Editorial

«o reforço orgânico e interventivo do PCP é a mais importante tarefa do colectivo partidário»

SIM, É POSSÍVEL UM PCP MAIS FORTE

Sejam quais forem as leituras que se façam do discurso de tomada de posse do Presidente da República; sejam quais forem as interpretações dadas às múltiplas declarações de intenções do primeiro-ministro; seja qual for o modelo que as relações institucionais entre o chefe do Estado e o chefe do Governo venham a assumir – duas coisas são certas: para os trabalhadores, para a imensa maioria dos portugueses, os tempos actuais são difíceis e, como indiciam todos os discursos e declarações, mais difíceis serão os tempos que se aproximam; para quem vive à custa de quem trabalha, os tempos actuais estão carregados de certezas de bem-aventuranças e os tempos que se avizinham cheios de promessas das ditas. Quer isto dizer que os discursos e as declarações pouco contam, contando muito, contando tudo, a política levada à prática. E a política levada à prática é esta política de direita de que o PS e o PSD – ora agora governas tu e eu visto-me de oposição, ora agora governo eu e tu mascaras-te de oposição - são os executantes exclusivos (de vez em quando, quando é necessário, atrelando o CDS) há trinta anos consecutivos. De tal modo que, quando os ouvimos (aos líderes do PS e do PSD), em inflamados discursos, a atirarem uns aos outros as culpas pelo estado desgraçado a que chegou o País, só podemos dar-lhes razão: na verdade quem é que há-de ter culpas desse estado senão quem está no governo há três décadas consecutivas?
De resto, ambos têm cumprido a contento dos ordenantes as tarefas de que estão incumbidos, nomeadamente: a de governarem de modo a que os chefes dos grandes grupos económicos subam no ranking dos homens mais ricos do país e do mundo; a de providenciarem para que os bancos todos os anos aumentem substancialmente os seus lucros; a de depositarem a soberania nacional nas garras dos donos do mundo; a de empobrecerem o conteúdo democrático da democracia de Abril.

É claro que do cumprimento dessas tarefas resultam outras consequências, estas afectando a maioria dos portugueses: o agravamento das condições de vida e de trabalho dos trabalhadores e do povo; o aumento do desemprego, a proliferação da precariedade e os baixos salários; o alastramento da pobreza e da miséria e o agravamento das desigualdades sociais; a degradação do ensino e da saúde; o assalto brutal às liberdades, direitos e garantias dos trabalhadores e dos cidadãos – e todo o imenso cortejo de malfeitorias na maioria dos casos concretizadas à margem da Lei Fundamental do País e sempre roubando aos trabalhadores e ao povo pedaços de Abril.
Aliás, Abril continua a ser uma referência fundamental para todos os portugueses: quer para os que tudo fazem para apagar da nossa memória colectiva esse tempo novo e para liquidar definitiva e totalmente as conquistas económicas, políticas, sociais e culturais decorrentes da revolução; quer para os que por essas conquistas se batem e não desistem do futuro que Abril nos mostrou ser possível. E a luta contra a política de direita e por uma alternativa de esquerda é, ainda e sempre, uma luta por Abril e os seus ideais de liberdade e de justiça social – porque, repita-se, a política de direita é a política da contra-revolução de Abril.
Anote-se esta curiosidade: há dias, um afamado economista, homem cheio de saberes, obeso de modernidade e que já mostrou o que valia como ministro da economia de um dos governos da política de direita – assim dando o seu valioso contributo para o estado a que chegou o País - veio a público defender «o fim do salário mínimo nacional e do subsídio de desemprego» que foram, justamente, duas das primeiras medidas tomadas após o 25 de Abril (em 16 de Maio de 1974) - medidas de Abril a pensar nos trabalhadores e que o economista quer liquidar a pensar no grande capital.

Então, a situação actual e os mais do que previsíveis desenvolvimentos negativos da política de direita, colocam aos trabalhadores, aos homens, mulheres e jovens democratas e de esquerda, desafios de resposta imperativa. A necessidade de prosseguir, intensificar e alargar a luta pela defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País – luta que integra o objectivo político de impor uma ruptura democrática e de esquerda na política de direita – apresenta-se como questão central à qual há que dedicar todas as atenções e esforços. Por razões óbvias, o PCP desempenha, neste contexto, um papel determinante. Hoje, como ao longo dos últimos trinta anos, o nosso Partido é a principal força de oposição à política de direita, a principal força empenhada na defesa dos valores e dos ideais de Abril. Por isso o reforço orgânico e interventivo do PCP – a partir das orientações e medidas decididas no XVII Congresso e desenvolvidas posteriormente pelo Comité Central - continua a constituir a mais importante de todas as tarefas do colectivo partidário. E as condições para a concretização desse reforço são uma realidade, visível nas adesões ao Partido de novos militantes de entre os quais emerge uma elevada percentagem de jovens – para além do considerável e significativo recrutamento de jovens conseguido pela JCP; visíveis, igualmente - e de que maneira! - nas comemorações do 85º aniversário do Partido que continuam a desenrolar-se por todo o País em centenas de iniciativas que contam com notável participação de militantes e amigos – tudo isso confirmando que sim, é possível um PCP mais forte.


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