• Gustavo Carneiro

Entrevista com Jerónimo de Sousa
«O PCP é mais preciso do que nunca»
Na semana em que se assinalam os 85 anos do PCP, Jerónimo de Sousa afirma que só é possível o PCP crescer e avançar enraizando-se na classe operária e nos trabalhadores e impulsionando as suas lutas. Este é, aliás, um dos grandes exemplos que se podem tirar dos 85 anos do PCP.
Para as comemorações dos 85 anos do PCP, o Comité Central salientou a importância de afirmar o seu «projecto político e ideológico». De que se fala quando se refere este projecto?

Falar de projecto político e ideológico tem um significado a destacar que é própria ideia de projecto. Vamos comemorar 85 anos de um Partido com uma longa história, uma história ímpar se comparada com a de qualquer outra força. Mas, sustentado nesta história, o Partido continua a ter um projecto. Somos, como costumamos dizer, um Partido com mais projecto que memória. Um projecto assente na sua ideologia, no seu ideal e no seu programa de transformação social, de luta pela democracia e pelo socialismo.

De que forma este projecto poderá contribuir para a solução dos problemas que afectam o País?

Nos últimos trinta anos tem sido praticada uma política de direita. Tal como se inscreve no nosso Programa e que o XVII Congresso confirmou, a questão da alternativa está colocada. O nosso Partido, que tem tomado uma posição de resistência e de combate, continua a ser também um partido de proposta. No seu programa de «uma democracia avançada no limiar do século XXI», o PCP considera necessária uma ruptura com esta política de direita e o encetar de uma política de esquerda, que considere essenciais as quatro vertentes da democracia: democracia política, económica, social e cultural. Uma política que, conjugando estas quatro vertentes e tendo como grande referência a Constituição, resolva os problemas do País e do povo.

Há quem diga que não faz sentido ter como prioridade a luta no espaço nacional, devido à natureza internacional do capitalismo…

Sempre considerámos que temos que olhar para o mundo. Vivemos num espaço planetário e seria um erro se nos fechássemos a essa realidade. Temos como tese fundamental o facto de sermos um Partido patriótico e internacionalista. Não vemos possibilidades de desenvolver uma luta mais global, «por cima», se desprezarmos a luta do nosso País e do povo concreto que temos. É evidente que não podemos subestimar as novas realidades impostas pela globalização capitalista e pela divisão internacional do trabalho. Nesse sentido, a melhor forma de dar uma contribuição positiva para a luta mais geral é começar por lutar pela resolução dos problemas dos trabalhadores, de Portugal.

Em tempos de fortes ataques do grande capital e em que tanto se fala de «cidadania», que papel podem desempenhar os partidos, nomeadamente os partidos comunistas?

Basta olhar para a realidade, num quadro de grande conflitualidade e agudização da luta de classes, para perceber da importância e do carácter insubstituível de um partido comunista, ou seja, de um partido da classe operária e de todos os trabalhadores. Nós não vemos como uma contradição a existência de partidos, nomeadamente de partidos comunistas, e de organizações e movimentos sociais de massas. Mas pensar que esses movimentos podem substituir os partidos era negar a participação dos trabalhadores no plano da intervenção e da representação política. A grande burguesia tem os seus partidos, o capital tem os seus partidos, a classe operária e os trabalhadores precisam de ter o seu partido.
Enquanto os movimentos defendem causas concretas, os partidos políticos têm um projecto global. Neste quadro de ofensiva contra os direitos, o nosso Partido é mais preciso do que nunca. Seria um erro que os trabalhadores pagariam caro se este partido deixasse de ter este papel.

Esta ofensiva contra os direitos é acompanhada por uma ofensiva ideológica, ao serviço da qual se colocam poderosos meios. Como combater isso?

Na ofensiva que o grande capital desencadeia, uma das suas dimensões é a ofensiva ideológica contra o Partido, os trabalhadores, o papel do Estado, o próprio regime democrático. Num combate profundamente desigual, o combate ideológico não pode ser separado do combate político e social. É e será muito através da luta concreta em torno de problemas que hoje afligem os trabalhadores que nós damos a melhor garantia da eficácia desse combate.
É evidente que as classes dominantes têm meios poderosos, nomeadamente os grandes meios de comunicação social. Com eles, procuram fazer cabeças e vender a sua ideologia, mesmo quando dizem que passou o tempo das ideologias. Nós formámo-nos com base nas teorias de Marx, Engels e Lenine, mas este Partido foi capaz, ao longo da sua história, de ser criativo. Com base nos ensinamentos desses grandes mestres e na nossa experiência histórica, estamos em condições de travar este combate.

