• Hugo Janeiro

«Os ocupantes encontram-se em condições terríveis, têm inimigos em todas as ruas»
Entrevista a Abdul Jabbar al-Kubaysi,
presidente da Aliança Patriótica Iraquiana
«É o povo que resiste!»
A propósito das mobilizações mundiais contra a guerra e a ocupação do Iraque, que decorrerão no dia 18, passou por Portugal o presidente da Aliança Patriótica Iraquiana, Abdul Jabbar al-Kubaysi. Cumprindo o seu papel de dar voz a quem o capitalismo não quer que fale, e porque desde a primeira hora estivemos ao lado do povo iraquiano contra a barbárie, o Avante! foi falar com o político e resistente iraquiano.
A 20 de Março de 2003, os EUA e a Grã-Bretanha lideraram um ataque militar contra o Iraque que culminaria com a invasão e ocupação permanente do país. Três anos volvidos, restam poucas dúvidas que as razões invocadas para «legitimar» a guerra não passaram de falsos pretextos, cortinas de fumo para ocultar a pilhagem dos recursos naturais da região, rentabilizando, simultaneamente, a industria de armamento anglo-norte-americana e a especulação bolsista de um punhado de multinacionais.
Os lucros fabulosos acumulados pelas companhias envolvidas na guerra e na «reconstrução», contrastam com a miséria e os crimes a que foram sujeitos milhões de iraquianos.
As torturas, os abusos, as limpezas étnicas, os assassínios selectivos, as armas químicas usadas indiscriminadamente contra civis, são o espelho da brutalidade imperial. Os cadáveres contam-se aos milhares, mas os ocupantes chamam-lhes «danos colaterais», «vítimas do terrorismo». De quem? – importa saber.
Entre o esclarecimento proporcionado por uma conversa franca e aberta com al-Kubaysi, fica uma interrogação. Quando no próximo sábado dispensarmos um pouco do nosso tempo e camaradagem para nos juntarmos no Largo do Camões, em Lisboa. Quando connosco estiverem milhões de pessoas solidárias e unidas pelo mesmo protesto, talvez seja importante acrescentar uma mensagem para o povo do Iraque: Obrigado por resistirem!

Quando os norte-americanos atacaram o Iraque, qual foi a posição assumida pela Aliança Patriótica Iraquiana e os grupos que convosco colaboram?

Abdul Jabbar al-Kubaysi: Quando a guerra foi desencadeada, muitos de nós, que havíamos sido severamente reprimidos e torturados pelo regime de Saddam Hussein, percebemos que não podíamos estar ao lado da invasão anglo-norte-americana. Não era possível capitular perante a história de soberania do Iraque.
Claro, houve gente que hesitou, que concordava que não era correcto estar ao lado do bombardeamento e da ocupação do nosso país, mas... colocavam um mas, e a partir desse momento vacilavam.
Muitos dos que se encontravam no exílio procuraram encaixar no novo regime, com lugares no governo, nas universidades, como embaixadores, mas com o passar das semanas, após longas discussões e uma análise da situação no terreno, fomos ganhando força e credibilidade, nós os que desde a primeira hora nos opusemos à guerra. Quando digo nós, falo no comando central dos comunistas e outros grupos políticos que, embora minoritários, sem dinheiro, apenas com vontade e um jornal pobre e sem meios, tratámos de dar continuidade ao movimento político de resistência.
Com o tempo, com a pressão do povo, que também começou a acordar, juntaram-se alguns militares que nem tiveram possibilidade de combater. Neste momento, são um dos grupos mais numerosos da resistência e penso que não decidiram resistir por terem sido membros do Partido Baas, mas porque assumiram uma posição patriota.

Mas a ideia que passou para o ocidente foi que a resistência emergiu de grupos religiosos...

