• Hugo Janeiro

CDU recupera Câmara de Sesimbra
Com a força de quem trabalha
Quando em Outubro passado a CDU avançou para as eleições autárquicas com a ambição de recuperar a Câmara de Sesimbra, poucos acreditaram ser possível alcançar tal objectivo. Poucos, fora do concelho, porque entre os candidatos, activistas da coligação e população local, há muito que se havia solidificado a vontade de dar um rumo de esquerda à gestão do município. Passados os naturais festejos, importa reflectir sobre tão saborosa vitória, não só porque expressa o sentir de quem ali vive e trabalha, mas também porque traduz com inteira justiça a persistência e abnegação dos comunistas em Sesimbra, como explicaram Jorge Amorim e Augusto Pólvora em conversa com o Avante!.
O desejo de reconquistar a presidência da autarquia foi, com certeza, sentido imediatamente após a primeira derrota eleitoral, em 1997, mas o fulcro desta história talvez assente no balanço feito após as autárquicas de 2001.
«Uma das primeiras coisas que decidimos foi que não era por não termos maioria na autarquia que nos demitiríamos das nossas responsabilidades», recorda Jorge Amorim, responsável do PCP no concelho.
Com efeito, sem que nenhuma força política tivesse alcançado maioria absoluta no sufrágio, e apesar do PS deter a presidência, «foi obrigado a atribuir-nos a responsabilidade de áreas tão importantes como o planeamento urbanístico, a habitação, a educação, a acção social, a saúde e o ambiente», acrescenta o actual presidente da câmara, Augusto Pólvora, situação que, continua, «aproveitámos para assumir uma postura simultaneamente combativa e construtiva. Sabíamos que era um risco, mas acreditámos que era possível marcar a diferença pela positiva e colher bons frutos do trabalho realizado», conclui.
Do acerto da decisão então tomada fazem prova os resultados de dia 9, mas sobretudo o facto de, nos últimos quatro anos, «as pessoas dizerem que o que funcionava melhor na câmara era trabalho dos comunistas. A população identificava-se com os representantes da CDU e comentava, na rua, que quem estava a gerir e a realizar os projectos importantes em Sesimbra eram os nossos eleitos», continua Augusto Pólvora.

Prestar contas do trabalho realizado

Traçadas as linhas orientadoras da postura dos comunistas no que toca aos mandatos conquistados; reconhecida a competência e a capacidade de fazer mais e melhor em prol de quem vive e trabalha em Sesimbra, o caminho escolhido obrigava a uma estreita ligação com o povo, não só porque decide e executa melhor quem o sabe ouvir, mas também porque na CDU persiste o bom hábito de prestar contas do que se anda a fazer.
Em termos institucionais, «apostámos muito no contacto directo com a população, por exemplo, através da criação de comissões municipais alargadas à participação de muita gente. Por outro lado, os projectos mais importantes foram sempre alvo de discussões públicas, de visitas, de debates abertos às pessoas», explica Augusto Pólvora.
Mas a construção de uma mudança ampla e reconhecida obrigava a mobilização concertada da força fundamental, a do colectivo militante. «Neste sentido era importante que o Partido, através das suas organizações, nas freguesias, valorizasse e desse a conhecer a obra que era da nossa responsabilidade, o que foi determinante para que a população se consciencializasse. Este é um traço que importa sublinhar porque ajudou muito à construção da alternativa», refere Jorge Amorim.

Uma lista de futuro

Arregaçadas as mangas, a capitalização do trabalho da CDU na autarquia começou a solidificar a possibilidade de reconquista da câmara municipal. A ambição não permitia, no entanto, que se deixasse de deitar as mãos à obra perante os primeiros resultados, por isso, havia que começar a compor as listas eleitorais sem começar «pelos nomes, mas antes pelos critérios», destaca Jorge Amorim.
«Por um lado, o rejuvenescimento, encontrando gente nova, prestigiada e competente para assumir as nossas propostas e garantir a continuidade do nosso trabalho, por outro, candidatos com disponibilidade, não só para a campanha eleitoral, mas para, depois dela, independentemente da contagem dos votos, assumirem os respectivos cargos e a intervenção da CDU. Neste momento, com o actual número de eleitos e activistas, penso que está criada a base para o reforço tanto da CDU como do PCP», disse ainda o dirigente.

