O aumento da idade de reforma só interessa ao grande capital
Trabalhadores chumbam estatuto de aposentação
A indignação saiu à rua
Mais de 40 mil trabalhadores da Administração Pública superaram as expectativas sindicais na greve e na manifestação de dia 20.
«Calculamos terem estado na manifestação mais de 40 mil trabalhadores e o próximo passo da luta será no dia 10 de Novembro, na jornada convocada pela CGTP-IN, quando sairmos de novo à rua, em Lisboa e no Porto», afirmou o membro do Secretariado da Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública, Paulo Trindade, na sua intervenção, frente à Assembleia da República.
Ainda centenas de trabalhadores aguardavam a sua vez para iniciar a marcha na Rotunda do Marquês e já a frente da manifestação chegava a São Bento.
Na passagem pelo Largo do Rato, a sede do PS foi o motivo das maiores vaias da tarde, debaixo de um coro que gritou, «Mentirosos!».
A acção superou em muito as expectativas da Frente Comum com a forte presença de professores, trabalhadores não-docentes, enfermeiros, trabalhadores da administração local, regional e central e funcionários públicos.

A luta é de todos

Á frente da manifestação, os trabalhadores fizeram saber que «Direitos conquistados não podem ser roubados», e que «Esta luta é de todos», num apelo à unidade entre trabalhadores dos sectores público e privado.
Esteve também centena e meia de sindicalistas do sector empresarial do Estado e de empresas privadas a demonstrar a disponibilidade para unir esforços em próximas lutas.
Vindas do Arsenal do Alfeite, bandeiras negras revelaram bem o estado de espírito dos operários da manutenção naval da Armada. Outros trabalhadores dos Estabelecimentos Fabris das Forças Armadas também marcaram presença com as tradicionais bandeiras verdes do STEFFA/CGTP-IN.
Pelas ruas, ouviu-se gritar bem alto, «Com Sócrates nada melhora, tudo piora». Os trabalhadores dos CTT e da PT demonstraram-no numa faixa, seguidos pelos da Função Pública do Sul e Açores que salientaram ser «Gente que sabe o que quer».
A juventude da Interjovem/CGTP-IN, recordou as mentiras de Sócrates e denunciou os chorudos salários do administrador da TAP e do governador do Banco de Portugal.

Trabalhar na terceira idade

Em causa está a alteração do estatuto de aposentação para «obrigar os trabalhadores a estar ao serviço até aos 65 anos, com mais do que os 40 anos de descontos», recordou.
Sobre os tão falados sacrifícios, Paulo Trindade perguntou se é conhecido algum caso em que os trabalhadores tenham saído beneficiados após se terem sacrificado e salientou que quem sai sempre a ganhar é o grande capital.
Lembrou ainda as chorudas compensações salariais e de reforma dos administradores da CGD e do Banco de Portugal: «É aí que estão as mordomias», denunciou.
Na sua intervenção, o presidente do STAL/CGTP-IN, Francisco Brás, defendeu também a necessidade da regionalização e da água como bem público, rejeitando a sua privatização.

Basta de mentiras!

«É tempo de dizermos para acabarem com a mentira, porque não se pode continuar a sacrificar os trabalhadores», disse Carvalho da Silva na sua intervenção, ao lembrar que as reformas necessárias são as da qualificação, organização e gestão, com a valorização dos trabalhadores.
O secretário-geral da CGTP-IN rejeitou a política que ameaça postos de trabalho, a progressão de carreiras, o estatuto de aposentação e a intenção de fazer de 2006 o oitavo ano consecutivo sem aumentos reais de salário. Acusou o Governo de pretender entregar ao poder económico e financeiro «tudo o que é mais rentável», facilitando as privatizações e diminuindo a capacidade reivindicativa dos trabalhadores. «É isto que é preciso impedir», afirmou.
Também denunciou os milhares de «amigos e afilhados dos governantes, colocados em estruturas públicas criadas de forma duplicada e a desgastar a Administração Pública, enquanto “excedentários” são os que recebem baixos salários».