Não foi assim que as coisas funcionaram no terreno. Inicialmente, surgiram centenas de grupos que pegaram em armas. Trabalhadores, soldados e oficiais, jovens, muitos jovens que perceberam o que ia ser a ocupação e se juntavam por bairro, porque havia um militar que tomava a iniciativa, sem ligações a partidos ou facções religiosas, na esmagadora maioria dos casos.
Este movimento de resistência quase expontâneo atacava as forças ocupantes e regressava às suas casas, voltava às suas vidas. Só depois surgiram organizações mais complexas, de comunistas, de ex-membros do Partido Baas, de inspiração religiosa mas que, mesmo hoje, não fazem das suas acções nenhuma «guerra santa», ou o que for que os EUA gostam de lhes chamar.
Com o passar do tempo e o agravar da situação os grupos dispersos começaram a unir-se, paulatinamente, até que hoje temos cerca de seis a sete grandes grupos com milhares de guerrilheiros. Entre estes encontras comunistas, Baatistas, muitas sensibilidades, mas que resistem porque chegaram à conclusão que esse é o único caminho e o primeiro objectivo.
Mesmo no interior dos grupos temos diversas «cores» políticas e religiosas, isto é, se estás na tua cidade ou na tua região, tens uma determinada opção política ou religiosa, não te vais deslocar milhares de quilómetros para integrar um grupo liderado por alguém que pense exactamente como tu. Se tens vontade de combater, juntas-te à resistência na tua zona, és aceite tal qual és e continuas livre de pensar como queiras, de manter as tuas convicções e linguagem. Esta foi a fórmula para unir toda a gente.
Outra coisa é a Frente Patriótica de Libertação que formámos à cerca de cinco meses, a qual integra o comando central do Partido Comunista Iraquiano – que é o resultado da cisão do antigo PCI existente nos anos 60 -, a Aliança Patriótica Iraquiana, os Baatistas e um grupo chamado Patriotas Democráticos.

Então o fundamental do vosso objectivo passa pela expulsão dos norte-americanos, e só depois discutirão o futuro do país?

Mesmo agora vamos discutindo o futuro, claro, somos quatro partidos políticos diferentes. O que pensamos é que a questão central neste momento passa pela coordenação da resistência, que também está representada mas que não é uma força política homogénea.

Criando falsas divisões

E as tensões étnicas que aparentemente violentam o Iraque, que papel desempenham esses grupos?

Bom, sabemos que essa é a imagem que passa, mas a verdade é que essas milícias representam os membros do governo, do parlamento, servem os interesses norte-americanos.
Milicianos sunitas do Partido Islâmico do Iraque, pró-Arábia Saudita, responsáveis por atentados, estão no governo, têm dois ministros, estão representados no parlamento.
Com os partidos políticos xiitas acontece a mesma coisa. É uma guerra pela partilha do poder. A questão é que, para incendiarem os ânimos, não se matam entre si, violentam sunitas e xiitas inocentes.

Acha que o objectivo é criar uma atmosfera de medo?

Absolutamente. Deixar as pessoas aterradas e levá-las a apoiar um país dividido, sobretudo da parte do xiitas, no Sul, com claro interesse da parte do Irão.
Quando se diz que a resistência é sunita e que só mata xiitas é uma mentira que, para milhares de iraquianos, se vai revelando com mais clareza. Há exemplos de acções da resistência contra xiitas, sunitas, é indiferente, porquanto que estejam no poder, na medida em que colaborem com os ocupantes, é o que realmente os transforma em alvos.

Consciência cresce entre o povo

Pensa que o povo iraquiano demonstra hoje uma maior consciência da necessidade de lutar do que nos primeiros meses da ocupação?

