• Gustavo Carneiro

Comunic, a rádio do PCP na Internet, faz um ano
Uma voz de classe na rede
Quase um ano depois da sua primeira emissão, a 21 de Abril do ano passado, a Comunic – rádio do PCP na Internet continua a emitir todas as quintas-feiras, entre as 15 e as 18 horas. Nascida e mantida da dedicação militante, a Comunic é a única rádio política portuguesa na Internet. O Avante! foi ver como é feita e falou com três dos seus construtores.
São os três jovens e nenhum é profissional de rádio. Mas mantêm, com outros camaradas, e desde há quase um ano, uma rádio inédita e inovadora em Portugal: a Comunic–a rádio do PCP na Internet , que vai para o ar todas as quintas-feiras entre as 15 e as 18 horas. Depois disso, e até à quinta-feira seguinte, fica disponível na página do PCP na Internet.
Sofia Grilo, João Aboim e Maria João Simões contam que tiveram que aprender tudo do início e praticamente sozinhos. «Tínhamos problemas com a dinâmica da linguagem. Tínhamos que criar uma linguagem ligeira, que passasse a mensagem e que não fosse muito pesada e muito maçuda, de forma a que as pessoas conseguissem estar três horas a ouvir um programa de conteúdos políticos», conta Maria João Simões. Com a ajuda de camaradas que têm experiência na área da comunicação, nomeadamente em rádio, realça, «todos aprendemos essa linguagem».
Também ao nível técnico houve muito que aprender, conta Maria João. «Nunca tinha trabalhado com edição de áudio e tive que aprender tudo numa semana.» As condições de que o Partido dispunha não eram suficientes para um objectivo tão ambicioso: «Foi preciso preparar o estúdio e arranjar as condições técnicas necessárias para manter um programa semanal», destaca João Aboim. «A aquisição de uma linha telefónica que nos permite fazer entrevistas sem a presença física da pessoa dá-nos muito mais mobilidade», exemplifica.
Lembrando que ao início a cabine de som não tinha mais que dois metros quadrados, João Aboim recorda, satisfeito, que o estúdio foi construído com muitas colaborações e «com uma campanha de fundos muito intensa». Hoje, o estúdio onde se trabalha para a Comunic localiza-se no edifício da sede central do PCP, em Lisboa. Lá se fazem todos os trabalhos de áudio que o Partido necessita. «Não é só para a rádio», afirma.

Um trabalho militante

Uma rádio «só tem funcionamento se alguém a “alimentar”», refere João Aboim, destacando o envolvimento neste projecto de muita gente ligada a vários sectores do Partido, que produzem os seus próprios programas. «Na Assembleia da República, por exemplo, isso acontece. São recolhidos registos áudio no hemiciclo e depoimentos dos deputados do Partido. Depois, montam um programa que enviam para a rádio», afirma João Aboim. O Parlamento Europeu e a JCP também asseguram os seus próprios programas, afirma. O Avante! tem uma colaboração regular com a Comunic, assim como vários outros sectores, valoriza. «Temos ainda uma colaboração muito interessante com o Manuel Rocha (músico da Brigada Vítor Jara), que assegura O opositor construtivo, a rubrica humorística» da rádio do PCP.
Para Sofia Grilo a dedicação de toda esta gente é fundamental para o funcionamento deste projecto. «A “redacção” é constituída por pessoas que estão integradas nos mais diversos sectores e que têm as suas tarefas e obrigações profissionais. Esta acaba por ser mais uma tarefa.» Maria João secunda: «Num ano, só falhámos uma emissão, e não foi por culpa nossa.» O servidor onde está alojada a rádio entrou em manutenção à hora da emissão. Mas o ficheiro foi colocado na Internet e foi possível ouvir a partir de sexta-feira, como sempre. «Foi culpa da máquina», conclui Sofia.
Um ano depois, afirmam-se satisfeitos: «Nota-se uma evolução, mesmo visto de fora. Evolução na linguagem, na dinâmica dos programas da rádio, na dicção. Há uma aprendizagem por parte de toda a gente», afirma Maria João. A reacção dos ouvintes é outro motivo de satisfação para os três jovens radialistas. «Recebemos muitas mensagens de incentivo», destaca Sofia.

