Se o PCP é o que é, muito o deve a militantes como José Vitoriano

Na morte de José Vitoriano
Uma vida que se confunde<br> com a luta de um povo
Falecido na madrugada do dia 3, José Vitoriano deixa «o seu elevado exemplo e um fascinante testemunho da força do ideal, das convicções e coerência da luta», afirmou, no funeral, o secretário-geral do PCP.
Tinha oitenta e oito anos e uma inesgotável alegria de viver. Poucos adivinhariam, olhando para José Vitoriano, o percurso da sua vida e as histórias que ela encerrava. Discreto, raras vezes empregava a primeira pessoa para contar alguma das muitas histórias que fizeram a história da sua vida. E, quando o fazia, era como se relatasse acontecimentos banais, quase insignificantes, e não, como era o caso, episódios ímpares da resistência antifascista portuguesa, páginas heróicas da história nacional.
Olhando para José Vitoriano, era difícil perceber quanta força, quanta coragem, quanta determinação e quanta convicção cabiam no seu pequeno corpo. Olhando a sua figura aparentemente frágil, não era fácil imaginar os sofrimentos, as torturas, as privações por que passou na sua longa vida de militante comunista. Raras vezes o sorriso abandonava o seu rosto.
A notícia da sua morte surgiu na manhã de sexta-feira, dia 3. O secretariado do Comité Central, informava do sucedido «com profunda mágoa e tristeza». Por todo o País, militantes e organizações do Partido enviavam condolências em coroas de flores, na sua maioria cravos, semelhantes aos que em Abril floriram. Muitos faziam-se à estrada e rumavam a Lisboa, onde o corpo do histórico comunista jazia em câmara ardente. De olhos tristes caíam lágrimas e, em conversas, contavam-se histórias que tiveram em José Vitoriano o principal protagonista. As mesmas histórias que a sua imensa e sincera modéstia nunca revelaram. Nestes momentos, os sorrisos tomavam o lugar das lágrimas e dos semblantes carregados.
Em mais de sessenta anos de empenhada militância comunista, José Vitoriano fez muita coisa: Foi presidente do Sindicato dos Corticeiros de Faro, dirigente clandestino, passou mais de dezassete anos nas cadeias fascistas e, conquistada a liberdade, foi deputado e vice-presidente da Assembleia da República. Em todas estas tarefas (e muitas outras) e nas contingências da vida e da luta contra o fascismo, conheceu pessoas, despertou afectos, fez amigos.
E foi muita desta gente que esteve presente no último adeus a José Vitoriano: Militantes mais antigos ou mais recentes, familiares, camaradas que com ele partilharam a dureza da prisão e da vida clandestina, actuais e antigos dirigentes do PCP. Coberta com a bandeira vermelha do seu Partido, a urna com o corpo de José Vitoriano chegou ao cemitério dos Olivais a meio da tarde de sábado.
Depois de prestar homenagem, junto à urna, ao histórico dirigente comunista e de cumprimentar o seu filho Carlos, o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, fez uma sentida intervenção (ver caixa), que emocionou os presentes. No final, todos cantaram, em tom baixo, A Internacional, hino da luta a que José Vitoriano consagrou toda a sua vida.

Jerónimo de Sousa
«Integrar o seu exemplo
no nosso projecto»