Neste momento tornou-se uma cultura. Inicialmente, a resistência começou por se traduzir muito num sentimento de repúdio pela presença de tropas estrangeiras no país, mas agora a consciência é maior, as pessoas, mesmo as mais ignorantes, praticamente sem instrução, começam a discutir política e a perceber o que está em causa.
É importante que esta cultura se tenha espalhado entre a gente simples, entre o povo. Vamos perguntar a um camponês ou a uma mulher o que é a política? Ela não te sabe dizer o que é, mas sabe que deve lutar, e se não tem condições para o fazer, pelo menos percebe que tem que incitar os que conhece a resistirem à ocupação.
Perderam o medo, mesmo quando sabem que muito provavelmente vão perder um familiar. Uma vizinha minha perdeu 11 filhos nesta guerra e o que realmente impressiona é que ela já não pensa que os seus morreram em vão, antes, tem orgulho.
Na nossa tradição, quando morre alguém da família, recebem-se os vizinhos em casa e serve-se café forte, sem açúcar, como sinal da amargura da perda. Ultimamente, quando morre um rapaz ou uma rapariga na resistência, serve-se sumo, em sinal de orgulho pelo que fez. A caminho do cemitério, cantam-se músicas revolucionárias, e todos vêm para prestar homenagem. As mulheres ululam como quando há um casamento, neste caso, anunciam a união com a causa da liberdade do seu país. Claro que é uma dor e uma mágoa só perceptível por quem a sente, mas pior seria se o filho, a filha, o marido ou o irmão quebrassem perante o invasor.

Qual a importância da solidariedade internacional com o Iraque nesse contexto?

É fundamental para que se perceba que o que a guerra não é um «choque de civilizações» entre cristãos e muçulmanos, como quer fazer passar George W. Bush. Muitos iraquianos pensaram que era essa a razão pela qual os atacavam, por serem muçulmanos.
Quando ocorreram as primeiras grandes mobilizações mundiais, com milhões de pessoas nas ruas contra a guerra e a ocupação do nosso país, começaram a perceber que afinal, gente comum da Europa, dos EUA, gente como eles, com razões para viver, com família, com amor pela pátria, também estava contra a guerra. Isso para o povo iraquiano é ao mesmo tempo um grande orgulho e uma grande responsabilidade. É isso que também os ajuda e entusiasma a não desistirem. É o povo que resiste!
Quando eu me encontrava preso, trouxeram-me cartas de gente de Espanha, da Itália, de França, pessoas que eu não conheço mas que exigiam a minha libertação. Claro, também levaram as cartas para os interrogatórios e queriam saber quem eram os amigos, se eram operacionais, contactos subversivos. No mínimo, são iniciativas que os fazem pensar e temer pela força que se levanta contra a ocupação.

Confiança no futuro

Pensa regressar ao Iraque? Não tem receio de voltar a ser detido?

Para onde vou? É a minha terra. Não sou um soldado, sou político. O que tento fazer é minimizar as hipóteses de ser capturado novamente. Arrisco as minhas hipóteses na vida, tenho que o fazer pelo meu país, tal como o fazem milhares de iraquianos que também são procurados, também são perseguidos.

Onde vai buscar essa determinação para voltar? O que pensa a sua família?

Temos a consciência de que é necessário, mesmo que as nossas famílias, especialmente os filhos, estranhem a ausência. As crianças fazem muitas perguntas, não é com facilidade que as enganamos (risos).
Se pensarmos que o mesmo sentimento de revolta é partilhado por outro iraquiano, qualquer um, que vende tomate na rua para sobreviver, por exemplo, e ainda assim espera pacientemente pela oportunidade para demonstrar resistência, percebemos que temos que continuar.

A libertação do Iraque é um objectivo que pensa ser alcançável em breve?

Não só tenho a certeza, como sei que é inevitável. Os ocupantes encontram-se em condições terríveis, têm inimigos em todas as ruas, a imensa maioria dos iraquianos está contra a sua presença, não são só os grupos armados da resistência. É essa a nossa força. A palavra que passa é que eles se encontram numa estrada em direcção ao inferno.
É sabido, mesmo pelos políticos e comandantes militares no terreno, que a guerra está perdida. São os próprios que o dizem, mas não admitem o facto publicamente.
Com isto não se fique a pensar que o que dizemos é que quando forem embora não terão que compensar o povo do Iraque pelos estragos que fizeram, pelas vítimas que deixaram. Não! Nós temos direito a que nos restituam as perdas. Que razão é essa de invadir, matar, saquear um país e depois ir embora como se nada fosse? Não vamos aceitar essa condição.

