• Francisco Mota

A crua realidade
Para: Waldemar Quaresma
– Barreiro

Se bem me lembro, aí pelos princípios dos anos 80, estávamos em Leipzig, e a empresa alemã com quem trabalhávamos convidou-nos para um almoço «especial» nos bosques da Saxónia. Como saberão muitos, um almoço destes não dá direito a perguntas, nem a explicações prévias. Estamos no domínio das relações comerciais e é bom sinal ser-se convidado. Portanto o convidado sorri, agradece e vai. Os que são religiosos rezam, os outros, nem isso.
De manhã um carro levou-nos por estradas cada vez mais dentro duma floresta bastante agradável, no meio da qual apareceu uma grande casa de madeira, linda e cheia de flores. Entrámos e fomos recebidos por várias jovens de garridos trajes, todas altas, loiras, de olhos azuis e grandes sorrisos sinceros.
Entrámos numa sala em que tudo era de madeira e entendemos que aquele era o cenário da homenagem que íamos receber.
Sentados, sorridentes e expectantes, vimos chegar nas mãos brancas das teutónicas moças, vários pratos de carne picada, vermelha ou cor-de-rosa, malgas com molhos, e outras com gemas de ovos, cebola, pepino e salsa picada: tudo cru.
Imagino que o nosso sorriso ficou um pouco mais idiota, até que o nosso anfitrião nos explicou: «Viemos aqui para que provassem os melhores bifes tártaros que existem: podem escolher entre carne de vitela, de novilho ou de porco. Aconselho-vos a que provem cada uma separadamente, com uma gema de ovo cru e os molhos e os vegetais de que mais gostem. Misturem tudo no vosso prato e comamos e bebamos: Prost!»– acabou levantando a grande caneca de cerveja.

Um tempero fundamental

O meu amigo Waldemar, barreirense praticante, susurrou-me: «Eh! Pá! O que é que fazemos?» Para mim estava claro: comer e não pensar na carne crua. Depois de duas ou três garfadas, vencida a repulsa ancestral, percebemos que era bom, muito bom. Comemos de tudo, emborcámos uns litros de cerveja, e no final com um café mauzinho, bebemos uns copos de doppfel-corn, ou seja a vodka alemã.
Quando se come bem, aparece sempre a vontade de filosofar sobre qualquer coisa. Neste caso era evidente o tema: Por que se chama «bife tártaro», ou na linguagem internacional «steak tartar»? Como sempre, há várias teorias, mas a mais expandida, é que os tártaros que tinham fama de grandes cavaleiros, colocavam pedaços de carne entre o selim e o cavalo. Quando cavalgavam a carne com a repetição dos movimentos ia-se suavizando e chegado o momento de comer só era preciso misturá-la com algum vegetal que estivesse à mão e pronto.
Estes tártaros, como lhes chamavam os europeus, são os grandes guerreiros mongóis que no século XIII, chefiados por Gengis Khan e sucessores, construíram um império que ia desde a Europa Central até à China.
Algo de verdade deve haver, mas a mim parece-me que alguém picou um dia uma carne para cozinhar depois, mas entretanto provou, juntou sal, pimenta e o que lhe apeteceu e chegou à conclusão de que era bom. Para fazer este e muitos outros pratos só é fundamental um tempero, sempre o mesmo: não ter medo de enfrentar novos sabores e de vencer bloqueios mentais que todos temos dentro. A fome e a necessidade ajudam muito na queda das certezas gustativas que se abrigam na frase máxima «Disso nunca hei-de comer na minha vida!»
No fim da tarde voltámos à cidade, agradecidos aos amigos e orgulhosos por nos termos saído bem daquela prova tão extrema. No caminho tu, Waldemar, disseste «Ena pá! Quando se souber no Barreiro!» Nunca percebi se a dúvida era positiva ou negativa. Prudentemente, como terás reparado, demorei cerca de 25 anos a revelar estes factos aos historiadores da Galaxia e da sua capital: o Barreiro.


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