Não estamos condenados ao atraso
«Jornadas Presidenciais» do ISCTE
Um caminho de esperança
A convite do Núcleo de Alunos de Economia e da Associação de Estudantes do ISCTE, Jerónimo de Sousa participou, na passada semana, na iniciativa «Jornadas Presidenciais».
Minutos antes do inicio do debate já a sala do auditório do Instituto Superior de Ciência do Trabalho e da Empresa (ISCTE), em Lisboa, estava repleta de gente. Muitos outros, enquanto fumavam um cigarro ou conversavam simplesmente sobre o seu dia-a-dia, esperavam, à porta, pela chegada de Jerónimo de Sousa.
Eram agora 14 horas e o presidente daquele «grupo» dava inicio ao debate. «Gostaria de fazer aqui três agradecimentos especiais, o primeiro, ao candidato Jerónimo de Sousa, que mostrou total disponibilidade para estar aqui entre nós, depois, a vocês, alunos, por estarem aqui presentes e que fizeram desta iniciativa um grande sucesso, e, por último, aos representantes do Núcleo de Economia de Economia», disse, informando que ali, anteriormente, estiveram todos os candidatos à excepção de Mário Soares, «por dificuldades de agenda», e de Cavaco Silva, «para quem a juventude não seria uma prioridade nestas eleições».
Sem nunca defraudar as expectativas dos alunos, Jerónimo de Sousa começou a sua intervenção com palavras de confiança, mas também de maturidade e experiência. «No tempo da ditadura fascista, quando, por razões económicas e sociais, me perguntavam o que é que eu queria ser quando fosse grande, essa pergunta nunca comportava a possibilidade de ser, por exemplo, economista ou sociólogo, até porque nesse tempo a sociedade era implacável, filho de operário tinha que ser operário, no quadro de uma elitização do ensino muito grande, de discriminação e impossibilidade das classes mais desfavorecidas poderem ter acesso ao ensino superior», afirmou, acentuando, ao contrário de outros candidatos, que «a juventude têm uma palavra crucial a dizer em relação ao futuro, até porque foi a juventude que determinou a vitória da democracia, da liberdade, do êxito da Revolução de Abril, e até no papel incontornável nas transformações sociais que se seguiram, na área do direito do trabalho, no ensino, da segurança social, ao direito de ter direitos».

Futuro negro

Perante uma plateia atenta e sedenta de conhecimento, Jerónimo de Sousa falou do que está em causa com estas eleições e como foi possível se ter chegado «a atrasos tão significativos no plano do ensino, da segurança social, do emprego, do desenvolvimento, da injustiça, que hoje atravessa a sociedade portuguesa».
«Muitas vezes, ao verem programas de televisão, aparecem muitas pessoas sapientes, economistas competentes, gente que têm opinião sobre as coisas, mas a primeira pergunta com que desafio a vossa inteligência, é, que, com tanta gente competente, chegámos a este ponto?», interrogou o candidato do PCP, dando como exemplo «os dois milhões de pobres, 200 mil dos quais em estado de miséria absoluta, com meio milhão de desempregados, 30 mil dos quais licenciados, que acreditaram que com a sua licenciatura iam sem capazes de encontrar a possibilidade de construir o seu futuro, com base nessa licenciatura, dificilmente alcançada com os sacrifícios de cada um, das suas famílias».
«Como é que é possível termos, hoje, reformados a ganharem menos de 200 euros ou trabalhadores a receberem 380 euros, menos do que isso tendo em conta os descontos, e simultaneamente, nunca como agora, haver tanta riqueza concentrada nas mãos de uns quantos», continuou, alertando os alunos sobre quem «foram os responsáveis, os causadores e as causas desta situação em que vivemos».

Constituição da República
Um rasto libertador da Revolução de Abril

O candidato esclareceu ainda sobre a importância e as competências do Presidente da República. «Depois de ser eleito e da sua tomada de posse, o Presidente da República jura defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República. Em segundo lugar, os poderes presidenciais não se transformam naquilo que havia antes do 25 de Abril, num corta-fitas, numa figura emblemática do regime», declarou Jerónimo de Sousa, sublinhando que os compromissos da candidatura do PCP se fundam precisamente na Constituição da República, «que continua a ser um rasto libertador da Revolução de Abril».
«Os apoiantes, por exemplo, da candidatura da direita consideram que a nossa Constituição é um bloqueio ao desenvolvimento. Nós, por outro lado, achamos que é fundamental, um grande pacto transversal da sociedade portuguesa, que possibilita, num quadro de uma visão, de uma democracia, que não é apenas política», disse, recusando a ideia de que a democracia é, como alguns a entendem, «em que eu possa dizer o que quiser, enquanto eles puderem fazer o que quiserem».
Alertou ainda para o risco de os poderes económicos se sobreporem aos poderes políticos. «A nossa Constituição da República define como condição fundamental, no plano da sua parte económica, que, por exemplo, o poder político deve sobrepor-se ao poder económico. A questão está em saber se esta Constituição está a ser cumprida, se esta vertente da democracia está a ser cumprida?», alertou.

Defesa dos direitos sociais

Jerónimo de Sousa alertou ainda os alunos do ISCTE para os processos de privatização dos direitos sociais. «Está muito em voga a ideia que o mundo mudou. A Constituição afirma logo no artigo 53 “que todos têm direito ao trabalho, o direito à segurança no emprego e à proibição dos despedimentos sem justa causa”. Em Portugal existe um milhão de trabalhadores, particularmente jovens. São esses os alvos preferenciais, num “acto de modernidade”, dos contratos a prazo, do trabalho sazonal com recibos verdes. O que está certo é a Constituição ou essa tese neo-liberal da chamada desflexibilização em nome da modernidade?», disse, lembrando, ainda, que «antes do 25 de Abril, o exercício ao direito à greve era penalizada com três anos de prisão, ou despedimento. Não havia direito a férias, não havia segurança no emprego, não havia direito a ter direitos».
Denunciou ainda a intenção deste e de outros governos de privatizar a escola pública. «No meu tempo filho de operário era operário; hoje, filho de operário, trabalhador, ou mesmo oriundo das classes médias, sujeita-se a não ser coisa nenhuma», afirmou, lembrando a intenção, por exemplo, do PSD, na Assembleia da República, de apresentar «uma proposta radical, onde se deveria privatizar tudo, escolas, creches, infantários, energia, transportes, etc. Estamos em profundo desacordo», disse.

Portugal tem futuro

Jerónimo de Sousa frisou também que a independência e a soberania nacional continuam a ser um valor indeclinável, uma fonte histórica actual. «Abril foi o acto mais moderno e avançado desta época contemporânea. Uma das primeiras coisas que fez foi acabar com uma guerra injusta, libertar outros povos e exigir a sua libertação, abriu-nos as portas ao mundo numa perspectiva de recuperação e de paz, afirmando esta pátria que, mal ou bem, foi construída por um povo concreto, durante 800 anos. Ao longo da sua história teve períodos tremendos, difíceis, mas, foi o povo, e não as classes dominantes, que lutou perante os invasores, que determinou que este País era para continuar, que Portugal tinha futuro.»
Em jeito de conclusão, Jerónimo de Sousa, numa mensagem de esperança e confiança, valorizou a candidatura do PCP. «Não estamos condenados ao atraso, ao desemprego, à injustiça, à desigualdade, não estamos condenados a que um conjunto de famílias detenha mais fortuna que um milhão de reformados, não estamos de acordo que se faça uma política de baixos salários, de discriminação no ensino, de direitos fundamentais. Não era esta a visão de Abril», terminou.


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