Editorial

«A história do Avante! é parte grande da história da luta pela liberdade e pela democracia»

A VOZ DOS QUE NÃO TÊM VOZ

Comemorar setenta e cinco anos de vida é sempre, para qualquer jornal, um acontecimento relevante e cheio de significado. Mais ainda quando, como é o caso do Avante! – caso único na imprensa portuguesa e, em vários aspectos, igualmente único à escala mundial – quarenta e três desses setenta e cinco anos foram vividos sob um regime fascista, nas mais difíceis condições de clandestinidade.
Órgão central do PCP, o Avante! foi, desde o seu nascimento, em 15 de Fevereiro de 1931, o organizador colectivo, o agitador colectivo, o propagandista colectivo ao serviço da unidade, da coesão e do fortalecimento do Partido, ao serviço da resistência antifascista, da luta pela democracia, pela liberdade, pela defesa dos interesses e direitos da classe operária, dos trabalhadores, do povo e do País. Sempre numa postura assumida frontalmente, sem subterfúgios nem hipocrisias, definidora inequívoca de um posicionamento inequívoco: do lado dos explorados e contra os exploradores; do lado do trabalho e contra o grande capital; do lado da liberdade e contra a opressão. Nesses quarenta e três anos de existência clandestina, o Avante! – sempre escrito, composto e impresso no interior do País - foi o único jornal que não se submeteu aos ditames da censura fascista, foi a voz dos trabalhadores e do povo, dos humilhados e ofendidos, foi a voz dos que não tinham voz.

A história heróica dessas mais de quatro décadas da vida do Avante! é parte grande da história da luta pela liberdade e pela democracia, contra a opressão e a exploração. É uma história toda ela feita de militância revolucionária, de dedicação, de entrega, de coragem, de dignidade, de um conjunto de valores nascidos da confiança no ideal e no projecto de que o Partido Comunista Português é portador. É, por isso, uma história que só poderia ter os protagonistas que teve – militantes comunistas – e nenhuns outros.
Os homens e as mulheres, que, durante esses tempos sombrios, sujeitos às consequências da brutal repressão fascista – traduzida na prisão, na tortura, na morte – levaram a cabo essa epopeia que foi a construção do Avante! clandestino, não eram seres de coragens predestinadas: eram, tão somente, homens e mulheres que, integrando o colectivo partidário comunista, amavam a liberdade e a justiça e por elas lutavam assumindo os riscos inerentes; que acreditavam que um mundo novo, liberto de todas as formas de opressão e de exploração, era possível e a esse objectivo dedicavam as suas vidas; que tinham a consciência do seu papel na construção desse futuro e dignamente a assumiam; que agiam em coerência com o que pensavam e sonhavam – e que, por isso, permanecem como referências marcantes para todos os militantes comunistas que, hoje, dão continuidade a essa luta e honram esse passado.

Que assim é provam-no a actividade do PCP e do Avante! nos trinta e dois anos de vida em liberdade, na liberdade conquistada em Abril. Nesse tempo novo, o nosso jornal soube honrar a memória e o exemplo dos construtores do Avante! clandestino, ocupando o lugar que lhe competia. E, como em relação ao tempo do fascismo não é possível fazer a história do nosso País sem consultar o órgão central do PCP, também a história dos grandes momentos do tempo posterior à ditadura está gravada, impressiva e singularmente, no jornal dos comunistas portugueses.
Nos dias e meses que se seguiram ao derrubamento do fascismo, o Avante! foi a voz das massas em movimento: conquistando a liberdade exercendo-a; avançando para as grandes conquistas revolucionárias – reforma agrária, nacionalizações, controlo operário; dando os primeiros passos na construção de uma democracia avançada na qual, às componentes política, económica, social e cultural, se aliava a vertente de participação popular sem a qual não há democracia plena. E é necessário sublinhar que nenhum outro órgão de comunicação social expressou, como o Avante! , todo o exaltante processo que conduziria à consagração dessa democracia avançada, com os seus históricos avanços civilizacionais, na Constituição da República Portuguesa aprovada em 2 de Abril de 1976 – processo e avanços que fizeram da revolução de Abril o momento mais luminoso da história de Portugal.

Também nos quase trinta anos de contra-revolução, o Avante! tem cumprido o papel que lhe é exigido. Ele ocupou desde o início a primeira fila da luta pela defesa de Abril e dos seus ideais – luta difícil, árdua, desgastante, travada contra adversários e inimigos dispondo de recursos incomensuráveis, mas luta que continua todos os dias e todos os dias confirma a sua necessidade, a sua indispensabilidade, a sua importância determinante.
Essa luta constante dos trabalhadores e do povo português contra três décadas de política de direita – que outra coisa não é se não a política da contra-revolução de Abril – praticada pelo PS e pelo PSD (sozinhos, de braço dado, ou com o CDS atrelado) tem tido no Avante! o seu difusor mais dedicado, o seu porta-voz de todos os momentos.
E neste tempo em que, em consequência dessa política de classe, se agravam as condições de vida e de trabalho da imensa maioria dos portugueses, em que o desemprego e o trabalho precário crescem, a exploração se acentua, as desigualdades se aprofundam, a soberania nacional é aviltada; e em que, em consequência de uma nova ordem comunicacional ao serviço do grande capital, se silenciam as razões, os direitos e os interesses de quem trabalha e vive do seu trabalho, o Avante! permanece no seu posto de combate e continua a ser a voz dos que não têm voz.


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