• Jorge Messias

A «prática social»
Durante muitos séculos a sociedade ocidental aceitou que os pobres e os ricos existiriam sempre. Fiéis aos princípios da igreja, os grandes vultos consideravam que pobreza e riqueza desempenhavam uma função reguladora indispensável ao equilíbrio do tecido social. Só no século XIX, com o verdadeiro terramoto das mentalidades desencadeado por Karl Marx, as posições dos fatalistas da pobreza querida por Deus foram profundamente desacreditadas.
A pobreza e a riqueza não existem por razões transcendentes. Em cada caso concreto, é possível identificarem-se as suas componentes : a propriedade dos meios de produção, a natureza política do Estado, os mecanismos de apropriação e distribuição social do produto, as formas de exploração do trabalho, etc. É falso que a humanidade não crie, em cada momento da História, os bens necessários à sua subsistência e ao seu desenvolvimento gradual. O que acontece é que o Capitalismo e a sociedade organizada em classes desviam a favor de alguns a riqueza produzida por todos. Este trágico desequilíbrio vai-se agravando aceleradamente, à medida que o próprio avanço técnico do homem domina áreas de conhecimento jamais imaginadas mas consente que a sua gestão seja entregue a forças políticas cujo o objectivo principal é a sua fusão com os grupos financeiros dominantes. Assim, há estados cada vez mais ricos e estados cada vez mais pobres. É a expansão de um colonialismo oculto. O poder político governa contra os interesses das populações. Os sistemas que regulamentam o comércio, a indústria e o acesso às novas tecnologias, obedecem às filosofias do lucro imediato e do saque.
Deste modo se eterniza a pobreza entre os pobres e a riqueza entre os ricos. «A pobreza», afirmou Marx, «faz parte das falsas despesas da produção capitalista que o capital sabe depois lançar sobre os ombros da classe operária e da pequena classe média. O pauperismo é a situação do proletário arruinado, o último grau para o qual resvala o trabalhador que deixou de resistir à opressão capitalista. Só o proletário despojado de toda a energia é um pobre».
Esta análise lúcida da pobreza é plenamente válida nos nossos dias.

O mundo real
e o método da mudança


A proposta que os países ricos fazem de globalização, tem produzido os seus frutos. A aldeia global em construção, um condomínio fechado eriçado de escudos e longas lanças, protege os ricos dos pobres e opõe-se a tudo o que o cerca. De fora da muralha, arrastam-se milhões de esfomeados e de condenados à morte pela doença e pela miséria. São seres cujo interesse para as sociedades de consumo não é nenhum. Morrem em silêncio ou lançam-se, desesperados, sobre as muralhas da Europa global, como aconteceu em Ceuta e em Melilla. Aguardam-nos as metralhadoras dos ricos cujos soldados não hesitam em disparar sobre os pedintes que põem em risco a propriedade privada dos meios de produção.
Neste panorama social, onde tudo parece definitivamente pertencer à vontade dos poderosos há, no entanto, um aspecto central que deve ser destacado. A aldeia global está longe de ser inexpugnável. As suas casas abrem brechas sobre brechas e ameaçam desabar. A aldeia é um castelo de cartas. «A classe possuidora e a classe proletária, apresentam a mesma alienação humana», a palavra é novamente de Karl Marx. «Mas a primeira sente-se satisfeita e segura nesta alienação, sabe que a alienação é o seu próprio poder e nela reside a ilusão de uma existência humana; a segunda (o proletariado) sente-se aniquilado nesta alienação, vê nela a sua impotência e a realidade de uma existência não-humana. A alienação, para empregar uma expressão de Hegel, representa na sua miséria, a rebelião contra essa miséria, a rebelião para a qual é necessariamente empurrada pelo conflito da sua natureza humana com a sua situação vital que é a negação declarada, definida e patente, dessa natureza.»
Nada há, certamente, de mais claro na caracterização da actual fase histórica da humanidade. Os ricos revelam-se incapazes de gerir as suas contradições. Os pobres têm enormes dificuldades em dominar os fantasmas do passado e, como é natural, em distinguir o real e o virtual, as ilusões em que foram mergulhados, as demagogias com que os continuam a iludir os poderosos e de sentir a proximidade, ao alcance das suas mãos, de uma sociedade mais justa, forjada pela enorme força popular.
A tese de Marx da prática social é uma porta aberta à solução destas contradições teóricas. É a acção concreta que permite corrigir as incorrecções do pensamento. É o empenho na acção social a única via aberta - ainda segundo o próprio Marx - à possibilidade de «materialismo e espiritualismo perderem as suas oposições».


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