Crimes de Guerra

Pode-nos fazer um relato do que se passou em cidades como Fallujah ou Tall Afar durante os bombardeamentos dos EUA?

Abdul Jabbar al-Kubaysi: Actualmente, Fallujah parece Dresden após a II Guerra Mundial, as pessoas vivem em tendas porque quase toda a cidade está em ruínas. Os jornalistas são impedidos de entrar. Eles não querem que o mundo saiba a verdade e nem os norte-americanos podem circular sem autorização do da cadeia de comando.
O que se passou em Fallujah, os bombardeamentos com Fósforo Branco, os milhares de corpos de homens, mulheres e crianças carbonizados, factos que estão documentados num filme da RAI, por muito duro que vos possa parecer, não é nada.
O mesmo tipo de cenário podemos ver se formos a Tall Afar, Ramadi, Mansur Al Kan, um caso pouco conhecido mas que é igualmente chocante. Samarra também, embora não esteja exactamente no mesmo estado.
No primeiro ataque a Fallujah, em Abril de 2004, eu estava lá dentro, é a cidade onde nasci. Morreram mais de 1600 pessoas e outras três mil ficaram feridas.
Neste último já estava preso, mas as informações que tenho é que assassinaram cerca de seis mil pessoas.

Qual a razão pela qual este tipo de ataques norte-americanos foram concentrados no norte do Iraque?

Porque foi nessa zona que a resistência ganhou força mais depressa. Dentro das cidades as pessoas eram livres, os soldados não entravam.
É verdade que lá se estabeleciam bases da resistência, onde trabalhadores, insisto, gente humilde, simples, aprendeu a fazer armas, RPG’s, tudo manufacturado.
À pouco falávamos da resistência e das tais divergências étnicas. O que é Tall Afar? É natural que na Europa não saibam, mas é uma cidade de maioria xiita, e não obstante resiste.

Batota nas urnas partilha o poder
«Um norte-americano, um francês e um iraquiano encontram-se num bar em Paris depois das eleições no Iraque. O francês, a jogar em casa, afirma que a tecnologia do seu país é tão avançada que sete horas após o fecho das urnas já sabiam o resultado. Pouco dado a ficar atrás dos europeus, com ar sobranceiro, o norte-americano revela que o feito não é novidade porque nos EUA ficaram a saber do resultado sete minutos depois do encerramento das assembleias de voto. Tranquilo, o iraquiano sorri e diz que nada ultrapassa o avanço registado no seu país. Como pode ser isso? – perguntaram com escárnio os ocidentais. Simples – explica o iraquiano -, falámos com os vossos embaixadores em Bagdad e ficámos a saber do resultado sete dias antes das eleições se realizarem.»

( «Um dia depois das últimas eleições, esta anedota era contada com gosto nos mercados de Bagdad» - conta al-Kubaysi )

Quanto às eleições, fala-se insistentemente numa fraude. O que foi que realmente se passou?

