Editorial

«É a política de direita, praticada há vinte e nove anos, que está em causa»

O CAMINHO DA LUTA

É sempre assim com a política de direita: às dificuldades resultantes das práticas dos governos anteriores, juntam-se dificuldades do mesmo género geradas pelo governo recém-chegado, o qual anuncia a chegada de mais e maiores dificuldades semelhantes a curto prazo. Dificuldades para alguns, entenda-se. Por sinal, sempre para os mesmos: os milhões de trabalhadores, de reformados e pensionistas, de jovens, de micro, pequenos e médios empresários - ou seja, dificuldades para a imensa maioria dos portugueses e portuguesas que vê piorar, de Governo para Governo, as suas condições de vida e de trabalho.
Em contrapartida, crescem as facilidades para outros. Por sinal, sempre para os mesmos: os chefes dos grandes grupos económicos e financeiros e, por arrasto, os que, das mais diversas formas, servem os seus interesses - ou seja, facilidades para uma pequeníssima minoria dos portugueses e portuguesas que vê crescer os lucros e encontra em cada novo Governo um mais sólido aliado.
Repetitivo é, também, o discurso com que os governantes de cada momento procuram justificar as medidas gravosas que tomam: o estado do País é mau; o mau estado do País é da responsabilidade do governo anterior; por isso é necessário, é imperioso, é urgente fazer sacrifícios, apertar o cinto – e enquanto a maioria aperta o cinto a minoria alarga-o.
Sempre assim tem sido e o que acima se escreve poderia ter sido escrito (e até foi) quando dos primeiros cem dias do Governo de Durão Barroso, ou do de António Guterres, ou do de Cavaco Silva (isto para referir apenas os três primeiros-ministros que, para além de praticarem todos a mesma política - com as mesmas consequências gravosas para os trabalhadores, o povo e o País – optaram, todos também, quando a situação era desastrosa, pela fuga às responsabilidades.

S obre o actual Governo – sem surpresa igual aos anteriores, para pior - há que relembrar que ele se formou na sequência da vitória do PS nas eleições legislativas de 20 de Fevereiro passado, eleições ganhas a troco de mil promessas de bem-aventuranças, nomeadamente as garantias solenes de não aumentar os impostos, de combater o desemprego criando 150 mil postos de trabalho, de aumentar as pensões e reformas mais baixas, da chegada, enfim, da prosperidade que há vinte e nove anos anda a ser anunciada. 100 dias passados, constata-se que o que já chegou é péssimo e o que está para chegar é pior do que péssimo: aumentos de preços de combustíveis, de impostos, de transportes, de rendas de casa, redução da comparticipação no custo dos medicamentos; aumento do desemprego, aumento das falências; mais o esmagador, sufocante aumento do IVA, cujas consequências - para quem trabalha e vive do seu trabalho e para quem já trabalhou e vive das suas reformas e pensões - serão imediatas e terríveis. Também em matéria de direitos – humanos, pois claro: o que são senão humanos todos os direitos dos seres humanos? – o Governo que chega prossegue a obra do que partiu (que, por sua vez, havia dado continuidade à obra do que o antecedera…) e atira-se aos trabalhadores com o habitual ódio de classe. A ofensiva do Governo PS/Sócrates contra os direitos dos trabalhadores da Administração Pública assume proporções graves, visando liquidar conquistas laborais históricas e tendo como objectivo nivelar por baixo os direitos de todos os trabalhadores, independentemente do sector a que pertençam, e recorrendo ao clássico expediente de procurar virar contra os trabalhadores da Administração Pública os trabalhadores de outros sectores – tarefas para as quais conta com a prestimosa ajuda dos seus propagandistas encartados também conhecidos por comentadores políticos, os quais, tudo o indica, acabam de abrir uma nova linha de ataque aos sindicatos e às lutas dos trabalhadores.

É, pois, a política de direita praticada há vinte e nove anos que está em causa. E a ruptura com esta política e a sua substituição por uma política de esquerda é a questão essencial que se coloca.
Nas eleições de Fevereiro foram criadas expectativas não apenas de mudança de Governo mas igualmente da indispensável mudança de política. Essas expectativas foram goradas: o Governo PS/Sócrates confirmou-se como um fiel executante da política de direita ao serviço dos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros e contra os interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
Em consequência disso, e porque se acentua o agravamento da situação, aumenta o legítimo descontentamento popular e intensifica-se a luta dos trabalhadores e de outros sectores vítimas das consequências dessa política. As poderosas manifestações de massas realizadas nas últimas semanas – de que as da passada terça-feira são um exemplo claro - traduzem não apenas o protesto pelas promessas enganosas mas igualmente o peso da força organizada dos trabalhadores e a sua disponibilidade para o prosseguimento da luta, bem como uma inequívoca vontade de mudança de política.
O Secretário Geral do PCP, Jerónimo de Sousa, afirmou, há dias, que devemos «assumir uma posição ofensiva, defendendo, lutando, mas consciencializando, propondo a ruptura com esta requentada política, para que se retome uma nova política, uma política de esquerda (...) que tenha como matriz, designadamente, a defesa do aparelho produtivo e da produção nacional, o crescimento económico e do emprego, o respeito e a valorização do trabalho com direitos, a salvaguarda da universalidade do direito ao ensino, à saúde e à Segurança Social, a salvaguarda da nossa soberania e independência nacional.»
É esse o caminho da luta.


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