«Na filmagem ouvem-se as crianças a implorarem, mas as agressões continuam»
Repressão no Iraque
Vídeo mostra brutalidade
Fotos divulgadas pelo News of the World mostram soldados ingleses a espancar crianças iraquianas. O governo de Blair desculpa-se afirmando tratar-se de um caso isolado.
O jornal britânico News of the World revelou, na sua edição de domingo, fotos feitas a partir de um vídeo que põe a nu a repressão e a violência dos ocupantes no Iraque.
As imagens que correm mundo provocando uma onda de indignação mostram um grupo de soldados a espancar com brutalidade alguns iraquianos, a maioria dos quais crianças.
Inicialmente, a autenticidade das imagens chegou a ser colocada em causa, versão que o periódico rejeitou prontamente garantindo não se tratar de uma montagem. As autoridades de Londres não insistiram no desmentido e optaram pelo discurso de circunstância, isto é, afirmaram empenho na busca e punição dos responsáveis e sublinharam tratar-se de um caso isolado que não ilustra o comportamento do exército inglês desde a invasão do país. O facto é que, desde 2003, sucedem-se as denúncias de situações semelhantes com provas igualmente contundentes de maus tratos.
O episódio - alegadamente registado por um militar com o objectivo bizarro de se divertir e entreter os restantes companheiros - faz recordar as torturas levadas a cabo pelo exército norte-americano na prisão de Abu Grahib e terá ocorrido em 2004, na cidade de Bassorá, no Sul do Iraque.
Após um protesto popular, os soldados decidiram levar alguns dos participantes para um complexo militar onde, ininterruptamente, os «castigam» ao soco, ao pontapé e à bastonada.
Na filmagem que dura pouco mais de um minuto, ouvem-se os jovens e as crianças a implorarem, mas as agressões continuam enquanto o soldado encarregue de captar a cena instiga a violência gritando «agora é que vocês vão ver como é».

Detido um soldado

Um dia depois da divulgação das imagens, o Ministério da Defesa britânico veio confirmar a detenção de um dos supostos envolvidos na acção, mas pouco mais adiantou sobre o caso justificando-se com a necessidade de conter as informações enquanto durarem as investigações.
Quem também reagiu ao sucedido foi o Conselho Muçulmano do Reino Unido exigindo «tolerância zero para a brutalidade militar». A organização alertou ainda para as possíveis manifestações de repúdio no terreno e lembrou que, num período em que ganha força a ideia de crispação das relações entre as potências ocidentais e as comunidades muçulmanas, o episódio só contribui para exaltar os ânimos.

Confrontos sucedem-se

Entretanto, os confrontos entre ocupantes e grupos armados e da resistência iraquiana não dão tréguas.
Na segunda-feira, em Bagdad, pelo menos sete pessoas morreram e um número não apurado ficou ferida quando uma bomba foi detonada junto a um banco da capital. À porta da instituição amontoavam-se centenas de pessoas que esperavam para levantar os cheques distribuídos pelo governo.
A cidade foi ainda abalada pelo rebentamento de outro engenho explosivo, desta feita tendo como alvo o comboio onde viajava o ex-ministro da Electricidade, Ayham al-Samarrai.
Ainda no mesmo dia, a Norte da capital, quatro polícias foram abatidos num posto de controle rodoviário, acção que ilustra o que se passou durante o fim-de-semana no Iraque. Em Ramadi, no sábado, ocupantes e ocupados envolveram-se em combates. Em resultado outros quatro agentes da polícia iraquiana perderam a vida. Na resposta, um helicóptero dos EUA bombardeou supostos esconderijos dos insurgentes matando seis pessoas. Todos «rebeldes», afirmaram.

Reiniciou-se julgamento de Saddam
Forçados a comparecer


O reinicio do julgamento de Saddam Hussein e de outros sete ex-responsáveis do governo iraquiano, acusados de cumplicidade no massacre de centena e meia de pessoas com recurso a armas químicas, em 1982, ficou marcado pelos intensos protestos da defesa e dos réus.
Interrompido no início do mês precisamente por ausência dos acusados e respectivos representantes jurídicos, a audiência de segunda-feira, em Bagdad, assinala a abertura de mais um precedente que viola os mais elementares direitos de cada indivíduo perante a justiça.
Saddam e os restantes arguidos no processo foram forçados pelo exército norte-americano a comparecer na sala de audiências. Em reacção, iniciaram a sessão gritando «Abaixo os traidores! Abaixo Bush!», ou «Fui obrigado a vir a este tribunal!».
Barzan al-Tikrit encetou mesmo uma tentativa de resistência, tendo sido posteriormente sentado no chão de costas para o juiz. A revolta tem como objectivo a substituição do novo juiz nomeado para presidir ao julgamento, o qual, acusam, não garante condições mínimas de imparcialidade.
Para além de insistir na transferência das audiências para um dos países vizinhos alegando falta de imparcialidade e segurança dos réus, ao que se junta a transmissão televisiva das sessões embora truncadas da intervenção dos réus, Khalil al-Duleimi, um dos advogados de defesa, revelou que al-Tikrit foi torturado pelos norte-americanos, situação que, sublinhou, já relatou a diversas organizações humanitárias internacionais.


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