Homenagem a Georgette e Sofia Ferreira
Construtoras da liberdade
«O exemplo, a experiência e a história de vida da Sofia e da Georgette estão presentes. Resta-nos agradecer-lhes e continuar a luta», afirmou, domingo, Natacha Amaro, durante uma iniciativa do Movimento Democrático de Mulheres (MDM), em Alhandra, na CURPIFA, onde se homenageou Sofia e Georgette Ferreira, mulheres que contribuíram, com um enorme esforço pessoal, para a conquista da liberdade.
Alhandra, terra de resistência e de luta, viu nascer muitas mulheres e homens que deram um contributo inestimável à demanda da liberdade. O crescimento da indústria e a intensidade da exploração confluíram nesta região, e em todo o Baixo Ribatejo, incrementando um forte movimento operário. Aqui, como noutros pontos do País, as mulheres viveram tempos terríveis, foram vítimas de perseguições, assistiram às injustiças, fizeram grandes sacrifícios.
Foi também em Alhandra, na década de quarenta, ainda muito jovens, que mulheres como a Georgette e a Sofia Ferreira iniciaram a sua actividade política na luta pela liberdade e pela democracia, contra o fascismo que algemava o País.
«Foi nesta terra, queridos amigos, que comecei a minha vida revolucionária. Nascida em Alhandra, e vivendo em Vila Franca de Xira, integrei um grupo de jovens comunistas, onde aprendi a compreender o que é o espírito revolucionário da classe operária, o seu anseio, cultura, e a sua capacidade para interpretar e aprender», disse, na ocasião, Georgette Ferreira.
«Foi também aqui», lembrou, com emoção, «pela mão do nosso saudoso amigo, Soeiro Pereira Gomes, com participação da sua mulher, Manuela Câncio Reis, que nós despertámos para a cultura nas colectividades, para as zonas de leitura, e compreendemos como é importante dar ao nosso povo a cultura que o fascismo nos roubava». Por isso, continuou, «é com grande emoção que, aqui em Alhandra, depois de muitos anos, reencontro alguns amigos, mas também novas gerações, com a vontade, combatividade, esperança, que o nosso Abril vencerá!».
Georgette Ferreira, «avessa a homenagens, porque a nossa contribuição na luta e na vida é uma coisa natural», saudou ainda todas as mulheres «que de formas diferentes, prestaram a sua solidariedade clandestina, à nossa luta contra o fascismo».

Defender Abril

Sofia Ferreira disse, de igual forma, que a homenagem que o MDM lhes prestou «deveria ser alargada a todas as mulheres que lutaram durante os 48 anos do regime fascista».
Pronunciando-se acerca do presente e, também, do futuro, Sofia Ferreira evocou ainda o 30.º aniversário da aprovação da Constituição da República que consagrou a igualdade entre homens e mulheres. «Vivemos um momento político difícil onde a Constituição assiste a grandes perigos, onde novas revisões revogam direitos ao povo português», denunciou, sublinhando que «a luta que uniu as mulheres antes do 25 de Abril, continua a ser necessária, indispensável, para defender Abril, a nossa liberdade, por uma sociedade mais justa». Sofia Ferreira terminou a sua intervenção dizendo: «A luta continua, Camaradas».

Continuar a luta

No final da homenagem, antecedida por um almoço/convívio, Natacha Amaro frisou que o MDM, organização nascida também nos tempos do fascismo, «contou e conta nas suas fileiras com mulheres progressistas que, mesmo nos tempos mais difíceis, incluíram nos seus objectivos a batalha pelo fim das guerras coloniais, pela melhoria das condições de vida e de trabalho, pela liberdade».
«O Estado fascista defendia um ideal feminino marcado pela docilidade, pela passividade e dependência, contribuindo para isso a dificuldade de acesso das mulheres à educação e formação. Realizando greves, animando protestos ou dinamizando grandes movimentações de massas, as mulheres do MDM sempre participaram em acções contra o regime fascista, numa altura em que as mulheres portuguesas ainda se encontravam bastante coarctadas nos seus direitos», afirmou a dirigente do MDM.
«Mas este nosso encontro, hoje, tem um intuito maior», continuou Natacha Amaro, sublinhando que «ao homenagearmos estas resistentes ao relembrarmos o seu passado, a sua acção e luta, estamos a ampliar o património de cada uma de nós e do próprio movimento. Ao dar a conhecer ou, no caso de muitos dos presentes, ao relembrar estes percursos de vida, estamos também a estimular a intervenção das mulheres nos dias de hoje».

Exigir mais direitos

Numa mensagem de confiança, Natacha Amaro acentuou que o MDM enfrenta o futuro com a cabeça erguida. «Muitos desafios se nos colocam e as dificuldades não retrocedem. O evoluir dos conflitos no mundo, a grave situação em que o País se encontra, a crescente perda de direitos dos cidadãos e, consequentemente, de retrocessos nos direitos das mulheres, leva-nos a reagir e a lutar por uma vida melhor», disse, exigindo «mais direitos, melhores salários, uma vida condigna, reformas compatíveis, saúde para todos, apoios à maternidade e à infância, o fim da penalização do aborto, o reconhecimento do estatuto das mulheres na sociedade e no mundo».
Por fim, a dirigente do MDM, porque as dificuldades são muitas, gigantescas, por vezes, apelou à organização do protesto e da luta das mulheres em defesa dos seus direitos. «O legado destas mulheres – resistentes, lutadoras, decididas a mudar a pequena realidade que as rodeava e, assim, o mundo – é um exemplo e também uma esperança».

Georgette Oliveira Ferreira

Nasceu em 25 de Junho de 1925, em Alhandra. Em 1942 filia-se na Juventude Comunista Portuguesa e em seguida no PCP, passando à clandestinidade em 1945.
Em 1949 é presa pela PIDE. Evadiu-se em 4 de Outubro de 1950 do Hospital de Santo António dos Capuchos em Lisboa, tendo sido a primeira mulher a fazê-lo. É novamente presa em 1957. Nos próximos anos adoece gravemente devido aos maus-tratos e negligência da PIDE, o que gera uma campanha de solidariedade nacional e internacional a exigir a sua libertação.
Georgette Ferreira foi libertada em 1959. Entre 1953 e 1988 fez parte do Comité Central do PCP. É membro da URAP – União dos Resistentes Antifascistas Portugueses.

Sofia Oliveira Ferreira

Nasceu a 1 de Maio de 1922, em Alhandra. Em 1944 filia-se no PCP, passando à clandestinidade após dois anos do seu recrutamento.
Em 1949 é presa pela PIDE. Estava com Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro na mesma casa onde foi encontrada. Em 1957 é eleita para o Comité Central do PCP no seu V Congresso.
Após 10 anos da sua primeira captura, é novamente presa pela PIDE em Lisboa e encarcerada no Reduto Norte do Forte de Caxias. Em 1968, Sofia Oliveira sai em liberdade condicional.
É membro da URAP – União dos Resistentes Antifascistas Portugueses


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