• José Augusto

A propósito de acontecimentos recentes
Doping por todo o lado…
Dois atletas de alta competição podem vir a pôr ponto final nas suas carreiras desportivas mais cedo do que se esperava. Abel Xavier tem 32 anos, joga futebol no Middlesbrough, de Inglaterra, depois de ter defendido as cores de vários clubes portugueses, incluindo as da equipa nacional. Roberto Heras, com 31 anos, ganhou quatro Voltas a Espanha. É ou era o ídolo das estradas dos nossos vizinhos.
Análises laboratoriais acusam o português de ter ingerido metandianona, um esteróide anabolizante, o que lhe valerá 18 meses de suspensão de toda a actividade desportiva. O ciclista espanhol foi afastado dois anos da sua actividade profissão, pelas entidades competentes, devido a terem sido detectados na sua urina vestígios de EPO (eritropoietina). Enfim, dois casos de doping a juntar-se a uma infinidade de outros.
Num colóquio europeu organizado em França em 1963, foi avançada, pela primeira vez com grande consenso, a definição de doping:«“É considerado doping a utilização de substâncias ou qualquer outro meio destinados a aumentar artificialmente o rendimento, antes ou durante a competição, que possa prejudicar a ética desportiva e a integridade física do atleta.»1
O recurso a artimanhas para aumentar as possibilidades de vitória vem desde tempos muitos remotos, quiçá, desde que na mente do ser humano surgiu a ideia de competição. Confessa Milon de Cretone, várias campeão olímpico na Antiguidade, que já então os saltadores comiam carne de cabra e os lançadores e pugilistas carne de touro para elevarem as suas prestações.
De recursos de aparência ingénua, as práticas para adulterar o real valor de um atleta passaram a uma fase empírica, elegendo-se uma mistura de estricnina, conhaque e veneno de cobra como o supra-sumo das substâncias dopantes. Entra-se depois numa fase pseudo-científica, com o emprego de medicamentos para melhorar o funcionamento do aparelho cardio-vascular, como a digitalina, e de estimulantes psíquicos, como as anfetaminas.
Surgiu, a seguir, uma etapa caracterizada pela utilização de substâncias que, na altura, não eram detectadas pelo controlo anti-doping: corticóides, no ciclismo, tranquilizantes, no tiro, anabolizantes para avolumar a massa muscular na halterofilia, as transfusões de sangue para aumentar a resistência no esqui e nas provas de fundo de atletismo.
«Seja como for – lê-se na obra citada -, o doping é sempre perigoso, a mais que não seja porque brutaliza a natureza humana, em vez de a proteger». E logo adiante: «A engrenagem doping-luta-anti-doping é tal, hoje em dia, que a questão não está na despistagem das substâncias, mas na detecção dos produtos que escondem essas substâncias.»
Numa entrevista publicada recentemente pelo jornal A Bola, Domingos Gomes, membro do Painel Anti-Doping da UEFA e médico da FIFA, uma reconhecida autoridade no assunto, afirma haver «algumas preocupações quanto a substâncias para fortificar o ritmo cardíaco, mas, neste momento, os grandes inimigos são os transportadores e as hormonas de crescimento, que continuam a ser muito difíceis de detectar». O médico alerta, na mesma ocasião, para um facto relativamente novo no nosso e noutros países – o uso de substâncias ilícitas nos ginásios. «É um caso de saúde pública – acusa Domingos Gomes. – Seria mais fácil nem se falar nisto, porque há quem pretenda esconder o problema. Mas a verdade é que as pessoas procuram produtos que contêm substâncias altamente perigosas para a saúde, atraídas por questões estéticas. É preocupante o que se passa em alguns ginásios deste país.»
O médico fala claro: «Há uma máquina oculta em torno dos transportadores de oxigénio e da hormona de crescimento, que tem muito poder e consegue renovar-se.»
A verdade é que se o controlo anti-doping funciona com razoável rigor nos escalões superiores das modalidades profissionais, é quase inexistente, no nosso país, nos escalões inferiores e nas provas populares, onde consta que prolifera o uso de estimulantes proibidos, desde os juniores aos veteranos.
Será também altura de perguntar por que é que nunca soubemos dos resultados das autópsias a Féher e aos basquetebolistas Paulo Pinto e Angel Diaz. Há outros interesses, por trás dessas tragédias, que não o apuramento da verdade? Não nos custa a acreditar que sim. É que o doping, além de um possível êxito, dá a ganhar muito dinheiro.

1. L’Encyclopedie mondiale du sport, Éditions de Vaillant, Paris, 1980


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