Sobre a decisão de extinção do Ballet Gulbenkian
O Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian comunicou no passado dia 5 de Julho a decisão de extinguir o Ballet Gulbenkian. Desta decisão decorre o despedimento colectivo de perto de 70 trabalhadores, 29 dos quais bailarinos, mas decorre, sobretudo, a extinção da única companhia permanente de dança contemporânea existente em Portugal, com um riquíssimo e prestigiado percurso artístico e cultural.
Tendo a Fundação as características e os estatutos que tem, naturalmente que pode o seu Conselho de Administração tomar as medidas de organização e reestruturação interna que bem entenda. Mas é inteiramente legítimo que sobre uma tal medida se manifeste publicamente profunda preocupação. Trata-se de uma decisão que vem empobrecer e fragilizar ainda mais um tecido cultural precário no seu conjunto.
A decisão é tomada num quadro de mudança da intervenção da Fundação nesta área: em vez de uma companhia própria, um papel de intermediação na profissionalização, na formação avançada, na descentralização e na internacionalização. São intenções às quais nada haveria a objectar, salvo uma questão fundamental. É que onde antes existia uma estrutura e um corpo permanentes e de reportório, passarão a existir programas de duração, objectivos e estratégias pontuais e efémeras. Poderá dizer-se que essas são características de alguns dos projectos mais interessantes e criativos da dança contemporânea no nosso país. Sucede que, na maior parte dos casos, essas características resultam, não de uma opção, mas de uma fragilidade estrutural, e da perversão do próprio sistema de apoio estatal. E, sobretudo, esse tipo de projectos não é incompatível com a existência de estruturas mais estáveis e permanentes. Pelo contrário: o que a própria experiência do Ballet Gulbenkian mostrou é que não só são compatíveis como se enriquecem, estimulam e apoiam mutuamente.
Esta não é uma mera questão do foro interno da Fundação Calouste Gulbenkian. É uma questão de repercussão e impacto nacional e até internacional, acerca da qual, aliás, é incompreensível o silêncio do Governo e do Ministério da Cultura. Durante muitos anos a Fundação tem exercido funções e acções, em diversas áreas, que preenchem parte do vazio de iniciativa e de apoio por parte do Estado, e esse mérito deve ser reconhecido. Tal como, neste caso, não pode deixar de ser considerada como muito negativa a opção tomada.
O PCP manifesta a todos os profissionais do Ballet Gulbenkian a sua inteira solidariedade, e o seu apreço pelo trabalho realizado ao longo dos 40 anos de vida desta instituição, de cuja alta qualidade artística e cultural e de cujo património não são, aliás, separáveis momentos emocionantes de resistência cultural.

Comissão Nacional do PCP para a Área da Cultura
12 de Julho de 2005



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