Vínculos precários estiveram na origem do conflito
Greve na British Airways
Revolta contra a precariedade
Mais de 700 voos anulados, dezenas de milhares de passageiros bloqueados, quase 50 milhões de euros em prejuízos, eis o balanço da greve surpresa que abalou a imagem da British Airways.
O aeroporto londrino de Heathrow, a primeira plataforma aérea europeia e a terceira a nível mundial, ficou completamente paralisado entre a tarde de quinta-feira, 11, e o final do dia seguinte.
A greve surpresa iniciada pelos trabalhadores da Gate Gourmet (empresa responsável pelas refeições a bordo), estendeu-se, ainda com maior surpresa, ao restante pessoal de terra. A British Airways não teve outra alternativa se não cancelar todos os voos, provocando o caos nas generalidade das rotas da companhia.
«Cerca de 100 aviões e mil pilotos, hospedeiras e comissários de bordo estão em sítios errados em todo o mundo e não podemos restabelecer as operações mais cedo», explicou, no final de sexta-feira, Sir Rod Eddington, director-geral da transportadora britânica, apresentando desculpas aos clientes.
Os efeitos da paralisação continuaram a fazer-se sentir durante o fim-de-semana. Só na segunda-feira foi possível retomar a quase totalidade dos voos.
No aeroporto Heathrow, por onde passam anualmente 67 milhões de passageiros, o caos não era menor. Quando a greve rebentou, 19 aviões ficaram paralisados na pista com os passageiros lá dentro porque não havia pessoal para instalar as passadeiras de desembarque. Duas mil pessoas passaram a noite no aeroporto e quatro mil foram
alojadas em hotéis. Ao todo estima-se que 70 mil passageiros tenham sido afectadas pelo cancelamento das partidas e chegadas durante mais de 24 horas.

Luta e solidariedade

Após a privatização da British Airways, em 1997, a Gate Gourmet, empresa que pertencia ao grupo estatal, foi vendida à sociedade norte-americana de capital de risco TexasPacific. No entanto, os seus trabalhadores continuaram a assegurar as refeições da companhia britânica, agora em regime de subcontratação.
Alegando graves dificuldades financeiras, a administração não tardou a anunciar um plano de reestruturação que implicava a contratação de mão-de-obra barata em regime temporários. Temendo pelos seus direitos e empregos, os 800 trabalhadores da Gate Gourmet reagiram, paralisando o trabalho na quarta-feira, dia 10. Passadas algumas horas foram informados de que estavam todos despedidos.
A reputação do implacável patrão da Texas Pacific, David Bonderman, é bem conhecida no mundo laboral. Na Ryanair, transportadora aérea irlandesa de baixos preços, de que é igualmente presidente, os sindicatos foram simplesmente proibidos.
Segundo revelou, na segunda-feira, dia 15, o jornal britânico Daily Mirror, a Gate Gourmet tinha elaborado, em 2004, um plano que previa o despedimento dos seus efectivos numa situação de greve. Um porta-voz da empresa confirmou, no domingo à noite, a existência de tal plano, mas negou que tenha sido adoptado.
No entanto, quaisquer que fossem os seus planos, a resposta dos trabalhadores da British Airways foi tão contundente quanto inesperada. Sem pré-aviso, iniciaram uma greve de solidariedade com os seus antigos colegas, ignorando a legislação sindical herdada do tempo de Thatcher que impõe a aprovação por sufrágio desta forma de luta.
O sindicato maioritário TGWU (Transport & General Workers Union) apoiou a greve e do outro lado do Atlântico, vários sindicatos americanos, designadamente o Teamsters, manifestaram a sua solidariedade.
Depois de ter revogado o despedimento em massa, a administração da Gate Gourmet foi obrigada a dialogar com os trabalhadores. Na passada segunda-feira, as negociações com o TGWU ainda decorriam.


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