Saara Ocidental
Marrocos reforça repressão
O exército marroquino deteve, nas últimas duas semanas, dezenas de pessoas nos territórios ocupados do Saara Ocidental respondendo com repressão aos protestos populares.
Desde que em Maio deste ano o povo saráui retomou a intifada contra a ocupação marroquina que a repressão não se abatia com tamanha brutalidade no território.
Nas últimas duas semanas, pelo menos uma centena de pessoas foram detidas pelos ocupantes na cidade de El Aaiún e outras tantas terão ficado feridas com gravidade na sequência de várias manifestações de protesto exigindo o direito à independência e o restabelecimento dos direitos civis sonegados pelo poder de Rabat. Testemunhos indicam que os prisioneiros se encontram sob tortura nos quartéis da polícia, prática recorrente no Saara Ocidental desde que, em 1975, o país foi repartido entre Marrocos e a Mauritânia.
As mesmas fontes afirmam que, desde o passado dia 12 de Novembro, o contingente militar marroquino na cidade foi reforçado com a chegada de mais quatro mil soldados apoiados por veículos de combate e meios aéreos. O objectivo é controlar a revolta popular que cresce não só em resultado da repressão dos protestos de rua mas também do assalto indiscriminado a residências e estabelecimentos comerciais.
Situação semelhante vive-se em Smara, Bojador e Dajla, e ainda em algumas das universidades do Sul de Marrocos onde muitos estudantes saráuis insistem em pedir a realização de um referendo sobre a autodeterminação do Saara Ocidental, exigência subscrita pelas próprias Nações Unidas em várias resoluções da sua Assembleia Geral e do Conselho de Segurança daquela organização.
A par do recrudescimento da violência, as autoridades procuram apagar as provas da repressão. De acordo com dados revelados pelo sítio Internet Rebelion, a família do jovem Lembarki Hamdi – assassinado pelos Grupos Urbanos de Segurança do Estado de Marrocos em 30 de Outubro passado – está a ser pressionada para enterrar o corpo, apagando, desta forma, as provas do crime cometido.

Repressão chega à Internet

Entretanto, a União dos Jornalistas e Escritores Saráuis (UPES), fez saber que o governo marroquino bloqueou, segunda-feira da semana passada, o acesso às páginas de Internet que divulgam ou simpatizam com a causa do povo saráui. Em comunicado, a UPES classifica a medida como «pirataria informática» e reclama a aplicação de «rigorosas sanções».
No texto, a UPES afirma ainda que «ao bloquear as páginas, ao privar os cidadãos saráuis e marroquinos dos territórios ocupados do Saara Ocidental do acesso a fontes de informação, Marrocos viola abertamente os princípios da democracia e da liberdade de expressão, factos que contrariam todas as convenções internacionais sobre a matéria».
A UPES apelou ainda à ONU para que «cumpra o seu papel» e «não só ponha fim ao bloqueio sobre os meios de comunicação imposto por Marrocos no território desde 1975, como proteja o povo saráui contra a tirania e a repressão, culminando o processo de descolonização conforme determina o direito internacional e os princípios da Carta das Nações Unidas».

Festival mostrou cultura

Apesar de se viverem algumas das mais negras páginas da luta do povo saráui pela sua emancipação face ao poder colonial de Marrocos, decorreu, entre quarta e sexta-feira da semana passada, nos campos de refugiados de Dajla, o XIII Festival de Cultura e Arte Saráuis.
A iniciativa que pretende manter vivo o património secular do Saara Ocidental passando-o para as gerações mais novas – sobretudo para aqueles que sempre viveram sob o jugo da ocupação –, aproveitou a presença de delegados estrangeiros para afirmar e dar a conhecer, através da música, da dança ou do artesanato, os traços mais marcantes da sua cultura.
A cerimónia de encerramento do Festival ficou ainda marcada pelas intervenções de habitantes provenientes das regiões ocupadas, os quais reafirmaram a «determinação de prosseguir a luta pacífica e legítima do povo saráui pela sua independência» e exigiram «a libertação de todos os presos políticos».

Congresso da Juventude aponta futuro da luta

Paralelamente ao Festival de Cultura, tiveram início também em Dajla, os trabalhos do VI Congresso da União da Juventude de Saguia el Hamra e Rio do Ouro (UJSARIO), este ano sob o lema «Resistir até à Independência» e afirmando como exemplo de coragem e tenacidade o mais recente mártir da causa saráui, o jovem Lembarki Hamdi, torturado até à morte pela polícia marroquina no final do passado mês de Outubro.
Presentes na assembleia magna da UJSARIO estiveram delegações provenientes da Argélia, Espanha, Suíça, Estados Unidos da América, Alemanha e Mauritânia, participando não só nos trabalhos da primeira sessão, mas também no Fórum Internacional de Solidariedade e na Conferência da Comunidade Saráui da Mauritânia.
No decurso do Congresso foi aprovado o plano de acção para os próximos quatro anos e elegeram-se os novos membros do Secretariado Nacional da Juventude. O órgão executivo foi renovado em 75 por cento dos seus quadros activos - dos quais um terço são mulheres - prova de que, apesar das dificuldades, a consciência e a disponibilidade para prosseguir a luta continuam bem vivas entre o povo.

Uma só solução

Intervindo na sessão de abertura, Mohamed Abdelaziz, presidente da República Saráui, afirmou que, 30 anos passados sobre a divisão do território, «mantém-se a vontade do nosso povo em enfrentar o desafio e estar em total simbiose com a História, a liberdade, a dignidade, o direito à existência e o respeito pelos Direitos do Homem», pelo que, continuou, qualquer solução que não seja a realização de um referendo no território «está votada ao fracasso e nada mais trará senão o prolongamento do sofrimento dos povos marroquino e saráui, criando obstáculos à paz e desenvolvimento da região».
Considerando que a Frente POLISARIO já fez todos os esforços possíveis para que a paz e a independência sejam uma realidade, Abdelaziz reclamou da ONU a aplicação das resoluções aprovadas no que respeita ao direito à autodeterminação do Saara Ocidental, decisões consecutivamente violadas pelo Estado de Marrocos «revelando o odioso rosto de uma monarquia despótica que comete crimes de guerra, reprime e tortura a população que se manifesta pacificamente».


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