Que papel pode ter o Avante! neste combate ideológico?

Mesmo nós subestimamos o Avante! e o seu papel. Não há outro órgão de informação que dê tanta visibilidade às lutas, aos problemas e aos anseios dos trabalhadores e do povo português. Não há outro órgão capaz de, do ponto de vista de classe, fazer aquilo que o nosso Avante! faz. Com este último esforço de divulgação, através das vendas especiais, temos tentado que o Avante! ganhe mais força e chegue a mais gente, porque de facto é um jornal de informação e de intervenção que não tem comparação com qualquer outro.

Um PCP mais forte
O «efeito» Congresso


Os três actos eleitorais realizados desde o XVII Congresso representaram sucessos eleitorais para os comunistas. Fala-se muito do «efeito Jerónimo»…

Não é possível, por muito esforço que façam (e é um esforço pensado), desligar a contribuição e a capacidade individual de um militante do projecto e do ideal que esse militante defende. Eu acho que os comentadores, os analistas e os jornalistas não entendem – e não entendem mesmo por razões estruturais – esta verdade de que as nossas capacidades individuais, quando exercidas, vão sempre no sentido de reforçar o nosso colectivo partidário, o tal colectivo que tem um projecto e um ideal.
E não se pode procurar esquecer que, para além do secretário-geral, houve nas legislativas, nas autárquicas e nas presidenciais a contribuição de milhares de militantes e amigos do Partido. Uma contribuição anónima, um esforço militante que não se vê e não fica registado, mas que reforça esse colectivo. Há um «efeito Partido», onde está o Jerónimo, mas não há um «efeito Jerónimo» para o Partido.

Então o que foi decisivo, o Congresso?

Sim, esse talvez tenha sido o «efeito» mais criativo e realizador, na medida em que o XVII Congresso foi um grande congresso de afirmação. Este deve ser o ponto de partida para avaliar os resultados eleitorais. Foram três batalhas eleitorais realizadas logo a seguir ao Congresso, mas isso não pode ensombrar aquela dinâmica que surgiu na preparação do Congresso e durante a sua realização, em que ficámos municiados de uma resolução política que não tratava fundamentalmente de eleições, mas sim de uma questão decisiva, o reforço da organização e da intervenção do nosso Partido. Isso foi fundamental para os êxitos eleitorais e para o reforço orgânico do Partido.

Dando seguimento às decisões do Congresso, o Comité Central decidiu que este seria o ano do reforço do Partido. Entre as prioridades traçadas está a ligação do PCP aos trabalhadores. Qual a importância disto?

Vínhamos já concretizando algumas das orientações que o XVII Congresso apurou. Foi de grande importância nomeadamente a actualização dos ficheiros e o lançamento da acção «Sim, é possível um PCP mais forte!». Existe uma «ideia força» muito importante, a realização de um conceito integrado de reforço da intervenção para melhor reforçar a organização do Partido. Isso é feito através do reforço da nossa organização de base, da acção e intervenção junto dos trabalhadores nos locais de trabalho. Nós dizemos – e somos, de facto – o Partido da classe operária e de todos os trabalhadores. Então, aí estão os destinatários principais da nossa acção e intervenção: os trabalhadores, os seus problemas, anseios e reivindicações.

Há grandes dificuldades a esta acção, hoje…

... o encerramento de grandes unidades de produção, os despedimentos em massa, os efeitos tremendos das precariedades que se sentem no mundo do trabalho. Em 2004 e 2005, 70 por cento dos postos de trabalho criados foram precários. Isto traz maiores dificuldades à organização do Partido e à organização sindical dentro das empresas e dos locais de trabalho. É uma batalha difícil, mas é crucial para os tempos mais próximos. Aliás, no quadro de uma ofensiva tão grande contra os direitos dos trabalhadores, ainda mais se justifica este reforço da intervenção e da organização junto dos trabalhadores.
Quanto ao recrutamento, é hoje possível afirmar que quando este Avante! for publicado, estará concretizada a campanha de recrutamento de 2500 novos militantes que lançámos depois das legislativas. Devemos valorizar os 500 novos militantes que entraram para a JCP desde a Festa do Avante!.