Compromissos a cumprir

Apresentando-se à população com quatro anos de reconhecida qualidade, compete agora à gestão da CDU dar revigoradas provas de competência e capacidade de resolução dos problemas mais graves que afectam Sesimbra e os seus habitantes. Desde logo pela manutenção e aprofundamento da democracia participativa, «chamando as pessoas a contribuírem para que se tomem as melhores decisões, até porque elas não se podem demitir da resolução dos problemas que as afectam e têm que ser parte central no apuramento das soluções», afirma Jorge Amorim.
Quanto a projectos, as prioridades passam, entre outras, pela continuidade do trabalho feito em torno dos planos de Pormenor e Ordenamento do Território e de Acessibilidades - cuja elaboração e discussão ficou a dever-se inteiramente à vereação da CDU - e a revitalização das política de juventude e cultural.
Evidentemente que o que diz respeito à construção de novas e requalificadas infra-estruturas rodoviárias no concelho, «o Governo vai ter que assumir as suas responsabilidades», diz o presidente da Câmara, e não é animador que «do orçamento do ano passado para o deste ano tenham retirado verbas para obras nessa área em Sesimbra», acrescentou. De todo o modo, Augusto Pólvora considera que «no que depende da Câmara, julgamos que, no mínimo, é possível atenuar algumas das carências».
Oito anos de inacção do PS no município e muitos mais de governos a condizer, levaram à ruptura de estruturas fundamentais para um boa qualidade de vida dos habitantes de Sesimbra, por isso, explicou Augusto Pólvora, «uma das prioridades do nosso mandato vai ser o saneamento básico, sobretudo na freguesia do Castelo onde o problema é urgente».
Igualmente identificadas como necessidades centrais são a educação e a saúde, áreas nas quais o governo se tem demitido continuamente das suas responsabilidades de financiamento.
Augusto Pólvora dá o exemplo da Quinta do Conde, «uma freguesia com mais de 20 mil habitantes que não tem uma escola secundária e onde a escola básica alberga mais de mil alunos, tendo apenas capacidade para 600».
Na mesma localidade, explicou-nos o actual presidente, que o tão prometido financiamento para a construção do novo centro de saúde – com projecto entregue desde Abril no ministério da Saúde - foi novamente adiado no recente orçamento de Estado. Com a determinação de quem não se resigna a baixar os braços, Augusto Pólvora garante que para a CDU a questão vai estar sempre na ordem do dia, «como sempre esteve, porque quem dinamizou as pessoas e mobilizou o movimento de utentes na Quinta do Conde fomos nós, com sessões e reuniões e até a intervenção dos nossos deputados na Assembleia da República», esclareceu.
Um caso exemplar entre o movimento de massas e a acção reivindicativa que pretendemos manter», concluiu

O Partido saiu reforçado

A dinâmica criada com o XVII Congresso do PCP foi, para Jorge Amorim, uma das razões fundamentais para o êxito do Partido no concelho.
A concorrer para a mesma realidade esteve, nas palavras do responsável, «a Campanha de Contactos, tarefa que não encarámos como uma mera limpeza administrativa dos ficheiros, mas antes do ponto de vista do conhecimento das nossas organizações. A verdade é que durante a campanha eleitoral ela foi muito importante não só porque já havia alertado camaradas mais desligados da actividade para a importância de participarem na luta do Partido, como nos fez ter a noção da disponibilidade de cada um».
Para o dirigente comunista, o reforço do Partido e a sua ligação à vida e aos trabalhadores leva a que «as pessoas reconheçam que é connosco que devem estar, o que só nos faz crescer e avançar, não só eleitoralmente, mas também na luta geral contra a política de direita. O poder local é importante neste âmbito quando afirma uma postura reivindicativa junto do poder central no contexto mais amplo das políticas nacionais, até porque os nossos eleitos nas autarquias têm a obrigação de estar ao lado dos trabalhadores e das suas justas reivindicações».
No que toca ao trabalho realizado em Sesimbra, Jorge Amorim afirmou que «o colectivo saiu para a rua porque nada substitui o contacto directo com as populações nas respectivas localidades. Não distribuímos documentos porta-a-porta. Costumamos dizer que o fizemos mão-a-mão, porque entendemos que nos interessava mais falar e esclarecer correctamente as pessoas do que distribuir muitos milhares de documentos».
Quando as áreas residenciais se impõem como uma barreira na aproximação aos respectivos residentes, a coisa complica-se, admite. Mas no caso concreto da Quinta do Conde, Jorge Amorim sublinha que «tentámos um contacto intenso e permanente junto das zonas mais frequentadas ao fim-de-semana, sobretudo; realizámos visitas, convívios, e levámos os nossos eleitos para discutirem os problemas mais sentidos. Quando existe alguma coisa que afecta muito directamente as pessoas, penso que algumas arranjam um bocadinho para participarem».