Nas eleições constitucionais, apelámos ao povo para que fosse votar e rejeitasse a proposta. A questão era simples, bastava dizer sim, ou não, e ainda assim demoraram cinco semanas a contar os votos.
Eles sabiam que o resultado lhes tinha sido desfavorável, mas insistiram e apresentaram uma contagem de 55 por cento de aprovação do texto.
Mobilizaram-se milhares de pessoas que contestaram os resultados. Eles reavaliaram as suas forças e fizeram uma recontagem, mas chegaram à conclusão... que estavam certos.
Agora vamos dizer o que realmente se passou. Primeiro disseram que bastava que dois terços dos votos se expressassem pelo não em três das províncias para a proposta constitucional chumbar. Posteriormente, quando se viram derrotados, acrescentaram que isso tinha que suceder em cada uma das províncias, isto é, arrogaram-se a dar a volta à lei. O comando norte-americano aplaudiu dizendo que aceitava a deliberação do parlamento.
Mesmo assim, há um segundo dado que foi ainda mais visível nestas recentes eleições. Al-Zarqawi, que representa um grupo minúsculo, sem expressão de massas, lançou um apelo contra as eleições e ameaçou boicotá-las pela força. O que nós, a resistência, considerámos foi que durante três dias não iríamos atacar, que cabia às pessoas decidirem se iriam votar, ou não.
Podíamos ter boicotado o sufrágio pela força, até porque nos manifestámos contra o embuste, esclarecemos que era desfavorável aos interesses populares, mas sabíamos que se optássemos pela violência quem acabaria por colher frutos era Al-Zarqawi. A verdade é que ele não conseguiu impedir as eleições em nenhuma vila ou cidade.
Os que foram a eleições, partidos sunitas ou xiitas, dividiram-se por áreas. Onde são maioria não permitiram que os oponentes fossem às urnas, por isso ganharam. Os EUA, mais uma vez, dividiram para reinar e, mais grave, pensaram dar um golpe na unidade territorial do país, um dos seus verdadeiros objectivos.
Então, como eu dizia, cada partido levou boletins e encheu as caixas onde e como pode. Quando contaram os boletins, eram mais do que a população votante, isto não foi falado. A propaganda disse que a maioria foi votar, mas o povo sabe que tal não corresponde à verdade.
Um exemplo. Num bairro em Bagdad não existe maioria de nenhuma das facções, por isso concorreram ambas e controlaram-se mutuamente. A participação foi de 18 por cento, não de mais de 90 por cento, como afirmaram em centenas de mesas eleitorais. Os que se lhes opõem, asseguro, não foram às eleições.


Destaque: «Nos primeiros dez dias, meteram-me numa caixa de madeira com pouco mais de 70 centímetros, de pés e mãos atadas atrás das costas»

Na prisão do império

Esteve detido cerca de um ano e meio. Que condições encontrou na prisão e como é que os norte-americanos o trataram?

Primeiro temos que esclarecer que no Iraque não existe só Abu Grahib, mas 30 grandes prisões.
Uma das maiores, a norte de Bagdad, junto a uma pequena povoação chamada Al-Bagadadi, era uma antiga base do exército iraquiano e nós sabemos que os EUA têm lá mais de nove mil pessoas e que as torturam. Outra, em Badush, a norte de Mossul, também tem o mesmo número de presos, mas a maior de todas fica em Balad, a caminho de Samarra, dentro de um complexo militar norte-americano.
Com isto quero sublinhar que, na verdade, os EUA mantêm presos mais de 80 mil iraquianos, e antes das últimas eleições eram 192 mil os encarcerados. Mesmo as mulheres que se encontram presas – que calculámos em mais de 400 – foram levadas por duas razões: ou têm uma relação com alguém pertencente à resistência, ou quando os soldados chegaram à sua casa e perceberam que os homens não se encontravam, levaram as mulheres para os obrigar a deslocarem-se às bases, mesmo sem provas de que pertençam à resistência. Isto nem nos tempos da ditadura se fazia no Iraque, era inaceitável.
Também sabemos que os tipos de tortura variam muito, desde choques eléctricos, queimaduras no corpo, até às coisas mais bizarras, como fazerem pilhas humanas e dispararem. Penso que pretendem provar que têm melhor pontaria...
Na prisão onde eu estava ouviam-se muitas histórias, relatos de muita gente porque é um dos locais que funciona como plataforma para as transferências. Um preso chega, fica dois, três dias, depois é levado. Por vezes nem precisavam de falar, nós víamos o estado em que chegavam e imaginávamos o que lhes haviam feito.
No meu caso, durante cinco meses e meio, fui interrogado todos os dias.
A determinada altura, talvez nos últimos nove meses, recebia cartas através da Cruz Vermelha Internacional. As duas primeiras linhas, onde vinham os cumprimentos e as saudades que família escrevia, vinham intactas, o restante estava completamente rasurado para nos fazer quebrar. Depois trouxeram-me os desenhos que os meus filhos tinham enviado para um interrogatório e diziam que era um código.
Bem, eu só podia dizer que o meu filho era um rapazinho de nove anos e que eles nem isso eram capazes de perceber, que estavam loucos. Vivem no medo.

