A arte, o artista e a sociedade
Reflectir e fazer, poderia ser a dupla chave com que Álvaro Cunhal abordou a realidade, os problemas, os sonhos, os projectos, o mundo em que viveu. Homem de interesses e de actividades múltiplas, sempre subordinados à política - uma política ao serviço dos trabalhadores, do povo e do País -, o dirigente comunista, o ensaísta, o escritor, também se interessou profundamente pela arte. Reflectindo e praticando.
São conhecidos muitos dos seus trabalhos. As reproduções dos seus Desenhos da Prisão são provavelmente hoje as obras de arte mais divulgadas em todo o País, embelezando as casas de muitos portugueses, não apenas de comunistas, mas sobretudo de trabalhadores e de intelectuais.
São trabalhos, que, como os outros todos que se conhecem ao autor, provêm de uma amadurecida experiência da vida onde se mistura o sonho e o projecto. Onde o dramatismo das lutas populares e as alegrias da festa vivem no traço enternecido com que as personagens são tratadas. A violência da repressão, a dignidade da revolta, a alegria infantil ou a serena beleza de uma ceifeira deixam ver um país e, para lá dele, o futuro colectivo das gentes empenhadas em transformá-lo.
Integrados numa já afirmada perspectiva neo-realista, os desenhos e as pinturas de Álvaro Cunhal marcam um tempo de luta. Mas não deixam de perspectivar as aspirações de harmonia e de beleza.
Ao mesmo tempo que, na prisão, usando o lápis e o papel - e mais raramente a cor e a tela - reflectia e sonhava o mundo, o autor ia, ao longo dos anos, reflectindo sobre o fenómeno intrinsecamente humano da arte, das suas raízes e do seu valor social, surgindo finalmente o livro A arte, o artista e a sociedade, uma obra que não pretende impor uma visão, mas que veio enriquecer o estudo e a perspectiva sobre o fenómeno estético.


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