Editorial

«O terrorismo é sempre um inimigo feroz da democracia, da paz, da justiça»

CONTRA O TERRORISMO

É clara e inequívoca, tem mais de oitenta e quatro anos de vida e constitui um caso único no quadro partidário nacional, a posição dos comunistas portugueses em relação ao terrorismo: sempre o considerámos uma prática criminosa, inimiga da democracia e da luta pelo progresso, pela justiça social e pelos interesses dos trabalhadores; sempre sublinhámos a sua característica de arma da reacção e do anti-comunismo; sempre rejeitámos a sua identificação com a luta libertadora dos povos, designadamente quando esta, em situações concretas, assume justa, necessária e corajosa expressão armada (o fascismo chamava «terroristas» aos patriotas que lutavam pela independência dos seus países nas ex- colónias portuguesas, tal como o imperialismo chama «terroristas» aos patriotas palestinos, iraquianos, colombianos); sempre afirmámos que não há terrorismo-bom e terrorismo-mau e que o terrorismo de Estado e o terrorismo político caminham de mãos dadas. E sempre agimos em consonância com estes pontos de vista. Por isso, ao longo da história, o PCP foi sempre um alvo preferencial do terrorismo: quer do terrorismo fascista, ao qual foi o único partido a fazer frente; quer do terrorismo pós 25 de Abril, arma essencial, a dado momento, das forças da contra-revolução. Por isso, o PCP tem uma autoridade moral singular para se pronunciar sobre esta matéria.
Tudo isto vem a propósito do brutal acto terrorista que, há dias, semeou a morte e o horror em Londres. Tudo isto deve trazer às memórias que também em Portugal houve terrorismo: com bombas, com tiros, com assaltos, com agressões violentas, com edifícios incendiados, com feridos, com mortos – e que vários dos que, hoje, condenam, com trinados de democracia na voz, a bárbara acção bombista do passado dia 7, estavam, então, intensamente empenhados na organização, no incentivo, no apoio ao terrorismo bombista.

Há trinta anos, num pano colocado na fachada do Centro de Trabalho Vitória, na Avenida da Liberdade, podia ler-se: «Contra o terrorismo». Tratava-se de uma palavra de ordem na ordem do dia: o terrorismo iniciara a sua feroz ofensiva, à qual era necessário fazer frente. Tratava-se de uma brutal vaga terrorista, cujo objectivo essencial era a liquidação da democracia de Abril, do mais avançado projecto de democracia alguma vez existente em Portugal: uma democracia participada, amplamente participada, geradora de liberdade, de justiça social, de respeito pelos interesses dos trabalhadores, do povo e do País, de respeito pelos direitos humanos – e o ataque à democracia de Abril passava pelo ataque ao PCP, partido da liberdade, da democracia, da justiça social, da independência nacional.
«Em Julho (de 1975) seguindo-se ao assalto e destruição do Centro de Trabalho do PCP em Rio Maior, são realizados 86 actos terroristas, dos quais 33 assaltos e destruição de Centros de Trabalho do PCP, além de mais 20 repelidos» (…) Em Agosto, acompanhando divisões no MFA e a violenta ofensiva do PS, PPD, CDS e fascistas e reaccionários de toda a espécie contra o V Governo Provisório, são realizadas 153 acções terroristas, das quais 82 assaltos com destruição de 55 Centros de Trabalho do PCP e 25 do MDP-CDE, 39 fogos-postos, 15 bombas, dezenas de agressões.»(1)
Estas acções – cuidadosamente preparadas e organizadas, e financiadas pela CIA e pelos serviços secretos de outros países – constituíam a expressão armada da ofensiva que, no plano político, o PS, o PPD e o CDS desenvolviam contra o Governo de Vasco Gonçalves. – uma ofensiva que, na situação concreta então vivida, era, de facto, contra a democracia, a liberdade, a justiça social, a independência nacional.
Naturalmente, esta escalada terrorista foi considerada pelos dois principais mentores da contra-revolução de Abril (Mário Soares e Frank Carlucci) - ambos conhecedores das origens, da natureza e dos caminhos e atalhos trilhados pelos bandos de terroristas – como «reacções espontâneas das massas populares em fúria», nas palavras do primeiro, enquanto o ex-chefe da CIA garantia que «tudo foi espontâneo, ninguém esteve por detrás». Claro…

O terrorismo político é sempre um acto criminoso - por isso condenável e a exigir combate. Mesmo quando se apresenta disfarçado, fingindo-se de esquerda ou apresentando-se como resposta ao terrorismo de Estado (este, regra geral, muito mais mortífero: a ocupação do Iraque provocou centenas de milhares de mortos inocentes) - ele não consegue esconder a sua verdadeira face nem os interesses que serve. O 11 de Setembro, o 11 de Março e o 7 de Julho – para referir apenas os três casos com maior ressonância mediática - são pretextos para a intensificação dos projectos expansionistas e de domínio do mundo por parte do imperialismo; são crimes brutais que servem de justificação para a prossecução e intensificação dos crimes brutais praticados por Bush, por Blair e pelos seus pares no Iraque, no Afeganistão, na Palestina, em todo o lado onde o imperialismo pretende assentar a sua pata opressora; são actos criminosos que criam excepcionais condições objectivas e subjectivas para os ataques à democracia, nomeadamente para a aprovação das leis chamadas anti-terroristas e que outra coisa não são do que graves ataques às liberdades, direitos e garantias dos cidadãos.
O caldo de cultura donde emerge o terrorismo é a realidade da sociedade capitalista; o terrorismo é, sempre, um aliado fiel do capitalismo – logo, um inimigo da democracia, da paz, da justiça.


(1) Álvaro Cunhal, A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se)


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