«500 pessoas foram encontradas sem água nem comida»
Crise em Ceuta e Melilla
Abandonados no deserto
Prolonga-se a crise desencadeada à cerca de duas semanas nos enclaves que o Estado espanhol mantém no Norte de Marrocos. Os relatos revelam uma situação insustentável tanto ao nível político como humanitário.
Perante a dramática situação que milhares de imigrantes enfrentam, o governo marroquino respondeu, domingo, com o anuncio de construção de um muro e um fosso com três metros junto à fronteira da cidade de Melilla. Para já, a solução repressiva ganhou terreno sobre a discussão e resolução das causas profundas que levam milhares de pessoas a abandonarem os respectivos países – sobretudo os da África subsaariana – em busca do «sonho europeu». A saga de milhares de quilómetros vai, no entanto, começar a ser barrada antes da chegada dos imigrantes às cidades espanholas. Outra das medidas colocadas em marcha pelas autoridades de Marrocos é a instalação de postos e barreiras ao longo de cerca de 200 quilómetros de estradas e nas zonas fronteiriças tradicionalmente mais frequentadas pelos imigrantes, decisão para a qual foram mobilizados já centenas de efectivos das forças armadas do reino.

Sem transporte, água ou mantimentos

Entretanto, Angel Moratinos, ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha, encontrou-se com o seu homólogo marroquino, Mohamed Benaissa, para discutir soluções para um problema que embaraça os dois estados e impõe na agenda a discussão das políticas migratórias comuns.
Paralelamente ao encontro, a agência EFE, denunciou que as autoridades de Rabat abandonaram cerca de duas centenas de emigrantes no deserto marroquino, junto à fronteira com a vizinha Argélia e a mais de 600 quilómetros da cidade de onde foram expulsos, Melilla. A estes juntaram-se outros 300 imigrantes que abandonaram a cidade marroquina de Bouanane em busca de água e géneros alimentares.
Não foi ainda possível apurar com rigor o número de pessoas que não resistiram às duras condições de nova caminhada num terreno praticamente desértico, mas a Médicos Sem Fronteiras (MSF) confirmou o sucedido informando, em comunicado, que as 500 pessoas foram encontradas «sem água nem comida».
Entre os imigrantes expulsos estavam pelo menos meia centena que careciam de tratamento urgente e internamento hospitalar, isto para além de um número não determinado de crianças e mulheres, algumas das quais grávidas.
Perante os factos, grupos e organizações ligadas à defesa dos imigrantes repudiaram a retoma da política de repatriações por parte de Madrid, que acusam de, no mínimo, não aplicar as normas garantindo o tratamento humanitário das pessoas expulsas.


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