• Francisco Mota

O homem que vendia o destino
Para:
Jorge de Jesus – Madrid
A primeira vez que te ouvi dizer «é preciso vender o destino» fiquei profundamente perplexo, e a frase tão clara e definitiva nunca mais me abandonou. Além disso
lembro-me da tua cara preocupada porque o destino não se estava a vender bem. Era preciso mais publicidade e acções de marketing, coisa agora fundamental para tudo, o destino incluído.


Depois percebi que o destino era Salvador da Baía que tu promovias na Europa, fazendo tudo para que nas próximas férias, o livre cidadão vá onde os grandes operadores turísticos decidem que será o seu destino durante uma ou duas semanas. Tu tinhas que vender a região a esses tipos, mostrando as maravilhas da cidade, da baía, das praias, das baianas e até da comida. E o que é que se come? Em vez de responderes, recitaste: na cozinha baiana juntam-se as influências de três culturas: indígena, portuguesa e africana, que mistura os produtos locais, com o que trouxe o colonizador e o escravo. Até organizamos circuitos gastronómicos e aulas de cozinha, para que os turistas tivessem contacto directo com a realidade. Será verdade.
Americo Vespucci, a quem um cartógrafo alemão concedeu a descoberta da América, baptizando-a com o seu nome – um lamentável engano, sem mais consequências – passou em 1502 pelo Brasil e deixou escrito: «Os indígenas comem sentados no chão. Os seus alimentos são raízes de ervas, frutas muito boas, muito peixe, mariscos, caranguejos, ostras, lagostas, camarões, e muitas outras coisas que o mar produz. A única carne que comem é humana.» (Esta parte, Jorge, não a incluas no circuito gastronómico.)
Mas o colonizador, sabendo que não tinha chegado à Índia, decidiu «implementar um programa produtivo de novas rentabilidades, no quadro das necessidades actuais» – como diria agora a rapaziada neo-liberal. E o jesuíta Manuel da Nóbrega, considerado o introdutor da cana-de-açúcar no Brasil, dizia que se podiam encontrar, no fim do século XVI, laranjas, limões, uvas, figos, maçãs, vacas, porcos, ovelhas, cabras e galinhas. Tudo vindo da Europa. Europa que cada vez pedia mais açúcar. Faltava mão-de-obra.

Nada acontece por acaso

As multinacionais da altura resolveram o problema «convidando» milhões de negros africanos a procurar um novo destino na qualidade de escravos. Com eles trouxeram música, azeite dendê, formas de cozinhar e santidades.
Todas estas misturas produzem pratos: moqueca, vatapá de peixe ou de galinha, farofa, etc, em que se juntam mandioca (a tal raíz que viu Vespucci), dendê, côco, frutas frescas e secas, peixes, mariscos e carnes. Onde a integração é mais forte, surge uma cozinha local própria, como na cozinha baiana, que já merece bilhete de identidade. O destino assim o quis.
Há a cozinha dos ricos, quase toda de influência francesa, há a dos pobres cheia de arroz e feijão, legumes e frutas e há o fenómeno transversal inter-classista da «feijoada» mistura de tudo: pobre e rico, indio, negro e português. Prato calórico e forte que necessita duns copos de cachaça para ajudar digestões preocupantes. Mais calorias a juntar aos calores do sol .
O destino também quis que, desde o século XVI, o vinho existisse no Brasil. Primeiro o português Martins Afonso de Sousa, depois o jesuíta espanhol Roque González de Santa Cruz, depois os emigrantes açorianos, e finalmente os italianos, que lograram fazer crescer variedades resistentes e adaptadas ao clima do Sul do Brasil. Esta zona do Rio Grande do Sul, de forte implantação italiana, tem a sua capital em Garibaldi. Nada acontece por acaso, nem o destino.
Isto do destino leva-nos a coisas profundas, racionais ou irracionais, a deuses em todas as suas formas, a transcendências intocáveis, a superstições respeitabilíssimas apesar de incoerentes, ao fado e à sua liturgia. No entanto garanto, à fé de quem sou, que nenhuma alcança os calcanhares do meu amigo Jorge: o homem que tinha que vender o destino.


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