Comunistas na vanguarda da luta
Do mar ainda vem pão

Tradicionalmente ligado à actividade piscatória, o concelho de Sesimbra vive, desde a quebra do acordo com Marrocos, horas difíceis.
O abate de embarcações e postos de trabalho ligados à faina mar-adentro traduz-se, não raras vezes, num drama social a que Governo e autarquia nem a muito custo quiseram dar resposta, mesmo sabendo que nos dias que correm, o mar ainda garante o pão a cerca de 300 pescadores e respectivas famílias.
«O PCP foi o único partido que, desde a primeira hora, se colocou ao lado dos pescadores, não por razões eleitorais – embora depois isso tenho pesado no sentido de voto dos pescadores na medida em que entenderam que não era indiferente ter uma Câmara CDU, com capacidade reivindicativa, e uma Câmara PS, colada ao Governo do seu partido– mas porque faz parte da natureza de classe do nosso Partido», diz Jorge Amorim.
No plano da intervenção institucional, a questão não foi nem será descurada, assegura Augusto Pólvora, que a par da vereação da autarquia, foi o representante da câmara no Parque Nacional da Arrábida.
A questão, explicou-nos, tem a ver com as propostas do Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Arrábida, as quais ameaçam a manutenção da pesca artesanal na faixa costeira por ele abrangida.
«A Câmara vai passar a assumir a liderança do processo reivindicativo», diz o actual presidente, que destaca ainda o facto de «já ter sido entregue a impugnação do Plano» e de garantirmos «a continuidade em funcionamento de uma estrutura chamada Fórum Sesimbra, cujo objectivo é discutir o Plano, lutar e propor as soluções mais justas».
«O movimento de massas também não vai parar, até porque os nossos camaradas João Narciso e João Lopes – também eles candidatos da CDU nas últimas autárquicas – têm demonstrado grande empenho e prestígio junto do pescadores», afirmou Augusto Pólvora.

No Castelo ganhou a CDU

Facto digno de destaque foi a vitória da CDU, pela primeira vez, na freguesia do Castelo, ainda para mais apresentando um candidato jovem que assegura o futuro da intervenção e gestão comunista, assim continue a ser a vontade da população.
Mais uma vez, ficou provado que onde o Partido se reforça aumentam as possibilidades de êxito eleitoral. Apesar da tradição de implantação do PCP no Castelo, Jorge Amorim esclareceu que «foi o trabalho dos militantes, activistas e eleitos locais, nos últimos dois ou três anos, que permitiu um novo ânimo e aumento da influência do Partido junto da população».
Já quase no final da nossa visita a Sesimbra, ainda no Centro de Trabalho do PCP, encontrámos o recentemente eleito presidente da junta, Francisco Jesus, que se dispôs com prontidão a dar dois dedos de conversa sobre a conquista comunista, os sonhos e os projectos para a freguesia.
«O saneamento básico e a requalificação da rede rodoviária foram as duas prioridades que identificámos, mas tal não depende só de nós», disse-nos.
Outra das ideias fortes de um presidente que ganhou à primeira vez que se candidatou é «proporcionar a aproximação dos eleitos às pessoas, não só para as ouvir e estimular a participarem na vida da freguesia, mas também porque muitas vezes necessitam de ser confortadas quando enfrentam problemas graves».
Quanto a obra planeada, o Castelo promete devolver o sorriso ao rosto de todas as gerações. Tanto para miúdos como para graúdos, «os abrigos rodoviários vão ser requalificados; a biblioteca do Zambujal vai ficar mais moderna, com acesso à Internet, convidando a população a frequentá-la; o castelo passará a receber uma feira medieval por altura do aniversário da freguesia», esclareceu o edil.
O posicionamento geográfico da freguesia é uma mais-valia. Nesse sentido, Francisco Jesus promete que na Praia do Moinho de Baixo, no Meco, o Verão não vai deixar ninguém indiferente.


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