• José Augusto

Vilar de Mouros
Um ponto vermelho<br> no coração do Minho
Vilar de Mouros dos festivais, do espírito de esquerda e do presidente comunista
Vilar de Mouros é daquelas freguesias que tem de ser tratada com respeito quando sobre ela se escreve ou dela se fala. Encravada no verdejante Vale do Coura, rio que a corta ao meio, a esta aldeia estão ligados milhares de portugueses de todos os pontos do País que dos festivais guardam das mais belas recordações da sua existência. Cercada por arredores politicamente adversos, Vilar de Mouros é gerida pela CDU desde 1989: é um ponto vermelho-vivo numa paisagem agarrada ao verde durante as quatro estações do ano. Carlos Alves, o presidente da Junta de Freguesia, é um comunista consciente das dificuldades que tem de enfrentar quotidianamente na gestão da autarquia, dificuldades que não ferem a sua visão optimista da vida e do futuro.
É impossível falar de Vilar de Mouros sem referir o Festival, o mais antigo realizado no nosso país e, por certo, o mais conhecido e procurado. «O festival foi lançados pelo Dr. António Barge, primeiro (em 1965), como festival de folclore, mas fomos nós que o revitalizámos em 1996, trazendo à nossa terra artistas de gabarito internacional», diz-nos Carlos Alves. «Em termos musicais correu bem, mas foi um fracasso no capítulo financeiro e organizativo. O festival prolongou-se uma semana, com jovens vagueando sem dinheiro, sem comida, sem roupa. Lavavam-se no rio, nus. Ora, tudo isto desencadeou uma onda de descontentamento em muita gente da freguesia. Mas em boa hora o relançámos.»
Hoje, sublinha o autarca, a coisas são diferentes, «o festival está consolidado, é acarinhado por todos, existe o reconhecimento da sua importância para a freguesia, para o concelho e até para a região».

As eternas dificuldades
e falta de meios


O que Carlos Alves nos vai dizer é conhecido, pois acontece a muitas juntas de freguesia da CDU localizadas na jurisdição de câmaras de outro quadrante político. A Câmara de Caminha, por exemplo, é do PSD. «A Câmara empurrou-nos para um protocolo, mas não assumiu totalmente as suas responsabilidades. Quis apenas assumir um protagonismo que não lhe competia», acusa o autarca de Vilar de Mouros. «O curioso, é que o protocolo de descentralização de meios e competência funcionava desde o 25 de Abril. Agora, acabou, e nem sequer temos meios para limpar as valetas. As dificuldades são muitas». E prossegue: «Há câmaras que têm dinheiro a rodos e esbanjam-no, enquanto as freguesias recebem uma ninharia do Orçamento do Estado. Por exemplo, o nosso orçamento é de 4 500 contos. Por outro lado, aumentaram-nos o IVA e as prestações sociais com os funcionários».
«Muitas» e «imensas» são palavras a que Carlos Alves recorre para caracterizar as contrariedades. «É triste conhecermos perfeitamente os problemas da população e nada podermos fazer por carência de meios. Por falta de dinheiro e descentralização de competências, estamos manietados na acção nas áreas de acessibilidades, abastecimento de água e habitação social.»

Só licenças para cães

O presidente da Junta de Vilar de Mouros desabafa: «Dá a impressão que querem que a nossa função se limite à passagem de licenças para cães. Quando a Câmara delegava competências, ainda conseguíamos fazer alguma coisa. Agora, delapida dinheiro em obras de duvidosa utilidade, enquanto deixa por solucionar os problemas reais. O esbanjamento de dinheiros públicos deveria ser mais severamente condenado em tribunal. Esta é a minha opinião.»
Apesar de tudo, a autarquia tem vários projectos entre mãos, que Carlos Alves enumera: «Um centro de apoio à terceira idade, alargamento do cemitério, melhoria das acessibilidades (que até há pouco era tarefa da nossa responsabilidade, mas a Câmara está a fazer pressão para a suspender). Entretanto, no domínio da habitação social, entregámos três casas e gostaríamos de entregar mais, mas não há dinheiro. Num outro campo de acção, denunciámos o estado precário da ponte romana e exigimos a construção de outra sobre o Coura, de extrema necessidade. Aliás, no último mandato, foi muito importante a nossa luta contra projectos de impacto negativo que nos queriam impor.» Quais? «Por exemplo, o corte horizontal do monte e viadutos enormes por cima da freguesia. Com a comissão de moradores, afrontámos essas soluções de impacto negativo. Fizemos até um protesto de rua, quando da visita de Durão Barroso. Ainda hoje estou na situação de arguido, porque alguém chamou a GNR por não termos cumprido todos requisitos exigidos para se levar para a frente a manifestação.»

A tradição antifascista
de Vilar de Mouros


Carlos Alves explica assim o êxito da CDU na freguesia: «Em Vilar de Mouros sempre houve uma tradição antifascista. Aqui, Humberto Delgado ganhou as eleições presidenciais de 1958. Talvez tivesse contribuído para isso a existência, na aldeia, de um centro republicano. Por outro lado, também o PCP goza desde há muito de forte implantação, reforçada após o 25 de Abril. Sempre houve um espírito de esquerda, para o que muito concorre a base de apoio e organização do Partido.»

O festival dos festivais
em terras portuguesas


Em 1965, Vilar de Mouros recebe o primeiro festival, este limitando-se ao folclore, organizado por António Barge. Três anos depois, o festival evolui para outro género de música, como o indica o nome dos artistas convidados: Zeca Afonso, Carlos Paredes e Manuel Freire. É evidente que a PIDE começou a movimentar-se, e disso existem documentos de sobra.
Todavia, este Festival de 1968 teve algo de histórico, pois nele se encontraram pela primeira vez Zeca Afonso e Manuel Freire. Num álbum deslumbrante, intitulado «Vilar de Mouros – 35 Anos de Festivais», da autoria de Fernando Zamith, descreve-se assim esse momento, que todos teríamos gostado de testemunhar.

Foi na casa ao cimo do Caminho de Chêlo, onde se encontravam os verdadeiros «bastidores» do festival, que Zeca Afonso veio a conhecer Manuel Freire, então um cantor pouco conhecido que ainda «não sabia nem sonhava» que a sua Pedra Filosofal iria ter tanto êxito. «Manuel Freire conheceu Zeca Afonso aqui ao lado, na varanda da nossa casa», conta Isabel Barge. «Tornaram-se amigos e logo aí o doutor José Afonso, como era oficialmente tratado, convidou Manuel Freire, então com 26 anos, para cantarem juntos, o que aconteceu duas vezes na semana seguinte.»

Porventura, nada melhor do que alguns pontos do índice da obra referida para, de forma sucinta, ficarmos com uma ideia da importância deste festival. Passo a citar:

1971. Elton John e Manfred Mann no “Woodstock português”
1982. U2, Stranglers e Durutti em nove dias de loucura controlada
1985. Trovante e Emílio Cao no molhado 1.º Encontro de Música Popular
1996. Stones Roses e Madredeus na profissionalização de Vilar de Mouros
1999. Pretenders estreiam edições anuais no novo recinto
2000. Alanis Morissette, Iron Malden e Skun Anansie no “super-cartaz” de todos os recordes
2001. O ano Nell Young
2002. Manu Chao, Lamb, Rammstein, Bush e UB40 no festival heterogéneo
2003. O regresso do rock frenético
O Festival de Vilar de Mouros marcou e continua a marcar o panorama musical do nosso país. Impulsionado por pessoas de boa vontade, ele prosseguirá o seu caminho, num ambiente de liberdade e encontro de culturas.



 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: