• Vitor Dias

Para este tipo de sondagem valem todas as reservas e prudências aplicadas às outras sondagens
Sondagem Marktest/DN/TSF
Muita parra, pouca uva
Não é arriscado conjecturar que a sondagem diária sobre intenções de voto nas presidenciais elaborada pela Marktest e quotidianamente divulgada pelo Diário de Notícias e pela TSF desde o passado dia 9 possa ter tido alguma repercussão sobre os «estados-maiores» das candidaturas e, seguramente em maior grau, sobre muitos leitores e ouvintes daqueles dois órgãos de informação.
Por isso mesmo, julgamos útil alinhar sobre esta sondagem um conjunto de informações e observações críticas. Assim:

1. Este tipo de sondagem é de facto inédito em Portugal e, pelo menos para os nossos costumes políticos, constitui um elemento extraordinariamente perverso no plano político e talvez também muito discutível do ponto de vista técnico. Trata-se da importação da chamada «tracking poll» praticada nos EUA e que consiste, conforme documento da Marktest disponível no seu site, em fazer uma sondagem inicial com 600/618 entrevistas e depois, em cada dia, ouvir 150 novos inquiridos e substituir os 150 mais antigos, o que significa que só ao fim de quatro dias a amostra está totalmente renovada, estando entretanto previsto que em 15,16,17 e 18 de Janeiro esse número subirá para 350.

2. Em nossa opinião, a acentuada perversidade política desta sondagem está em que, pelo seu próprio objectivo – mostrar a evolução das intenções de voto dia a dia – tem um grau ainda maior de «atractivo» e de «credibilidade» para o cidadão comum quando, na verdade, para este tipo de sondagem valem, de forma agravada, todas as reservas e prudências que se deviam aplicar às outras sondagens.

3. Na verdade, sem que a generalidade dos leitores se aperceba disso ou disso tome completa consciência quanto às consequências, a famosa evolução diária das intenções de voto resulta afinal da inquirição de 150 pessoas, o que constitui uma amostra pequeníssima (ainda por cima numa sondagem feita pelo telefone). E se a Marktest diz que esta sua sondagem (supõe-se que globalmente) tem uma margem de erro de 3,97 %, já não nos diz no entanto qual é a margem de erro desta inquirição diária de 150 pessoas, a qual tem de ser necessariamente mais elevada. Uma coisa é certa: numa «tabela de erros» que publica no documento acima referido, a Marktest desvenda que uma sondagem baseada em 200 pessoas pode ter margens de erro (variáveis segundo a votação de cada candidato) que vão dos 3% (para quem tiver 5% dos votos) até aos 6,9% (para quem tiver 55% dos votos). E explica também aquilo que toda a gente tende a esquecer, ou seja o que significam as «margens de erro»; com efeito, diz a Marktest na página 8 do citado documento:: «O que é que significa (no caso de um candidato com 11,2% na sondagem) uma margem de erro de 2,6% com um grau de confiança de 95%? Significa que (com uma probabilidade de 95%) o resultado efectivo deve encontrar-se entre os 11,2 menos 2,6 e 11,2 mais 2,6, isto é entre 8,6% e 13,8%». Ora o que é por demais evidente, mas disso ninguém avisa os leitores do DN e os ouvintes da TSF, é que as famosas variações diárias nas intenções de voto de cada candidato caem todas dentro da margem de erro e podem portanto ou nem sequer existir ou terem outras quantificações.

4. Como muitas outras, esta sondagem e os seus resultados podem sempre ser afectados por dois fenómenos muito conhecidos: um é o valor que a abstenção virá a ter no dia 22 porque há manifestamente muitos eleitores que «votam» nas sondagens mas não põem os pés nas assembleias de voto; outro é que esta sondagem também pratica o método de distribuir os que não sabem, não respondem, não votam e votam em branco (no total, quase sempre à volta dos 20-21%) na proporção das intenções de voto realmente manifestadas em cada candidato, o que ninguém sabe se virá a acontecer assim, por maioria de razão numa eleição em que é legítimo admitir que haja mais indecisos à esquerda do que no campo eleitoral da direita. Mas tem um problema suplementar que deriva do facto de, com excepção de Cavaco Silva, todos os outros candidatos, em grau diverso, aparecerem com intenções de voto médias ou mais pequenas a que correspondem necessariamente amostras de inquiridos igualmente médias ou mais pequenas, o que potencia naturalmente desvios e erros.

5. A questão fica mais clara se dissermos que nesta sondagem e no seu tratamento jornalístico o grande truque está em falar só de percentagens e nunca do número de pessoas que elas representam. A este respeito, é bom lembrar que no arranque inicial da sondagem, e falando dos resultados brutos, aos 47,9% atribuídos a Cavaco Silva correspondiam as intenções de voto de 291 inquiridos; aos 11,2% atribuídos a Mário Soares as de 68 inquiridos; aos 9% atribuídos a Manuel Alegre as de 55 inquiridos; aos 5,4% atribuídos a Jerónimo de Sousa as de 33 pessoas; aos 4,8% atribuídos a Francisco Louçã as de 29 pessoas; aos 0,2% atribuídos a Garcia Pereira a de 1 inquirido (matematicamente, com mais uma pequena parte de outro inquirido). A estes 478 inquiridos que expressaram intenções de voto concretas inquiridos há que juntar, para completar o universo da amostra, 130 inquiridos que constituem o grupo dos «não sabe», «não responde», «não vota» e «vota em branco».

6. Mas, dado o método específico desta sondagem que é a inquirição de 150 inquiridos em cada dia, importa saber afinal a quantas pessoas correspondem as «excitantes» variações díárias das intenções de voto. O que se desvenda explicando que, nesta amostra diária de 150, para manterem as intenções de voto com que arrancaram na sondagem no dia 9/1, os candidatos teriam de ter, em cada dia as intenções de voto de 73 inquiridos para Cavaco Silva, de 17 para Mário Soares, de 14 para Manuel Alegre, de 8 para Jerónimo de Sousa, de 7 para Francisco Louçã e de ¼ de inquirido para Garcia Pereira.
Ou seja, as flutuações diárias que a sondagem Marktest/DN/TSF apresenta no que respeita a cinco candidatos correspondem a amostras eleitorais muito diminutas, que não dão nenhuma segurança, que são propícias a desvios significativos e em que as proclamadas oscilações podem muito bem ser filhas de mero bambúrrio ou acaso. Talvez fique tudo dito se explicarmos que basta Jerónimo de Sousa, num determinado dia, nas 150 inquirições, em vez de ter os tais 8 cidadãos que declaravam a sua preferência pelo candidato comunista, os telefonemas apenas encontrarem 5 para aparecer como tendo perdido 0,5 pontos percentuais, passando por exemplo de 5,4% para 4,9% nos resultados brutos e, em termos de estimativa, passar dos 6,9% iniciais para 6,2%. E, como é bom de ver, para recuperar dessa alegada baixa, precisaria que, no dia seguinte, os telefonemas, em vez de 8 votantes em Jerónimo de Sousa, encontrassem 11.

7. À beira do fim, ainda quatro notas suplementares. A primeira é para estranhar que, segundo a decomposição geográfica da amostra divulgada pela Marktest, seja no «Interior Norte» que há o maior número de inquiridos 135 - mais 13 que na «Grande Lisboa» a qual, se significar os distritos de Lisboa e Setúbal, tem apenas essa ridicularia de 2.466.711 eleitores inscritos. A segunda é para registar que a Marktest, pelas referências que faz à fidelidade de voto e à composição partidária do voto de alguns candidatos, sabe qual é a composição política da amostra e, se assim é, devia divulgá-la para termos a certeza de que não há fenómenos de sobrerepresentação e subrepresentação. A terceira é para, pela enésima vez nestes últimos 20 anos, continuarmos a estranhar que, nas noites das eleições, as empresas de sondagens e os órgãos de comunicação social publicitem resultados das sondagens à boca das urnas sempre com margem de variação ou incerteza ( por exemplo, partido tal entre 38 e 42% ou partido tal entre 6 e 8%) mas já nunca o fazem durante os outros 364 dias do ano. A quarta e última nota é, evidentemente, para reafirmar que mal fará quem deixar que a sua consciência, convicções e vontade sejam atropeladas pela influência das sondagens.


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