A lição de Nova Orleães

Autor: John Catalinotto



A 5 de Setembro, o horror ininterrupto e o sofrimento de cerca de 100 000 habitantes de Nova Orleães, na sua maioria afro-americanos e pobres, conheceu uma pausa. O trabalho continua a ser o de contar e identificar os mortos que se calcula ascendam a 10 000 e os cerca de 1.5 milhões de desalojados da Costa Oeste, resultantes da combinação de um desastre natural e da negligência criminosa do governo.
O poder destruidor do Katrina foi potenciado por décadas de erosão do delta do Mississippi, pela exploração do petróleo, por anos de criminoso desprezo pelos diques que podiam suster as inundações, e agravado pelos custos da guerra no Iraque. Os ventos de 200 km/hora do furacão Katrina atingiram Biloxi, Mississippi e rebentaram janelas e destruíram telhados em toda Nova Orleães. Um dia depois, o pior parecia ter passado. Então, o lago Pontchartrain de Nova Orleães partiu o dique e alagou 80 por cento da cidade. Cerca de 100 000 pessoas foram apanhadas pelas vagas com 2 a 7 metros de altura.


A mentira da administração Bush

O presidente George Bush e outros responsáveis governamentais alegam não ter sido avisados da possibilidade de uma tal calamidade. É mentira. Nova Orleães está na sua maioria situada abaixo do nível do mar, aninhada entre o rio Mississippi e o lago Pontchartrain. A ameaça era conhecida há décadas.
A 1 de Dezembro de 2001, o Houston Chronicle escrevia: «Nova Orleães está a afundar-se. E o seu amortecedor para um furacão, o protector delta do rio Mississippi, está completamente desgastado, deixando a cidade histórica perigosamente próxima do desastre... Tão vulnerável, de facto, que no início deste ano a Agência Federal de Gestão de Emergência (Federal Emergency Management Agency - FEMA) colocou o potencial perigo para Nova Orleães entre os três mais prováveis, mais catastróficos desastres que o país enfrenta.»
Sabendo que o poder do furacão era inevitável, a administração Bush cortou mesmo assim o orçamento do Corpo de Engenharia do Exército dos EUA para o reforço dos diques de Nova Orleães. Um projecto de restauração costeiro estava estimado em 14 mil milhões de dólares, mas a administração Bush pressionou o estado para baixar o custo para 1.2 mil milhões. Bush queria o dinheiro para a guerra no Iraque.


População deixada ao abandono

Quando o Katrina estava a chegar, o governo local da cidade emitiu uma ordem de evacuação. Deixou a cargo de cada família ou pessoa a responsabilidade de sair da cidade, arranjar um local para onde ir, de tomar conta de si própria. Não foi organizada uma evacuação com transportes públicos, nem abrigos temporários. O presidente da Câmara disse às pessoas que deviam ir para o Super Dome, um estádio desportivo.
Nova Orleães tem cerca de 70 por cento de afro-americanos. Cerca de um quarto da população total e um terço da população negra vive abaixo do limiar da pobreza. A maioria destes trabalhadores pobres e dos desempregados não tem automóvel para poder sair da cidade, não tem um lugar para onde ir, e não tem dinheiro para hotéis. O resultado foi que cerca de 100 000 pessoas, talvez 90 por cento dos afro-americanos, ficaram sem comida, sem água potável, sem condições sanitárias durante um verão tropical, rodeadas de detritos e porcaria.
Desde o começo do furacão no domingo, 28 de Agosto, até sexta-feira, 2 de Setembro, a FEMA não levou praticamente nenhuma comida, água ou meios de transporte de massas para Nova Orleães. A FEMA impediu a Cruz Vermelha de ir para o local. As pessoas foram deixadas encurraladas em hospitais sem electricidade. Muitas morreram.


Ordem para matar

Sem outra possibilidade de arranjar comida e água, alguns habitantes entraram em armazéns para arranjar víveres, bem como fraldas e produtos de higiene para bebés. Em alguns casos partilharam esses produtos com os vizinhos. O governador de Louisiana chama a isto «saque» e quer que a polícia «dispare a matar».
Os média manifestaram o seu racismo quando mostraram um jovem afro-americano com um saco de mercearias e o catalogaram de «saqueador», e depois mostraram alguns brancos com mercearias e escreveram que eles tinha «encontrado» comida.
Bush esteve a gozar as suas longas férias de cinco semanas até 31 de Agosto. Só então sobrevoou as áreas devastadas no Air Force One. A 2 de Setembro, visitou finalmente Biloxi, Mississippi. Quando falou do «saque», disse que deve haver «tolerância zero», que é o mesmo que dizer «dispare a matar». E enviou para a região 40 000 agentes da Guarda Nacional e do Exército.
Há décadas que a população dos EUA não recebia uma lição tão clara da importância da classe e da raça. Esta experiência, combinada com a guerra no Iraque, é uma afronta à comunidade afro-americana e deixa a maioria contra Bush.


Resumo da Semana