chamado «Verão Quente» e após o triunfo da contra-revolução em Portugal. Durante muitos anos, lembra José dos Prazeres, os comunistas sofreram muito no Caramulo. «Éramos mal tratados, havia ofensas e provocações», recorda. Comerciante, a sua loja era alvo de boicotes e ataques. «Mas nunca baixei a cabeça», destaca, com um brilho nos olhos denunciando um indisfarçável orgulho no seu Partido e nos seus ideais.

Sementes de futuro

O Caramulo de hoje pouco tem a ver com o que era dantes. Encerrado o sanatório, muita gente abandonou a vila, rumando a outras paragens, em busca de uma vida melhor. Uns para as cidades do Litoral, outros para o estrangeiro. Como é óbvio, também o Partido se ressentiu deste êxodo. Mas nunca caiu, nunca desapareceu. Graças a pessoas como Fernando Silva, Maria José Alves, José dos Prazeres e muitos outros. Este último conseguiu mesmo ser eleito para membro da Assembleia de Freguesia do Caramulo nas eleições autárquicas de 2001, devolvendo a voz dos comunistas à freguesia, após muitos anos de ausência.
Nos últimos anos, a organização cresceu, bem como a sua intervenção nas lutas sociais. Exemplos disso são, entre outras, as lutas travadas em defesa da estação dos CTT e pela abertura das ruas – pertencentes ao antigo sanatório – que desde 1982 permanecem fechadas à população, por desejo dos donos e cumplicidade das instâncias autárquicas da freguesia e do concelho. Com a eleição de um membro do PCP para a Assembleia de Freguesia, a questão da abertura das ruas à população voltou a ser levantada. O presidente da Junta de Freguesia, após promessas e mais promessas, acabou por ceder à poderosa família Lacerda, adiando uma vez mais a questão. Mas José dos Prazeres promete que a luta continuará. Dentro e fora das instituições.

Juventude é a chama mais acesa da Revolução

Os jovens ocupam hoje um importante lugar na organização do Partido no Caramulo e na vizinha aldeia de São João do Monte, onde a CDU conseguiu pela primeira vez em 2001 apresentar uma lista para as eleições autárquicas. Não é, pois, por acaso, que das sete pessoas que falaram ao Avante!, quatro tivessem menos de trinta anos. E há muitos mais, garantem. Dezenas. Que garantem muito do trabalho político das freguesias e participam, todos os anos, na implantação e funcionamento da Festa do Avante!.
Isidro Ferreira, de 23 anos, tem uma grande responsabilidade nesta adesão de muitos jovens ao Partido. Filho de José dos Prazeres, desde muito novo que o PCP faz parte do seu dia-a-dia. Para Luís Monteiro, operário da construção civil, de 27 anos, as conversas tidas com Isidro e outros camaradas foram fundamentais. Depois, afirma, foi «só» pensar nas coisas e a adesão ao Partido, em 2000, foi o resultado lógico de toda uma evolução política: «É o Partido que defende os nossos direitos», conclui Luís Monteiro. O mesmo afirmam outros dois jovens de São João do Monte, João Pereira, da mesma idade e com a mesma profissão de Luís, e João São Bento, serralheiro com 29 anos.
A formação da lista para as autárquicas em São João do Monte é agora a grande batalha destes jovens. Para tal, há que falar com muita gente, da qual muitos não são militantes do PCP. Luís Monteiro destaca que é mais fácil falar com os jovens, que têm menos preconceitos em relação aos comunistas.
Isidro, avesso a protagonismos, manteve-se calado durante quase toda a conversa, à qual se tentou, aliás, por diversas vezes escapar. E, devido à sua modéstia e timidez, ia deixando de referir um «pequeno pormenor» - a adesão recente de oito novos militantes para a JCP, para a qual contribuiu decisivamente. Isidro, actualmente, trabalha com o pai, mas quer voltar a estudar. Ao nível do Partido, está a receber das mãos de Maria José a responsabilidade da cobrança das quotas, entre muitas outras tarefas.
O Partido no Caramulo tem passado e presente. Quanto ao futuro, esse parece garantido!


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