O rejuvenescimento é, aliás, outra das preocupações manifestadas pelo Congresso…

Este Partido valoriza muito que os mais velhos se mantenham cá, mas sempre procurámos levar por diante a renovação e o rejuvenescimento. É neste caldear de gerações de comunistas que nós estamos a conseguir que o Partido seja uma grande força nacional, com base na capacidade de atracção de muitos jovens que, nas campanhas eleitorais ou nas lutas, descobrem que é este o Partido que defende os seus interesses e as suas aspirações e que procura concretizar os seus sonhos.
O Partido tem responsabilizado muitos jovens a diversos níveis, incluindo nos próprios organismos executivos do Comité Central. Pode-se dizer que nestas coisas não se sabe bem onde acaba a audácia e começa o risco, mas vale a pena sermos audaciosos e mantermos esta ideia de aliar a experiência à juventude como grande solução para o futuro.

«A alternativa vai depender
da nossa capacidade de mobilização»


Nos últimos tempos, temos apelado muito à esperança e à confiança dos trabalhadores e do povo. No entanto, Cavaco Silva vence as eleições e o Governo do PS agrava a política de direita…

O Comité Central considerou que é hoje mais difícil e exigente a concretização de uma ruptura democrática e de esquerda e de uma solução alternativa. A direita conseguiu o que procurava há mais de 30 anos: apoderar-se da Presidência da República. Se aliarmos esta vitória da direita com a realização de políticas de direita por parte do PS, faz com que consideremos que os combates próximos vão ser de grande dureza. Mas continuamos a afirmar que dificuldade não significa impossibilidade.

Mas que lugar há para a esperança e a confiança?

Olhemos para a realidade objectiva: as dificuldades que atingem a maioria do povo português; os problemas candentes que se colocam aos trabalhadores no que respeita aos seus direitos e salários; as crescentes discriminações e desigualdades num país cada vez mais assimétrico e injusto; a concentração da riqueza… É esta realidade objectiva e são estas as condições para que persistamos com muita determinação neste combate, tendo em conta que é possível realizar uma alteração com base no desenvolvimento da luta, já que isto não há-de ser sempre assim.
Depois temos que olhar para o respeito que este Partido merece junto de muitos portugueses, mesmo os que, não votando em nós, reconhecem seu o papel ímpar. Estamos em condições, sempre a partir dos trabalhadores e da sua luta, de manter esse sinal de esperança e de confiança.

Falamos muito de uma política alternativa à política de direita. Que alternativa é esta, já que parece estarmos perante um regime de «política única»?

Nós temos uma alternativa. Não é possível separar a democracia política da económica, social e cultural. Caso uma destas vertentes seja ofendida ou mutilada, é o próprio regime democrático que fica mais empobrecido. As questões da democracia económica implicam consequências na democracia política. O capital está sem freio nos dentes e nós vemos os lucros fabulosos da banca e dos grandes grupos económicos. Por razões da sua natureza, vão querer mais lucros e isto provoca uma contradição insanável para quem defende o regime democrático. Este ataque aos direitos dos trabalhadores resulta da natureza do capitalismo. Perante a reacção e a luta dos trabalhadores e de outras camadas, há uma tendência para mutilar a própria democracia política.
O PS anunciou a possibilidade de alterar as leis eleitorais. Ou seja, começam por limitar as liberdades individuais e colectivas dos trabalhadores, nomeadamente os seus direitos colectivos – o direito à contratação colectiva e à greve – para atingir os seus direitos individuais. Mas, com receio da luta e de que o PCP continue a crescer e a afirmar-se, pensam em alterar a lei eleitoral para a Assembleia da República, nomeadamente com os círculos uninominais. É um quadro inquietante.

Face à actual arrumação das forças políticas, como se fará essa alternativa?

Esta perspectiva tenderá a ser prolongada, de grande exigência, de construção de convergências com organizações sociais e com personalidades que hoje se inquietam em relação ao futuro. É através da unidade na acção, de lutas e causas concretas, que criamos as condições para essa alternativa. O próprio PS, prisioneiro por opção das políticas de direita, conhece hoje no seu seio um certo mal-estar.
Estamos perante um processo que tenderá a ser mais ou menos longo conforme a capacidade que tivermos de mobilizar os trabalhadores e outras camadas sociais. São estes que, conjuntamente com o seu Partido, conseguirão criar as condições objectivas e subjectivas para essa alternativa.

