Editorial

«Une-os trinta anos de defesa da mesma política de direita, ora praticada pelo PS ora pelo PSD»

A CANDIDATURA DA ESPERANÇA

À medida que a pré-campanha eleitoral avança, a candidatura de Jerónimo de Sousa impõe-se de forma inequívoca e afirma-se cada vez mais claramente como a candidatura da esperança. Trata-se de uma esperança nascida da convicção e da certeza de que há uma saída, há um outro rumo, uma outra política para fazer face à actual situação do País – uma política de esquerda que, no cumprimento pela Constituição da República Portuguesa, inicie a resolução dos muitos e graves problemas criados por trinta anos de política de direita. Trata-se de uma esperança feita da rejeição frontal das inevitabilidades inventadas pelos que têm como preocupação primeira perpetuar a exploração e as injustiças - contrapondo-lhes os direitos e os interesses dos trabalhadores, do povo e do País presentes nos valores e nos ideais de Abril, base essencial de uma democracia avançada. Trata-se de uma esperança que assenta na força da actualidade e da modernidade da democracia de Abril – uma democracia simultaneamente política, económica, social e cultural. Trata-se de uma esperança que rejeita a sujeição aos ditames dos grandes e dos poderosos da Europa e do mundo – e que transporta consigo o projecto de uma pátria livre, soberana e factor de paz e solidariedade no mundo. Trata-se de uma esperança liberta das malhas do conformismo e do fatalismo – uma esperança insubmissa, carregada de futuro e que se constrói, todos os dias, com acção, com trabalho, com confiança, com luta. Trata-se de uma esperança cada dia mais ancorada na convicção de que não apenas é necessário mas é, igualmente, possível derrotar a candidatura da direita – esperança que ganha nova dimensão à medida em que se multiplicam os sinais que apontam para uma expressiva votação em Jerónimo de Sousa, no dia 22 de Janeiro.

De facto, esta é a esperança pela qual vale a pena lutar e na qual vale a pena e é necessário empenharmo-nos com determinação e confiança. Porque esta é a esperança que tem as suas raízes profundas em Abril - naquele que constituiu o mais avançado e luminoso momento da nossa história colectiva – processo donde emerge, relevante, a aprovação da Constituição da República Portuguesa, porventura o texto mais belo da nossa literatura e, seguramente, o que melhor interpretou os anseios, as aspirações, os sonhos de liberdade e de democracia do povo português. É por isso – porque muito de bom lá estava - que, não obstante as violentas machadadas desferidas pelo PS e pelo PSD sobre a Lei Fundamental do País nascida da revolução de Abril, ela continua a ser um texto maldito para o grande capital, logo um alvo preferencial dos ataques dos partidos da política de direita e dos escribas ao serviço desses mesmos interesses – um alvo de sempre, e mais ainda em tempo de eleições presidenciais nas quais o grande capital conta com um candidato feito à medida para, na sequência de uma nova revisão, alterar o regime, roubando-lhe mais pedaços de democracia, de liberdade, de direitos sociais, de soberania nacional, enfim, mais pedaços de Abril.
Daí a postura singular da candidatura de Jerónimo de Sousa, visível em toda a pré-campanha eleitoral e explícita na sua Declaração de Candidatura: «A Constituição da República Portuguesa, apesar do empobrecimento introduzido por sucessivas revisões empreendidas pelo entendimento entre a direita e o PS, constitui ainda uma construção histórica do Portugal de Abril, e o seu respeito e cumprimento constituem, hoje e amanhã, a plataforma comum de todos os que desejem um Portugal de Liberdade, de justiça social, de progresso e de desenvolvimento, no quadro de um regime de profundo potencial transformador e enraizamento democrático». Eis uma afirmação que nenhuma das restantes candidaturas – sublinhe-se: nenhuma das restantes candidaturas - está em condições de produzir.

O primeiro dos debates a dois transmitido pela SIC foi a confirmação dessa verdade sabida. Para quem tivesse ilusões nessa matéria, Cavaco Silva e Manuel Alegre mostraram que, em questões essenciais, o que os une é muitíssimo mais do que aquilo que os separa. Une-os, ao fim e ao cabo – e é isso que conta, e é isso que está em jogo – trinta anos de defesa da mesma política de direita, ora praticada pelo PS (com Manuel Alegre dando-lhe a utilitária coloração de esquerda), ora praticada pelo PSD (neste caso com Cavaco Silva a desempenhar, durante dez longos e terríveis anos, o papel de protagonista principal) – trinta anos, recorde-se, de desprezo pela Constituição da República Portuguesa. Diferenças substanciais nos discursos dos dois intervenientes no debate foi difícil detectá-las. Empataram em tudo o que é fundamental para Portugal e para os portugueses não lhes faltando tempo para empatar, também, no «fato às riscas, camisa clara e gravata às riscas». Empataram, ainda, na consideração comum aos dois de que se tratou de «um debate esclarecedor» - contudo, numa coisa Manuel Alegre ganhou A Cavaco Silva por muitos a um: na utilização da expressão «estou de acordo»...
Naturalmente, ambos os candidatos mostraram estar a uma distância infinita da condição apresentada pela candidatura de Jerónimo de Sousa: «A Constituição precisa de ter na Presidência da República o que até hoje não tem tido – um Presidente que a cumpra e faça cumprir».
Mas a candidatura de Jerónimo de Sousa é a candidatura da esperança.


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