«O químico foi lançado contra a população sob ordem directa dos militares»
Reportagem apresenta provas e testemunhos do massacre
EUA usaram armas químicas em Fallujah
Um ano depois da ofensiva norte-americana contra Fallujah, uma reportagem da televisão estatal italiana confirma que os EUA usaram armas químicas no ataque à cidade.
Quando em Novembro do ano passado o exército dos EUA entrou «triunfante» na cidade de Fallujah, no Norte do Iraque, muitos foram os que denunciaram o massacre dos ocupantes contra a população que não escapou antes do início dos ataques. Um ano depois, as imagens e os testemunhos recolhidos durante os dias da ofensiva pelo jornalista italiano Sigfrido Ranucci confirmam o pior dos cenários. Tratou-se de um crime de guerra.
Na reportagem, emitida pelo terceiro canal da RAI, na noite do passado dia 8 de Novembro, apresentam-se provas inequívocas do uso indiscriminado de fósforo branco e napalm, armas não convencionais cuja utilização nos chamados «teatros de guerra» se encontra proibida por tratados internacionais promovidos sob a égide das Nações Unidas.
Os corpos corroídos pelos químicos relembram imagens ainda não esquecidas do Vietname ou do bombardeamento à cidade de Dresden, durante a 2.ª Guerra Mundial. Recordam ainda as acusações que hoje recaem sobre Saddam Hussein, o massacre de civis durante operações de combate.

Veterano, habitante e jornalista confirmam denúncias

Teoricamente, o fósforo branco utilizado durante a campanha contra Fallujah serviria para iluminar as posições inimigas, mas as palavras de Jeff Englehart, veterano de guerra envolvido no ataque à cidade, revelam que o químico foi lançado contra a população sob ordem directa das chefias militares no terreno.
«Eu ouvi a ordem para prestarmos atenção porque se ia usar fósforo branco sobre Fallujah», revela Englehart, que explica, mais adiante na entrevista concedida a Ranucci, que «o fósforo explode como uma nuvem e quem estiver num raio de acção de 150 metros está liquidado. Queima os corpos, derrete-os até aos ossos. Eu vi como se queimam os corpos de mulheres e crianças».
Mas o trabalho intitulado «Fallujah, o massacre escondido» vai mais longe e apresenta provas testemunhais do uso de uma outra substância, o MK77, uma variante moderna do napalm. De acordo com o relato do biólogo Mohamad Tareq Deraji, «uma chuva de fogo caiu sobre a cidade. As pessoas tocadas por esta substância começaram a queimar-se. Encontrámos muita gente morta com as entranhas feridas, os corpos queimados, mas o vestuário intacto», disse.
Na peça televisiva, sobressai ainda o depoimento de Giuliana Sgrena, cujas histórias de rapto e posterior libertação não ficaram, até hoje, totalmente esclarecidas. Sgrena afirma que «antes de ser sequestrada já tinha recolhido testemunhos junto dos habitantes sobre o uso de fósforo e napalm. Preparava-me para os relatar, mas os raptores impediram-me de o fazer».
Recorde-se que a jornalista do diário Il Manifesto foi libertada, em Março deste ano, numa operação que alegadamente envolveu o pagamento de um resgate aos raptores e a acção, confirmada, dos serviços secretos italianos. Ainda no Iraque, durante a viagem automóvel que a transportava para o avião de regresso a Roma, a viatura foi atacada por um contingente militar dos EUA. Um dos indivíduos que seguia no automóvel acabou por morrer em resultado dos ferimento.

Defesa de Saddam sofre mais uma baixa
Advogados boicotam julgamento


Adel al-Zubeidi, advogado de defesa de Saddam Hussein, foi morto a tiro, na terça-feira da semana passada, quando circulava numa viatura com outro causídico pelas ruas de Bagdad. A morte de al-Zubeidi e os ferimentos infligidos Thamer Hamoud al-Khuzaie juntam-se ao assassinato, o mês passado, de outro advogado da mesma equipa, al-Janabi.
Reagindo à absoluta insegurança que rodeia os advogados do ex-presidente do Iraque e dos restantes sete réus no processo, a equipa de defesa decidiu boicotar a próxima sessão do Tribunal Especial Iraquiano, agendada para 28 deste mês.
No protesto, os advogados acusaram as autoridades de não providenciarem as mínimas condições de segurança aos envolvidos no processo, a começar pela divulgação, meses antes do início do julgamento, da sua identidade.
Para além de reclamarem uma «investigação completa e uma dura punição para os criminosos», os advogados afirmaram que o Iraque não apresenta condições para a realização de um julgamento justo e imparcial, logo porque as testemunhas são intimidadas e ameaçadas a não comparecerem na sala de audiências.
Entre exigências de equidade e transparência como a possibilidade de consulta de todos os documentos constantes na posse da acusação, a defesa reclama a transferência do julgamento para fora do Iraque, única solução que, dizem, garantirá um mínimo de estabilidade durante o decorrer dos trabalhos.


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