Editorial

Cumprir a tarefa prioritária não é incompatível com o prosseguimento de outras tarefas centrais

A tarefa prioritária

Para os comunistas, uma tarefa nunca vem só. Sem «inventar» nenhuma delas, o Partido decide-se por várias, com a preocupação central de responder às questões concretas que a realidade impõe e a luta de classes exige. Elegendo por vezes uma delas como prioritária, o PCP não esquece nenhuma outra, o que muitas vezes obriga as organizações e os militantes a desdobrarem-se em iniciativas e a dedicar atenção e trabalho a numerosas frentes e acções. E, sendo natural que o essencial dos esforços aponte em determinada direcção, não ficam isentos, organismos e camaradas, de desempenhar todas as outras tarefas, de debater e decidir, de promover e de levar a cabo todos os afazeres que cumprem a um Partido como o nosso. Reunir, debater, decidir e, depois levar às massas, aos trabalhadores e às populações, as nossas propostas de luta, convencer e persuadir, unir e levar avante as batalhas necessárias para defender direitos conquistados e alcançar novos, sempre no rumo justo e escolhido como certo na situação concreta – hoje lutando pela defesa das conquistas e por uma ruptura democrática e de esquerda que interrompa a política de direita que já leva trinta anos de prática, amanhã avançando decididamente para o socialismo, rumo ao comunismo, que é como quem diz à libertação do homem de todas as formas de exploração e de opressão – tal a missão do PCP, de todos e de cada um dos militantes que fazem deste Partido a mais vigorosa e influente força política portuguesa ao serviço dos trabalhadores e do povo.
Não sendo um partido eleitoralista nem concebendo que a política começa e acaba em actos eleitorais ou que a arena da luta política se concentra e reduz aos fóruns do poder, o PCP, como partido marxista-leninista que é, também considera que as batalhas eleitorais são momentos altos e eminentemente importantes da mobilização popular e influem decisivamente no rumo do País. Assim sendo, natural é também que essas batalhas sejam assumidas como prioritárias e mobilizem o essencial das forças das organizações e dos militantes.

Referindo-se à batalha das presidenciais, o candidato comunista e secretário-geral do Partido, Jerónimo de Sousa, afirmou, no comício de Lisboa, no discurso que o nosso jornal publicou na íntegra, ter chegado o momento «de nos lançarmos com determinação no desenvolvimento da campanha eleitoral da nossa candidatura», definindo esta como «uma tarefa de todo o Partido».
O «envolvimento de todo o colectivo» neste combate torna-o assim numa tarefa prioritária, porque «estamos determinados a chegar tão longe quanto seja possível e o nosso povo queira, nos apoios e nos votos que, quantos mais forem, mais força dão à exigência de mudança e ao movimento de ruptura com as políticas de direita».
O desenvolvimento deste processo, a mais de dois meses do seu termo, já indica como esta é uma decisiva batalha e como a candidatura comunista é necessária para fazer pender para o lado da democracia os resultados das eleições de Janeiro próximo.
Se a candidatura de Jerónimo de Sousa é clara nos seus propósitos, criticando «o caminho que se vem trilhando de desfiguração e empobrecimento da nossa democracia»; afirmando claramente que «a origem da crise, incluindo a da representação política e dos males que o País padece não é o resultado da existência de um inadequado sistema político, carente de reforma, mas do facto de ser enorme a distância entre as promessas e as práticas e do conteúdo das políticas de quem governa»; assumindo a «independência e soberania nacionais como um valor indeclinável»; afirmando a «necessidade de um novo rumo para o País no respeito pelo legado da Revolução de Abril», é verdade também que se clarificam as outras candidaturas, não apenas pelo que afirmam mas pelo que se revela nos apoios que solicitam ou consentem.

Neste plano, distingue-se, como era de esperar, a candidatura de Cavaco Silva. Sobretudo pela concertação e concentração de apoios, os menores dos quais serão os dos partidos de direita, cujo interesse prévio era óbvio, concorrendo para mitigar os efeitos das suas derrotas eleitorais nas legislativas e nas autárquicas. O que surpreenderá os mais distraídos é a adiantada preparação de uma candidatura que surge aparentemente de uma decisão cozinhada em família, sem estrutura nem aparelho. Após o longo silêncio, logo na declaração surge Cavaco com comissão, sede, logotipo e o descarado apoio de quase toda a comunicação social, já com o trabalho de casa feito e o rumo definido, denegrindo todos os outros concorrentes, relegando-os, pelo menos, para cantinhos inferiores e secundários nos alinhamentos da paginação e das imagens, exaltando Cavaco e a sua «competência», divulgando apoios como o de Belmiro de Azevedo, o grande patrão que acha Sócrates um «excelente Primeiro Ministro» e Cavaco Silva um «excelente Presidente da República».

C
umprir a tarefa prioritária – conseguir uma grande expressão em apoios e votos à candidatura de Jerónimo de Sousa e derrotar Cavaco Silva, a figura central com que conta a direita para aprofundar e agravar a sua política –, não é incompatível com o prosseguimento de outras tarefas centrais, nomeadamente com a do reforço partidário, que o XVII Congresso elegeu como indispensável. Antes devemos todos encará-la como integrante de todas as iniciativas que o Partido leva a cabo. Como se afirmou após o êxito das autárquicas, todas as acções de massas que o Partido conduziu devem servir também para engrandecer e fortalecer o colectivo. Com novas adesões, com a integração de novos camaradas já provados nas batalhas, com o prosseguimento das acções em curso. Intervir, mas, ao mesmo tempo, fortalecer o Partido não é uma contradição, mas faz parte da mesma tarefa prioritária que é levar por diante, concretizando-a, a tarefa central dos comunistas – transformar este mundo de injustiça num mundo melhor.


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