Não às privatizações

Os trabalhadores da Função Pública do Distrito de Setúbal protestaram «Contra o roubo de direitos, as medidas e calúnias lançadas sobre os trabalhadores e a tentativa para os dividir», e rejeitaram a privatização de mais serviços públicos.
A ironia e o humor negro dedicados ao Governo PS e a Sócrates estiveram transversalmente presentes na acção, em forma de painéis com montagens fotográficas.
Num deles, um homem de idade avançada teclava num computador com a legenda, «A consequência da lei de aposentação». Noutro, num avião, Sócrates à janela, dizia, «Aqui vou eu para os “futebóis”».
A Função Pública do Norte fez ouvir as palavras de ordem «Democracia sim, ditadura não» e «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!». Também exibiram Sócrates num painel, onde este afirmava: «Socialista, eu? Lagarto, lagarto!».
Os funcionários públicos do Centro ilustraram «o caminho dos salários da Função Pública» com o desenho de uma tartaruga.

Professores e enfermeiros revoltados

Cerca de cinco mil docentes de todo o País, segundo o SPRC/CGTP-IN exigiram «Respeito, negociação e trabalho com direitos».
Os docentes da Região Norte assinalaram as presenças de Amarante, São João da Madeira, Bragança, Miranda do Douro, Monção, Famalicão, Penafiel, Guimarães, Santa Maria da Feira, Braga, Viana do Castelo, Varzim, Chaves e Vila Real.
Transportaram um painel com os retratos da ministra da Educação e de Sócrates com a legenda, «Não se deixe enganar! Medidas para a Educação são uma fraude». Gritaram que «A política de direita deixa a educação desfeita» e que «Um Governo sem razão dá cabo da Educação». Os professores do Sul trouxeram Sócrates num painel, a carregar no dispositivo com o qual simulou a ignição para implodir as torres da Torralta, onde se lia «Os direitos dos trabalhadores».
Os educadores da Grande Lisboa pugnaram por estabilidade, valorização e dignificação e exigiram a contagem de todo o tempo de serviço.
Também milhares de enfermeiros lembraram, numa faixa, que «Assim não podemos cuidar de si» e desfilaram contra a precariedade e a aposentação tardia.

Administração Local em força

Vindos do Porto, os trabalhadores das autarquias e das companhias Águas SA de Gondomar, e dos SMAS de Matosinhos também se manifestaram contra as privatizações.
Os trabalhadores das Câmaras e das Juntas exigiram «Mais respeito por quem trabalha», como se lia na faixa proveniente de Alverca.
Vindos de Lisboa, Coruche, Loures, Beja e de Braga – que salientou numa faixa, «O roubo dos direitos será julgado um dia. Tenham vergonha e reponham a legalidade!» -, os trabalhadores deram largas ao protesto. Os do Seixal disseram que «Está na hora de o Governo ir embora», num coro que pegou junto dos provenientes de Santiago do Cacém, Viana do Castelo e Setúbal. Os de Évora disseram estar «Fartos de mentiras». De Alenquer vieram os trabalhadores exigir a «Recuperação do poder de compra». Os funcionários da Moita, Santarém e de Almada pugnaram por «Melhores condições de trabalho e de vida». Os do Barreiro lembraram o que está em causa, com a faixa «Pela dignidade».

O Partido dos trabalhadores

Na curva da Rua Braancamp, efusivamente aplaudido e cumprimentado, Jerónimo de Sousa prestou a solidariedade oficial do PCP aos trabalhadores em luta. O secretário-geral integrou-se depois no desfile. Á chegada ao parlamento, também os deputados comunistas Odete Santos e Jorge Machado manifestaram o apoio do Grupo parlamentar aos trabalhadores.

Grande adesão à greve

O Sindicato dos Trabalhadores da Função Pública do Sul e Açores anunciou uma «muito elevada adesão no sector da Saúde, com paralisações totais nas urgências dos Hospitais de Santa Maria, São Francisco Xavier, e Curry Cabral, em Lisboa. No Hospital de Faro, a adesão global foi de 80 por cento e na Cova da Beira, de 50 por cento. Salienta-se ainda os 97 por cento de adesão nas urgências do Hospital S. José, 80 por cento nos internamentos do Miguel Bombarda, e 66 por cento na urgência de Castelo Branco.
A forte adesão à greve, também nos arquipélagos da Madeira e Açores levou ao encerramento de estabelecimentos de ensino, à redução de serviços em hospitais e centros de saúde, e ao condicionar de serviços informativos, até na Segurança Social.


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