«Este é um momento de profunda tristeza. O nosso querido camarada José Vitoriano deixa-nos para sempre», afirmou Jerónimo de Sousa perante as centenas de pessoas que compareceram, no sábado, ao funeral do histórico dirigente comunista. Aos que prosseguem o seu combate, destacou o secretário-geral do PCP, cabe «acolher o seu elevado exemplo e um fascinante testemunho da força do ideal, das convicções e coerência da luta, da indiscutível ligação ao povo dos comunistas portugueses».
Lembrando a vida de José Vitoriano, o secretário-geral comunista destacou a sua entrada muito jovem no Partido e a sua dedicação de toda a vida «aos trabalhadores e à luta do nosso Partido». Jerónimo de Sousa realçou a coragem e o carácter para «resistir aos esbirros que o prenderam, maltrataram e torturaram sem claudicar perante os torturadores» e o facto de ter passado 17 anos nas prisões, «sem que o seu ânimo desfalecesse».
Para Jerónimo de Sousa, «o que dá aos militantes comunistas a força para uma tal coerência é qualquer coisa de muito profundo que distingue os comunistas e distingue a intervenção do PCP na vida nacional». E José Vitoriano era «um exemplo nobre do comunista que não o era para satisfazer ambições nem interesses pessoais, nem proventos ou privilégios, antes o comunista com um ideal libertador, com uma conduta revolucionária que sempre considerou até ao fim da vida a acção política como uma forma de servir os trabalhadores, servir o povo, servir o País».
Destacada pelo secretário-geral do PCP foi a dimensão humanista de José Vitoriano. «Dizia ele, porque não tinha inimigos pessoais, que não sabia se isso era uma qualidade ou um defeito. Mas era uma qualidade ímpar. O camarada Álvaro Cunhal no momento da comemoração do octogésimo aniversário do nosso José Vitoriano afirmou que se desejasse ser parecido com alguém desejaria ser como José Vitoriano», lembrou Jerónimo de Sousa. Para o secretário-geral, se o PCP é «uma grande força política nacional, se tem como tem tão profundas raízes no povo» isto deve-se à «luta, à dedicação, à conduta revolucionária de gerações e gerações de comunistas integrando nas suas fileiras militantes como José Vitoriano».
Olhando para o futuro, Jerónimo de Sousa mostrou-se confiante que «o Partido Comunista Português será sempre digno daqueles que por ele e com ele lutaram ao longo dos anos e lutam no presente». Como exemplo da determinação de José Vitoriano em prosseguir a luta e reforçar o Partido, Jerónimo de Sousa destacou o «último esforço» feito pelo histórico dirigente comunista em votar nas presidenciais do passado dia 22, quando já se encontrava muito debilitado.
Para o secretário-geral do PCP, uma coisa é certa: «O exemplo e o testemunho vivo do “Zé” Vitoriano há-de perdurar na nossa memória, mas, talvez não menos importante do que isso, há-de integrar o nosso projecto na construção do futuro».

Nota do Secretariado do CC
Breve biografia de uma vida cheia


Em comunicado do dia 3, o Secretariado do Comité Central do PCP informou, com «profunda mágoa e tristeza», do falecimento aos 88 anos, e após prolongada doença, de José Rodrigues Vitoriano, «destacado resistente antifascista e militante comunista, cuja longa vida se confunde com a luta dos trabalhadores e do Partido Comunista pela liberdade, a democracia e o socialismo».
Operário corticeiro, José Vitoriano aderiu ainda jovem ao Partido Comunista Português em 1941, tendo ingressado nos seus quadros de funcionários em 1951. Foi Presidente do Sindicato dos Operários Corticeiros do Distrito de Faro, de 1945 a 1948, e pertenceu à Comissão Sindical Nacional do PCP de 1947 a 1948.
Preso a primeira vez pela PIDE em 1948, foi libertado em Maio de 1950, tendo passado à clandestinidade pouco tempo depois. Preso novamente em Janeiro de 1953, foi condenado a 4 anos e «Medidas de Segurança». José Vitoriano acabaria por ficar preso até Agosto de 1966.
Uma vez fora das prisões, ingressou novamente na clandestinidade, em Janeiro de 1967, situação em que se encontrava na altura do 25 de Abril. No total, José Vitoriano passou 17 anos nas cadeias fascistas.
Membro do Comité Central de 1967 a 2000, José Vitoriano integrou o Secretariado do CC entre 1968 e 1972, tendo sido membro da Comissão Política de 1976 a 1988. Entre este ano e o ano 2000 integrou a Comissão Central de Controlo.
Foi deputado à Assembleia da República de 1977 a 1987 e seu Vice-presidente até 1984.

CGTP homenageia

Também a CGTP-IN, através da Comissão Executiva, manifestou o seu pesar pela morte de José Vitoriano. «Profundamente identificado com os problemas dos trabalhadores, José Vitoriano lutou abnegadamente, durante toda a sua vida, pela emancipação da classe trabalhadora e pela melhoria das suas condições de vida», destaca a central sindical.
Afirmando que o comunista falecido foi «um importante precursor da luta sindical anti-corporativa», a Comissão Executiva da CGTP-IN recorda que foi pelas suas actividades sindicais e antifascistas que esteve preso durante 17 anos pelo fascismo. «Em reconhecimento do seu importante papel na luta contra a ditadura, pela conquista das liberdades no nosso país e do seu contributo para a causa do sindicalismo, a CGTP-IN decidiu homenagear José Vitoriano, integrando-o na Comissão de Honra do seu IV Congresso, realizado em Lisboa, em Março de 1983», realçou a Comissão Executiva.


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