Editorial

«Que fazer? Lutar, obviamente. E, para que a luta tenha mais força, tornar mais forte o Partido»

ISTO ANDA TUDO LIGADO

Multiplicam-se os estímulos e elogios à «cooperação estratégica» entre Cavaco Silva e José Sócrates. Especula-se sobre se, sim ou não, é necessário depositar – democraticamente, é claro - nas mesmas mãos partidárias a tríade governo-presidência-maioria. Os analistas do costume procedem à comparação entre os dois governantes, os partidos que representa(ra)m e os governos de que foram (são) responsáveis. As conclusões tendem a unanimizar-se: são nulas as diferenças entre Cavaco Silva e José Sócrates, entre o PSD e o PS, entre os governos PSD e os governos PS. Ou seja: aquilo que o PCP vem dizendo e demonstrando há trinta anos – a saber: que, «nas questões essenciais, nem com uma forte lupa é possível detectar qualquer diferença entre as políticas dos governos do PS e do PSD» – e que de há muito vem sendo considerado, pelos mesmos analistas, como uma manifestação de sectarismo ortodoxo, é-nos agora apresentado, com cândida naturalidade, como coisa incontestável e, naturalmente, louvável.
Percebe-se: Belmiro de Azevedo já dissera, na campanha eleitoral, que Cavaco era o seu PR e Sócrates o seu PM – e ele bem sabia o que dizia. Agora, é o presidente do BCP, entre outros seus gémeos, a garantir que PR e PM «dar-se-ão muito bem» e a explicar porquê: «São ambos pessoas muito determinadas, muito viradas para a acção, muito pragmáticas e que sabem ler e entender os sinais do tempo». Claro: se não soubessem ler esses sinais não eram PR e PM.
Quer isto dizer que a tal tríade, aparentando não estar, está, de facto, nas mesmas mãos. E de algum modo sempre esteve. Só que com a eleição de Cavaco Silva está mais do que antes estava: porque está mais e mais solidamente do que em qualquer situação anterior ao serviço da política de direita, que é, como se sabe, a política que melhor serve os interesses do grande capital. Daí que os perigos sejam maiores. E as exigências da luta também.

Entretanto, e graças a essa política, os lucros dos bancos disparam e atingem números escandalosos. Os três maiores bancos privados - BCP, cujo presidente entende os sinais do tempo, BES e BPI - tiveram, em 2005, um «resultado líquido de 1.258 mil milhões de euros», o que corresponde a um aumento de 55,5% em relação ao ano anterior, enquanto as condições de vida da imensa maioria dos portugueses pioraram brutalmente.
Pelas mesmas razões e na mesma lógica, as fortunas das famílias mais ricas aumentaram também escandalosamente, e os seus chefes prosseguem a sua corrida empolgante: Belmiro de Azevedo – o que vê em Cavaco e Sócrates os seus PR e PM ideais - com 1,7 mil milhões de euros, ultrapassou José de Melo (1,6) à tangente e ocupa o primeiro lugar, mas eis que se aproxima um terceiro com 1,4 mil milhões e ali vem um quarto com 1,2 mil milhões, e por aí fora… Fortunazonas todas obtidas, como nos é dito frequentes vezes, à custa de muito trabalho, de muitas noites sem dormir, de anos seguidos sem férias, enfim, de muito sofrimento. Daquele sofrimento de que é feita a vida de todos os homens ricos – e quanto mais rico mais sofrimento – quase sempre «vindos do nada», «subindo a pulso na vida», confirmando a mais valia da sociedade baseada na «igualdade de oportunidades».

Ainda há dias nos visitou um exemplar dessa espécie, por sinal o «homem mais rico do mundo», conhecido também pela sua filantropia, assim exemplificando a máxima capitalista que diz: é preciso que os ricos sejam cada vez mais ricos para poderem dar maiores esmolas aos pobres. Com efeito, diz-se que este homem dá esmolas às carradas e, dizem-nos os média lusitanos, para isso cá veio e presidiu ao acto esmoler de inaugurar em Portugal «um projecto-piloto a nível internacional» - só vantagens para Portugal e para os portugueses, como não podia deixar de ser, vantagens que, como já sabemos e mais tarde sentiremos na pele, hão-de vir a traduzir-se no aumento da riqueza do «homem mais rico do mundo». Por isso, o homem foi recebido com honras nacionais: Presidente da República, primeiro-ministro, ministros vários prestaram-lhe a vassalagem exigida, condecorando-o, falando-lhe em inglês para não o sujeitar a ouvir esta língua bárbara que é o Português, assinando, perfilados e nos prazos por ele marcados, tudo o que ele lhes ordenou que assinassem – enfim, envergonhando Portugal e os portugueses e aviltando-se num acto de servilismo bacoco que seria apenas ridículo se não fosse um degradante sinal do tempo.

Isto anda tudo ligado, como sabemos: porque do outro lado dos que se apropriam da riqueza produzida estão os que produzem a riqueza, do outro lado dos lucros fabulosos e das fabulosas fortunas estão os trabalhadores explorados, as vítimas da fome, os famélicos da terra; se há crise – e há sempre crise – exige-se a quem trabalha e vive do seu trabalho que aperte o cinto: os lucros fabulosos têm que ser ainda mais fabulosos (o BES tem que ultrapassar o BCP e ambos têm que aumentar os lucros); as fabulosas fortunas têm que ser ainda mais fabulosas (Melo tem que ultrapassar Belmiro, tendo ambos que ser cada vez mais ricos). É esta a lógica deste sistema que tem em Cavaco Silva e José Sócrates um par de fidelíssimos executantes, desta ditadura de uma escassa minoria que, em nome da democracia, explora e oprime a imensa maioria.
Que fazer? Lutar, obviamente. E, para que a luta tenha mais força, tornar mais forte o Partido. O nosso: que é o da classe operária, dos trabalhadores, dos explorados, da justiça social, da liberdade, da democracia, dos direitos humanos.


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