A banca tem lucrado com a desgraça da lavoura
Agricultores reclamam estado de calamidade
A lavoura está sem gota
Cerca de dois mil agricultores das regiões da Beira Litoral, Entre-Douro e Minho exigiram com a CNA, no sábado, em Aveiro, a declaração de «estado de calamidade».
Uma coluna de cem tractores proveniente do Norte do distrito partiu de Ovar e foi até à porta da Agrovouga, em Aveiro. Os agricultores responderam à chamada da Confederação Nacional da Agricultura, CNA, e da Associação de Lavoura do Distrito de Aveiro, ALDA.
Rumaram depois até à estação da CP, em Aveiro, onde iniciaram um desfile até à porta da exposição agrícola para exigir que o executivo de Sócrates declare o estado de calamidade pública e candidate Portugal ao Fundo de Solidariedade da União Europeia.
Presente na Agrovouga, o secretário de Estado da Agricultura recebeu uma delegação de agricultores que lhe entregou as propostas e reclamações aprovadas.
Para ontem, estava marcada uma audiência do Ministério da Agricultura com representantes da CNA.

PCP exige outra PAC

O PCP esteve presente com uma delegação composta pela deputada do PCP no Parlamento Europeu, Ilda Figueiredo, e António Salavessa, do secretariado da Direcção da Organização Regional de Aveiro. A deputada manifestou a preocupação do PCP com os agricultores, numa situação já de si dramática por motivo das políticas adoptadas pela União Europeia, agora agravada pela seca e os incêndios.
Ilda Figueiredo deu ainda conta das iniciativas comunistas em defesa da agricultura e criticou o imobilismo do Governo na defesa da produção.
Na carta de reclamação da Direcção Nacional da CNA, aprovada na concentração, os agricultores consideram que as ajudas prestadas, até agora, «são muito insuficientes face aos prejuízos com a seca», incluindo as três linhas de crédito abertas pelo Governo.
Também a DORAV do PCP, criticou a Política Agrícola Comum por não ter tido em conta a especificidade da nossa produção e apoiar o seu abandono em vez de a incentivar.

Milhões devidos à CNA

A Associação da Lavoura do Distrito de Aveiro denunciou que o Estado deve à CNA e associadas, 1 milhão e 700 mil euros, só em formação profissional, dívida que pretende ver paga de imediato.
Pr seu lado, a CNA exige o escoamento dos produtos a melhores preços de produção; o controlo rigoroso das importações; o reforço das verbas do Orçamento de Estado para os programas Agro, Agris e Ruris; a redução das prestações mensais dos agricultores para a Segurança Social, mediante os rendimentos e sem perda de direitos; mais apoios para a floresta e para a prevenir incêndios, respeitando os pequenos produtores, os compartes dos baldios e as suas organizações; evitar a redução das verbas comunitárias para a agricultura, por outra e diferente política da PAC.
Na terça-feira, João Vieira, da CNA, reuniu-se com a comissária europeia para a política regional para discutir a seca e o Fundo de Solidariedade.

A Banca lucra com a desgraça

Os agricultores consideram que, «tal como noutras alturas, é a Banca quem vai lucrar com a desgraça da lavoura».
Segundo a CNA, duas das linhas de crédito oferecem uma bonificação de cem por cento nos juros, mas apenas durante o primeiro ano. Findo este prazo, não são revelados os juros a pagar nos anos seguintes.
O documento aprovado recorda que em anteriores linhas de crédito bonificado à lavoura, o resultado final foi os agricultores terem contraído mais 125 milhões de euros em dívidas. Isto, enquanto a Banca embolsou lucros de juros provenientes de dinheiros públicos, «provavelmente na ordem dos 7 milhões de euros, só no primeiro ano, a que se juntarão os juros remanescentes e por conta dos próprios agricultores», acusa a CNA, que denunciou o facto de a isenção, por seis meses, do pagamento das prestações mensais dos pequenos agricultores para a Segurança Social, não chegou a estes agricultores.


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