Ousar sonhar

«A génese da rádio vem de uma experiência que tivemos no XVII Congresso, que foi a transmissão áudio das sessões públicas», conta Sofia Grilo, membro do Grupo de Trabalho do PCP para as Tecnologias de Informação e Comunicação. Esta iniciativa, também ela inovadora, foi uma das muitas desenvolvidas por este grupo de trabalho. «Vimos então que, em termos técnicos, estava ao nosso alcance realizar emissões regulares e começámos a pensar em conteúdos para uma espécie de “rádio online”», recorda.
As eleições legislativas antecipadas de 20 de Fevereiro constituíram outro passo importante para o nascimento da Comunic. Durante o período oficial de campanha eleitoral, surge a «Rádio CDU», que transmite diariamente durante uma hora. Terminada a campanha eleitoral, recorda Sofia, «achámos que podíamos ser um bocadinho mais ambiciosos e arrancar com a rádio na Internet».
Entusiasmados com a ideia, puseram mãos à obra. Conta João Aboim que «nasceu um espaço de discussão com várias pessoas, nomeadamente com aquelas que tinham participado na Rádio CDU». Entre outras coisas, recorda, discutiu-se o nome, as horas de emissão, a imagem gráfica, o formato. «Tudo isso foi pensado», afirma João Aboim. «Não foi escolhida a quinta-feira por acaso. As estatísticas da página do Partido mostram que este é o dia com mais acessos, sobretudo à tarde», revela. A partir deste ponto, foi-se avançando.
Para além das emissões regulares, a Comunic tem por vezes trabalho suplementar. Nas duas campanhas eleitorais que existiram após a sua criação, a rádio fazia emissões diárias durante uma hora. Sofia Grilo considera que o trabalho feito durante as autárquicas foi extraordinário. «Conseguimos cobrir as nossas autarquias “prioritárias” durante a campanha e falar com os candidatos», destaca Sofia, que conta que as organizações locais do Partido utilizavam gravações da rádio para apoiar as iniciativas de propaganda. Assim, destaca, divulgava-se a rádio, que não ficava «fechada» na Internet.
Reconhecendo que a informação veiculada por Internet tem ainda um público relativamente restrito, Sofia considera «extremamente importante» aproveitar as novas tecnologias para fazer chegar mais longe a mensagem do Partido. Além do mais, realça, é um espaço «onde podemos intervir sem limitações e sem censuras. Somos nós os produtores da nossa própria informação, não há mediadores».

«Somar vermelho aos tons da rádio»>

«São 15 horas em Lisboa, 11 em Havana e 17 em Gaza.» Este sinal horário Comunic pode parecer uma brincadeira, mas revela a natureza da estação que afirma, em lema, pretender «somar vermelho aos tons da rádio». «Achámos que devíamos dar as horas em vários fusos e pensámos naqueles que mais interessavam a uma rádio de um Partido internacionalista e solidário com os povos», conta Sofia Grilo.
A natureza do Partido revela-se noutros aspectos da actividade da Comunic. «Há muita gente que nos contacta e que nos manda informações sobre a sua freguesia ou sector profissional. Somos muito contactados por sindicatos e comissões de trabalhadores», conta Maria João.
É Sofia Grilo quem recolhe, trata e lê as notícias. Antes, nunca tinha falado para um microfone. Com a autoridade de quem faz, todas as semanas, o trabalho de pivot, afirma que as notícias da Comunic são «um bocadinho diferentes das notícias de um órgão de comunicação social dito “normal”». Desde o temas escolhidos à forma como são tratados, dá-se sempre o destaque aos problemas dos trabalhadores e às suas lutas e há sempre a preocupação de coordenar a informação com a actividade central do Partido nessa semana, desde as iniciativas às tomadas de posição. Quando algum assunto merece um tratamento mais aprofundado, surge um programa especial da Comunic. O último caso sucedeu recentemente, com o programa dedicado ao aniversário do Partido.
Mas não é só nas notícias que a Comunic é uma rádio diferente. «Tentamos divulgar eventos nas várias áreas, de norte a sul do País», realça Maria João Simões, destacando que o critério da agenda cultural é a qualidade. «Normalmente, tentamos divulgar aquilo que é gratuito», afirma.
Também ao nível da selecção musical, a Comunic destaca-se por passar noventa por cento de música portuguesa ou lusófona. «Também recuperamos aquelas músicas que não se ouvem em mais lado nenhum», lembra João. Sofia acrescenta: «Recebemos muitos elogios pela nossa selecção musical.»
Na opinião de João Aboim, a rádio tem um papel muito importante na preservação e divulgação da memória histórica do Partido e do País. Na primeira emissão, conta, passou uma entrevista concedida à Rádio Portugal Livre por Álvaro Cunhal, durante a ditadura. «O Partido tem isso guardado e a Comunic divulgou…»


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