Mas sem o PCP, não…

Sem o PCP não há uma alternativa de esquerda. Basta olhar para o panorama político português. Pode não existir um só partido em termos da Presidência da República, do Governo e da maioria no Parlamento, mas existe representação de uma só política, a política de direita. À esquerda, a alternativa mais coerente, combativa, firme e que melhores condições tem para desenvolver essa unidade na acção no campo democrático e da luta é o PCP. O Partido fez muita falta na luta contra o fascismo e na construção da democracia e continua hoje a fazer uma falta incontornável para que as coisas mudem e se encontre um outro rumo para a política nacional.

Cada vez mais querem limitar a acção dos que não defendem esta tal «política única» através de leis e medidas...

Todas essas leis e medidas revelam duas coisas. Em primeiro lugar, uma postura perigosa dos centros de decisão do capitalismo que, na sua ânsia de aumentar a exploração, tendem para a repressão dos trabalhadores e dos povos que lutam contra essa exploração e a perda da independência. É um perigo real. Por outro lado, demonstra um temor muito grande por parte do capitalismo, já que os povos continuam a resistir, a conseguir conquistas e transformações.
Olhando para o que se passa em alguns pontos do mundo, como na América Latina, vê-se que é possível resistir e avançar. O capitalismo sabe que não é solução para os problemas da humanidade e tenta atingir as forças mais consequentes e que mais contribuem para a luta dos povos. E aí estão os partidos comunistas.

Alguns dos ataques são dirigidos expressamente aos comunistas…

Foram buscar conceitos da ideologia anticomunista e em Portugal isto teve a sua primeira expressão legislativa nas leis dos partidos e do seu financiamento, claramente talhadas para atingir o PCP. Como sabem que correm o risco de não conseguir, já estão a pensar nas leis eleitorais… Mas, como se provou ao longo dos 85 anos do Partido, quanto mais nos enraizarmos nos trabalhadores e no povo, nas suas aspirações e na sua luta, melhores condições teremos de resistir a essa ofensiva profundamente reaccionária e inquietante.

Projecto e memória

Que exemplo se pode colher nos oitenta e cinco anos de luta do Partido para enfrentar os duros combates que se avizinham?

Não há um exemplo concreto. A história do nosso Partido é feita de milhares de exemplos, de milhares de comunistas. A história deste Partido, da sua fundação, da sua resistência, da sua vitalidade, passou sempre pelo papel que os trabalhadores tiveram nele. Durante a resistência, no processo de construção da democracia, e hoje, fazendo frente à ofensiva do capitalismo e do neoliberalismo. O melhor da sua história e da sua luta, os exemplos mais fascinantes têm a ver com os trabalhadores e a sua luta. E é por isso que somos este Partido, com esta natureza e com esta identidade.
Sem qualquer culto da personalidade, e entre milhares de heróis, de construtores do nosso Partido, penso que neste primeiro ano sem Álvaro Cunhal teremos de o lembrar nestas comemorações dos 85 anos do Partido. Foi um exemplo de revolucionário, do político, do homem de coragem, do grande patriota, do grande internacionalista, que marcou este Partido.

O Partido nasce em 1921, inspirado e impulsionado pela experiência da Revolução Socialista de Outubro de 1917, na Rússia. Hoje, essa experiência não existe mais e o PCP cá está, mantendo o objectivo da construção de uma sociedade socialista…

Só uma precisão. Penso que a grande experiência da Revolução de Outubro não desapareceu. A implementação de um modelo que, em muitos aspectos, contrariava a génese dessa grande experiência revolucionária levou à sua derrota. Mas foi uma experiência pioneira. O comunismo nasceu no século XX, com uma experiência histórica que provou ser possível a felicidade humana através de um grande processo colectivo.
A nossa raiz foi, de facto, fundada nessa grande experiência revolucionária e mantemos o que de mais genuíno ela tem, adaptando-a ao nosso povo e ao nosso país. Por isso, este Partido Comunista, com um grande enraizamento na sociedade portuguesa, tem alamedas para caminhar. Talvez ainda sejamos fustigados por esta ofensiva tremenda, com uma correlação de forças profundamente desfavorável aos trabalhadores e às forças progressistas e revolucionárias. Mas é com base neste projecto e na experiência acumulada de 85 anos que nós temos condições para continuar a participar neste fascinante processo histórico. E continuamos a considerar que o socialismo é a alternativa ao capitalismo. Não há outra solução.


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