Editorial

«Cavaco Silva é o maior devedor de promessas das últimas duas décadas»

O DEVEDOR DE PROMESSAS

Cavaco Silva deu a sua primeira entrevista na condição de candidato à Presidência da República e, como diz o ditado, à primeira cavadela, minhoca. Tudo sem surpresas, aliás. Como era previsível, a imagem do candidato da direita começou a desnudar-se e a exibir fragilidades várias, incoerências, contradições, faltas de rigor, má memória, ignorância, autismo, enfim tudo aquilo que já se lhe conhecia quer pela prática de dez anos de Governo, quer pelo seu discurso eleitoral nas presidenciais de 1996, quer, ainda, pelas declarações avulsas que, entretanto foi produzindo. Percebe-se a aversão do candidato da direita a entrevistas e, mais ainda, a debates. Percebe-se por que é que, ao longo dos seus vinte anos de vida política conhecida, optou pelo monólogo como forma preferida de diálogo.
Diz de si próprio que é «um homem de palavra» e acrescenta a esse dizer uma máxima que, segundo informa, «vem nos livros», pelo que, deduz-se, toda a gente que lê a deve saber: «Todo o político que não cumprir uma promessa é afectado na sua credibilidade.» E assim confirma ler pouco: na verdade, e embora ele fuja de concluir o óbvio, está explicada a razão da sua derrota eleitoral nas presidenciais a que se candidatou: o povo português não esqueceu as muitas promessas não cumpridas do primeiro-ministro Cavaco Silva. Ele é um dos maiores devedores de promessas das últimas duas décadas.
Os dez anos de governação cavaquista foram tão férteis em promessas não cumpridas como em agravamento da situação dos trabalhadores, do povo e do País – isto para além das práticas autoritárias e repressivas com que procurava calar os protestos e sufocar as lutas dos trabalhadores, dos estudantes, das populações.

Foram, igualmente, dez anos de divulgação da enorme mentira que era a imagem de um Portugal que só existia na mente de Cavaco Silva e dos seus ecos: um País paradisíaco, um «oásis» verdejante no meio do inóspito deserto planetário, um governante que fazia inveja a todos os governantes da Europa, os quais não se cansavam de elogiar as excelsas qualidades do génio – muito ao velho estilo do velho ditador Salazar, aliás. No final do seu reinado, quando batia em retirada e deixava a batata quente nas mãos de Fernando Nogueira, à beira de eleições que sabia estarem perdidas e com o País destroçado, ainda Cavaco Silva fazia promessas e proclamava os seus feitos governativos, garantindo que Portugal integrava o grupo dos países que constituíam o pelotão da frente e outras patacoadas semelhantes. E dava exemplos: o desemprego, que ele assegurava não apenas estar controlado mas em vésperas de drástica redução graças a um conjunto de medidas que anunciava – medidas que, recorde-se, eram exactamente as mesmas que anunciara quatro anos antes, também em tempo de campanha eleitoral, prometendo «criar 100 mil postos de trabalho». O político Cavaco Silva cumpriu a promessa? Nem pouco mais ou menos, antes pelo contrário: quatro anos depois da promessa, o número de desempregados aumentara «em mais de 100 mil», Portugal era «o país com maior índice de desemprego na Comunidade Europeia»; «um terço das famílias portuguesas tem apenas um membro empregado»; «dos mais de 400 mil desempregados, mais de 180 mil estão nesta situação há mais de um ano», e por aí fora. Mesmo assim, o político Cavaco Silva, incorrigível, repetiu a promessa…
Também nas outras matérias, o «oásis» cavaquista não deixava margem para dúvidas: o Portugal de Cavaco tinha as mais elevadas taxas de analfabetismo da Europa, a mais elevada taxa de mortalidade infantil, o mais baixo salário mínimo nacional – enquanto, recorde-se, aumentava o volume dos salários em atraso, aumentava o encerramento de empresas, aumentava o trabalho infantil... Isto ao fim de dez anos de política de direita executada pela governação cavaquista.

Na entrevista à TVI, foi notória a fuga assustada de Cavaco Silva em relação a algumas das perguntas. Quando o tema não lhe assentava a jeito, isto é, quando era suscitado a ter opinião, não se pronunciava invocando nobilíssimas razões. Assim, não se pronunciou sobre o Governo porque, disse, nove meses é pouco tempo para julgar um governo – mau Presidente da República seria este, tão retardado na gestação do juízo. Não se pronunciou sobre o Orçamento de Estado porque ele, o entrevistado, está acima dos partidos e pronunciando-se estaria a tomar partido – mau Presidente da República seria este, tão expedito no fabrico de argumentos tão indigentes. Não se pronunciou sobre o TGV, não se pronunciou sobre o aeroporto… – mau Presidente da República seria este, tão receoso de ter opinião, tão receoso da sua própria opinião.
Em compensação, digamos assim, fartou-se de falar de si próprio, não para dizer fosse o que fosse de novo, mas tão-somente para repetir o discurso dos «êxitos» do seu reinado e, naturalmente, para fazer promessas. Com tiradas insinuadoras de fina inteligência (que se farta de prometer mas que ninguém lhe conhece) e pondo aquele sorriso com que promete profundas sabedorias (promessa sempre incumprida), o candidato presidencial da direita apresentou-se tal qual é e confirmou-se como um bluff.
Resta-lhe a esperança de haver quem acredite na lenda, posta a correr por ele próprio e pelos seus ecos, de que é um bom economista. Contudo, ainda que assim fosse, o que está longe de estar provado, colocar-se-ia sempre a pergunta: um bom economista ao serviço de quê?. A resposta é óbvia: ao serviço dos interesses do grande capital – em relação ao qual ele foi, durante dez anos, nesse caso sim!, um fidelíssimo cumpridor de promessas.


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