Editorial

«A luta dos trabalhadores é o principal polo de resistência à política de direita»

RECORRÊNCIAS

É assim há vinte e nove anos: cada governo, formado na base de uma maioria obtida a troco de promessas de bem-aventuranças (em actos eleitorais onde o vale-tudo é a regra e o respeito pelos eleitores é igual a zero), mal começa a governar mete na gaveta todas as promessas feitas e faz a mesma política que o governo anterior fazia e pela qual foi penalizado pelo eleitorado. Assim, depois de cada eleição, o que muda é o partido do governo: umas vezes é o PSD o feliz contemplado, outras vezes a sorte grande dos votos cabe ao PS – às vezes acasalam ou atrelam a si o prestimoso e sempre disponível CDS/PP. O que nunca muda é a política praticada: na verdade, nem com uma forte lupa é possível detectar diferenças essenciais entre os governos do PS e os do PSD. Defender os interesses do grande capital à custa da exploração e da violação de direitos da imensa maioria dos portugueses, tem sido, ao longo destas quase três décadas, a prioridade das prioridades em matéria de prática governativa. Cada governo não é mais do que uma comissão executiva dos grandes grupos económicos e financeiros, tendo como tarefa fundamental governar de forma a que os lucros desses grupos aumentem sempre e aumentem sempre mais. E todos eles, ao longo destes longos vinte e nove anos, têm cumprido exemplarmente a tarefa que lhes está cometida.
Daí o estado a que o País chegou. Daí o aumento das injustiças sociais; das violações de direitos humanos fundamentais; dos ataques a direitos laborais conquistados através da luta dos trabalhadores; dos ataques a componentes essenciais da democracia de Abril; da venda a retalho de pedaços da soberania nacional – porque direitos humanos, democracia, justiça social são categorias que se situam nos antípodas dos interesses do grande capital.


Perante isto, não há razões para surpresas com o facto de, 130 dias após a sua tomada de posse, o Governo do PS ter substituído um ministro, para o caso, e não por acaso nem constituindo originalidade, o das pasta das Finanças. Estamos perante mais uma recorrência. Foi assim com todos os governos anteriores, como sabe quem queira carregar no botão da memória e passar em revista, para não ir mais longe, a legião de ministros substituídos nos governos do inimitável Professor Cavaco Silva, agora apresentado como modelo e futuro salvador da pátria (para além de figura maior da cultura nacional já que, como o próprio fez questão de sublinhar, leu, uma vez, um livro, «A utopia de Thomas Mann» e foi à ópera cómica a semana passada...); ou as substituições de ministros ocorridas durante o consulado do pio engenheiro Guterres, neste caso com a inovação de essas substituições terem sido antecedidas de fogosos combates verbais públicos entre membros do Governo; ou as mudanças operadas no Governo de Durão Barroso que, imitou o anterior na bagunçada inter-ministerial na praça pública e imitou os dois anteriores na arte da fuga. Ou seja, as demissões e imediatas substituições de ministros, nomeadamente dos das Finanças, são o pão deles de cada dia e estão intrinsecamente ligadas ao conteúdo, à essência da política de direita que todos praticam.
Não vale a pena, também, perder tempo em reflexões sobre se o colega que, agora, substituiu o colega, vai ou não fazer uma política diferente, vai ou não cumprir as promessas eleitorais de não aumentar os impostos, etc, etc. Como se viu em todas as situações anteriores, todos os que saíram e todos os que entraram eram e são membros da mesma família, todos faziam e continuam a fazer parte da dinastia que, sucedendo-se alternadamente no governo, leva à prática a política de direita. A bem da Nação? Não: a bem do Grande Capital.

Também recorrente, pela força das circunstâncias – recorrência essencial, sublinhe-se - é a resposta das massas trabalhadoras à política de direita praticada pelos sucessivos governos. Sem essa resposta, feita de uma luta permanente, difícil, desgastante, heróica – na qual o Movimento Sindical Unitário tem tido um papel determinante – a situação dos trabalhadores, do povo e do País seria hoje bem pior do que é e o regime democrático de Abril teria sido totalmente transformado numa coisa com muito mais semelhanças do que diferenças com o regime que a revolução de Abril derrubou. Daí a ofensiva que os escribas ao serviço do grande capital vêm desenvolvendo contra os trabalhadores e as suas estruturas representativas. De facto, é na luta dos trabalhadores, essencialmente nela, que reside o principal polo de resistência á política de direita e a força propulsora da procura de uma alternativa – uma alternativa de esquerda que inicie a resolução dos problemas que afligem a imensa maioria dos portugueses, que devolva os valores e a modernidade de Abril aos trabalhadores, aos reformados e pensionistas, aos jovens, às mulheres, aos micro, pequenos e médios empresários, a todos os que, porque têm interesses opostos aos interesses do grande capital, constituem os alvos preferenciais da política de direita.
As lutas travadas no decorrer dos primeiros quatro meses do Governo PS/Sócrates – que certamente têm muito a ver com a demissão do ministro das Finanças e hão-de ter a ver com outras futuras demissões – indiciam uma forte determinação por parte dos trabalhadores. São a tradução em actos da palavra de ordem «A luta continua» - a mais carregada de conteúdo e consciência política e social de todas as palavras de ordem na situação actual.


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