O que pretendiam saber?

Perguntavam-me sobre a resistência, quem conhecia no Iraque e na Europa, onde tinha estado, quais os contactos que tinha no mundo árabe. Acusaram-me de ser o coordenador entre os grupos insurgentes, de ser o teórico da resistência.
Nos primeiros dez dias, meteram-me numa caixa de madeira com pouco mais de 70 centímetros, de pés e mãos atadas atrás das costas, com correntes, no escuro. Quando era vencido pelo cansaço e me obrigava a dormir, não me deixavam por mais de dez minutos, gritavam o meu número.
Não me davam água nem comida, e quando davam alguma coisa era quase nada [n.d.r.: pouco mais de um terço de uma chávena de café, indicou-nos]. De dois em dois dias, davam um pedaço de pão que era metade de um punho fechado, nem para alimentar um pequeno pássaro chegava.
Nesse período, mesmo a água que me serviam estava a cerca de 40 graus, e nunca me tiravam a venda nem me indicavam onde estava o copo.
Depois disto, fui transferido para uma cela, mas sempre que me obrigavam a sair voltavam a tapar-me com uma venda e algemavam-me. Nunca estive sem algemas fora da cela, penso que por terem medo de serem atacados.

Então pressentiu que mesmo os soldados que o guardavam estavam amedrontados?

Eles vivem aterrorizados como coelhos! Todos os dias a base onde me encontrava era atacada por rockets, de noite ou de dia, nunca falhava. Quando o ataque começava, ficávamos contentes, claro, mesmo que por vezes as explosões se dessem a escassos cem metros de nós. Os guardas vinham para junto dos presos, aterrorizados, gritavam, corriam. Julgo que pensavam que mais perto das nossas celas não corriam perigo.
Muitas vezes riamos da situação e perguntávamos: és um soldado, porque é que tens medo? Tenho medo de morrer, diziam. Então percebemos, e alguns começaram a contar que só no Iraque se aperceberam que foram enganados.

Falou com muitos soldados nessa situação?

Muitos, pessoas com quem comunicava quando me traziam alguma comida, ou faziam a ronda.
Certa vez, um perguntou-me: Qual era a tua patente no exército? Eu respondi que não era militar, era engenheiro civil e estava preso por razões políticas. Ficou confuso e disse: então era do governo do Saddam? Eu expliquei que não, que estava exilado, que tinha combatido Saddam. Porque razão está preso? – continuou. Eu só lhe respondi que fosse perguntar ao seu governo. Depois indiquei vários presos, uns tinham sido professores, outros médicos, outros operários.
A determinada altura começavam a falar connosco, mas não é possível aprofundar muito a conversa porque o sistema não permite criar laços com o guarda. Todos os dias mudam a escala e de duas em duas semanas retiram o soldado de uma determinada rotina.
De quando em quando voltam, e nesses momentos alguns revelavam o que lhes haviam contado. Disseram-lhes que éramos perigosos, que nem sequer tirassem os óculos de protecção junto de nós porque éramos de tal forma selvagens que, à primeira oportunidade, lhes furaríamos os olhos com os garfos de plástico (sorri).
Quando descobriam que não era assim, ficaram com dúvidas.
A um outro soldado tive que contar que me tinha licenciado pela Universidade Americana de Beirute, e que o tipo da cela ao lado também. Ficou espantado, a pensar. Quando estes episódios aconteciam, revelavam, por exemplo, que foram treinados durante pouco mais de seis meses, três dos quais, numa «formação» sobre o Iraque, na qual lhes contaram todo o tipo de mentiras. Alguns prometeram que, acabado o contrato, nunca mais voltariam.
A esmagadora maioria são jovens entre os 18 e os 21 anos que foram enganados, arregimentados como mercenários, a troco de dinheiro, do pagamento das propinas da universidade que de outro modo não podiam pagar, da carta de cidadania norte-americana, uma «moeda de troca» que deve ser muito comum.


 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: