Editorial

«A batalha das presidenciais exige a intervenção intensa de todo o colectivo partidário»

DEPOIS DA VITÓRIA, CONTINUAR A LUTA

Menos de uma semana após as eleições autárquicas, chegaram os primeiros aumentos: transportes (pela segunda vez, este ano); gás natural (também pela segunda vez) e electricidade. Trata-se de aumentos que aguardavam a realização das eleições, isto é, aumentos que estavam já decididos mas que, para não desviar, do partido do Governo, o voto de eleitores descontentes, foram adiados para depois das autárquicas – isto, apesar das garantias dadas pelo primeiro-ministro e por todos os seus pares da política de direita de que o voto de 9 de Outubro e a pesada derrota eleitoral do PS não tiveram nada, rigorosamente nada, a ver com as consequências da política praticada pelo Governo... Aliás, é digno de registo o entendimento verificado, nesta matéria, entre os partidos da política de direita. Percebe-se que assim seja: o PS e o PSD (sozinhos, de braço dado ou com o CDS/PP atrelado) estão no Governo há quase trinta anos, numa alternância que têm logrado fazer passar por alternativa junto da maioria do eleitorado, e não lhes convém deixar instalar-se nesse eleitorado o mau hábito de os castigar nas autárquicas pelo que fazem no Governo. Além de que, como se sabe, o interesse maior comum aos dois é o de manter a ilusão de que são diferentes - sendo iguais; manter a ilusão de que são frontais opositores um do outro - sendo aliados no essencial; manter a ilusão de que defendem interesses opostos - defendendo ambos, sempre, quer na oposição quer no Governo, os interesses do grande capital; manter a ilusão de que defendem políticas distintas, qual delas mais favorável aos interesses dos portugueses – praticando ambos a mesma política de classe com consequências gravosas para os trabalhadores, o povo e o País e com consequências paradisíacas para os grandes grupos económicos.

Dois dias depois dos aumentos acima referidos, chegou o Orçamento do Estado. Sabia-se que seria mau e temia-se que fosse péssimo. Não porque qualquer fonte anónima nos tivesse feito chegar informações sobre o OE que estava a ser congeminado pelo elenco governamental, mas pela óbvia razão de que, sendo o Governo PS/José Sócrates o representante actual do poder económico do grande capital nacional e estrangeiro, outra coisa não seria de esperar que não fosse um OE pautado pelo desprezo por interesses e direitos da imensa maioria dos portugueses. Ora, pelos primeiros indícios, mais provável é que o dito OE venha a revelar-se não apenas mau, mas mais do que mau, não apenas péssimo, mas mais do que péssimo.
«Consolidar agora um futuro melhor» é, segundo o ministro das Finanças o lema do monstro agora dado à luz pelo Governo. Isto porque, prossegue o ministro, com ele se «espera gerar uma nova esperança nos agentes económicos». Não se pode ser mais claro: o que o ministro nos está a dizer é que a lógica deste OE é a da acentuação brutal das injustiças sociais traduzida, por um lado, no agravamento das condições de vida de quem trabalha, por outro lado, na continuação do aumento dos lucros dos grandes grupos económicos e financeiros. Dito de outra forma: «futuro melhor» para os que gozam de um presente óptimo; futuro pior para os que sofrem um presente doloroso – que são os que, ao longo de quase trinta anos, têm vindo a apertar o cinto e a ver os seus direitos e interesses espezinhados pelos sucessivos governos PS e PSD.
Entre outras malfeitorias, este OE é portador de brutais ataques aos trabalhadores (aos da função pública e aos do sector privado); de piores salários; de maior agravamento das condições de vida; de mais desemprego; de mais impostos para a maioria dos portugueses (nomeadamente através do aumento daquele que mais directamente os afecta, o IRS); de mais privatizações (portanto, mais negociatas chorudas para alguém); de pior saúde; de pior ensino; de pior segurança social; de pior tudo para todos os que trabalham e vivem do seu trabalho.

Em resumo, trata-se do Orçamento do Estado para a continuação agravada da política de direita, à qual o PCP tem sido o único grande partido a fazer frente com coerência e determinação. E assim continuará a ser no futuro imediato. A vitória eleitoral de 9 de Outubro – para além de fazer chegar a muito mais cidadãos as vantagens do nosso projecto autárquico – tem, ainda, o mérito de, reforçando a nossa influência eleitoral, nos dar mais força para a luta – que continuaria sempre, mas que este resultado torna mais forte. Luta em todas as frentes: luta dos trabalhadores de todas as áreas de actividade, nos sectores público e privado; luta dos pequenos e médios empresários; luta da juventude; luta das mulheres, luta que, na situação actual, passa, entre outras coisas, pela exigência da despenalização da IVG no Parlamento, desmascarada que está a manobra do referendo congeminada pelo PS e pelo BE – aos quais não resta outra saída que não seja, ao primeiro, fazer aprovar a lei no Parlamento, a ambos, pedirem desculpa, publicamente, às mulheres portuguesas; luta pelo reforço do Partido - e luta eleitoral, agora em torno das presidenciais e a exigir a intervenção intensa de todo o colectivo partidário e de muitos outros cidadãos que, independentemente das suas opções políticas e partidárias, reconhecem a singularidade da candidatura de Jerónimo de Sousa; a sua estreita ligação à defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País; a sua relevância na afirmação dos valores da democracia e da justiça social – e, por tudo isso, a necessidade de ela vir a obter uma expressiva votação.


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